• Rodrigo Bragança Crédito de Tárita de Souza

    Perspectivas da solidão

    Você já se deparou com uma obra de arte da qual não gostou? É uma pergunta salutar num momento em que surgem movimentos querendo a censura de exposições de arte no Brasil. Pois eu me vejo em situações parecidas, sem, no entanto, querer calar qualquer expressão artística. No mês passado, recebi pelo Correio “Solo para um homem só”, CD do guitarrista, compositor e poeta Rodrigo Bragança. Senti um grande incômodo, minha primeira reação foi a de não gostar do trabalho, no qual o artista expressa uma das doenças que mais assolam a humanidade: a solidão, que é, muitas vezes, a porta de entrada da depressão. Explorando timbres de sua guitarra e usando sintetizadores, Bragança declama alguns de seus poemas, contidos no livro que leva o mesmo título do CD, e que deu origem ao seu som sombrio. O trabalho também está disponível no Deezer, aplicativo de streaming de música.

  • capa_circular Santiago CHile

    Um ouvido na cabeça, outro no coração

    No início de outubro, peguei uma gripe poderosa. Como reflexo, sofri uma infecção no ouvido direito, que causou uma dor absurda até o penúltimo domingo, e que me deixou surdo nesse hemisfério. A previsão é que eu volte a ouvir – se Deus quiser – daqui a dois meses. A vida continua. Mas, com o ouvido esquerdo, foi possível sentir novos sons: o compositor e baterista alagoano Carlos Ezequiel lançou “Circular”, uma experiência jazzística polirrítimica poderosa, com a participação de dois músicos estrangeiros convidados; o violonista baiano Gabriel Santiago, músico premiado nos Estados Unidos, apresentou “Traveler”, altamente inspirador na melodia e em seus vocalizes; e o pianista Tomás Improta veio com “Olha Pro Céu”, disco solo no qual interpreta músicas de Tom Jobim, Ary Barroso, Edu Lobo, Torquato Neto, Villa-Lobos, Cole Porter e composições próprias. Todos os discos estão no Deezer, meu serviço de música por streaming.

  • Delia Fischer Mercado

    Amor para dar e vender

    A pianista, compositora e cantora Delia Fischer lançou no fim de agosto “Mercado”, videoclipe de música feita em parceria com Thiago Picchi. Com uma produção caseira, mas poderosa, a canção reflete sobre a máxima que dinheiro não compra o amor. E a trama se desenrola na relação da compra do amor de um homem, seja pelo desejo de uma mulher ou de outro homem. A questão é mais antiga que a história da humanidade, mas não deixa de ser contemporânea. Os reacionários ganharam a internet, com a disseminação do ódio e da moral hipócrita. E, como em uma obra de arte, Delia se despe de moralismos, embora transpareça a dor que o poeta sente do mundo: “os corpos se entendem, mas as almas não”, já dizia Manuel Bandeira. “Compre embalado seu namorado / Compras do coração / Bem a seu lado existe um mercado / Sempre à disposição”, diz a cantora.

  • 2Mula Sem Cabeça20150714_Serrinha_ResidenciaMusical_WalterCosta_MG_1378

    Camba(i)lhota

    “Quando eu vou assistir um concerto, um show, eu espero sair melhor do que entrei. Aquilo tem que transformar minha vida de alguma forma.” A frase do baterista e compositor Magno Bissoli, em entrevista a este blog em 2014, revela a transformação que a arte pode operar no público. E, entre os músicos, ocorrem transformações parecidas, ainda mais quando são realizadas as chamadas “residências artísticas”, que reúnem artistas de outras regiões e países. Em 2015, o festival Arte Serrinha, que é realizado em uma antiga fazenda que produzia café em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, promoveu pela primeira vez em sua história um encontro de músicos brasileiros e estrangeiros. Como resultado desse encontro, nasceram muitas músicas inéditas, eternizadas no CD-DVD “Música na Serrinha – 10 dias de criação”, lançado no início de setembro pela gravadora Núcleo Contemporâneo.

  • Maurício Mohamed - Crédito Foto José Cardoso

    Vida áspera, som aveludado

    A música quase perdeu Maurício Mohamed para o futebol. Aos 15 anos, o músico deixou de lado a flauta transversal que começara a estudar aos dez para partidas da principal paixão nacional. Azar da seleção brasileira, sorte da música instrumental. Em 2015, o flautista e saxofonista lançou “Velvet Sounds”, seu primeiro CD. O trabalho apresenta arranjos instrumentais para lados B de compositores como Tom Jobim, Milton Nascimento, Mozar Terra, João Donato. Desde então, Mauricio tem realizado apresentações dessas músicas nos bares de jazz de São Paulo. E, na mente, o gostinho de quero mais: o músico planeja um segundo CD, incluindo agora um dos mais antigos dos instrumentos musicais: a voz.

  • João Taubkin Foto Crédito de Antonio Brasiliano

    Um xamã fusion

    “Olha embaixo da sua cama!” João Taubkin, então com 14 anos, correu para o quarto, esperando encontrar um pedal de guitarra overdrive, que havia pedido de presente para o pai, o pianista Benjamim Taubkin, que viajara para um show nos Estados Unidos. Mas, para sua decepção, o que lá estava era um baixolão, um contrabaixo acústico, parecido com um violão. “Não foi amor à primeira vista”, diz o músico. Presentes inesperados como esse mudaram a vida do garoto para sempre. Hoje, compositor e baixista consagrado, João aprendeu a surpreender seu público, que poderá ver em setembro vídeos inéditos do artista nas redes sociais. O CD, enquanto objetivo máximo de um músico, já é coisa do passado na era digital. A produção de seus próprios projetos e a realização de shows, com muitos parceiros, transformou a vida do baixista em uma aventura frenética, com projetos sobre a confluência entre a música e a dança e a retomada de um som hipnótico que fizera em trio, e que agora terá nova formação em quarteto.

  • Eristhal Luz

    Purgatório aromático

    Era como se do teto descessem estalactites, por onde escorria um ácido, que queimava o corpo dos viventes. Foi essa sensação que tive, em 2010, ao ouvir a música “Purgatório” ao vivo, dentro de uma das salas de ensaio do Estúdio Z7, do guitarrista, humorista e filósofo bissexto Tadeu Martinez. A Boom Project Band, que à época era formada por Chico Leibholz (bateria), Miro Dantas (baixo e sintetizadores) e Eristhal Luz (guitarra), acabara de ser criada. A banda ensaiava com frequência nesse estúdio da Vila Madalena naquela época, fazendo um rock instrumental psicodélico, uma mistura de surf music com funk. Seguiram-se muitos shows, o lançamento do CD da banda em 2011, e também, algumas despedidas, que geraram ainda mais arte. O também artista plástico Miro Dantas resolveu se dedicar exclusivamente à pintura e ao estúdio de tatuagens, realizando um trabalho incrível. É dele, por exemplo, o projeto “Uma tatuagem por uma vida melhor”, no qual ajudou a recuperar a autoestima de mulheres que sofreram com o câncer de mama. Chico Leibholz está prestes a lançar um novo projeto, que se chamará Fluhe. “É instrumental trip noise”, define o baterista. E o guitarrista Eristhal Luz colocará na praça, nos próximos dias, “Aromáticas”, o seu primeiro trabalho autoral, que ficará disponível em plataformas de streaming de música.

  • Navio_negreiro_-_Rugendas_1830

    Nos porões da dor

    Há discos que são eternos, especialmente porque conseguem encontrar poesia onde há uma imensa dor. Letieres Leite, na Bahia, e Jorge Marciano, em São Paulo, são dois artistas mestres nesse campo, com trabalhos que expressam em arte o sofrimento dos negros trazidos da África para o Brasil.

Textos

Rodrigo Bragança Crédito de Tárita de Souza

Perspectivas da solidão

Você já se deparou com uma obra de arte da qual não gostou? É uma pergunta salutar num momento em que surgem movimentos querendo a censura de exposições de arte no Brasil. Pois eu me vejo em situações parecidas, sem, no entanto, querer calar qualquer expressão artística. No mês passado, recebi pelo Correio “Solo para um homem só”, CD do guitarrista, compositor e poeta Rodrigo Bragança. Senti um grande incômodo, minha primeira reação foi a de não gostar do trabalho, no qual o artista expressa uma das doenças que mais assolam a humanidade: a solidão, que é, muitas vezes, a porta de entrada da depressão. Explorando timbres de sua guitarra e usando sintetizadores, Bragança declama alguns de seus poemas, contidos no livro que leva o mesmo título do CD, e que deu origem ao seu som sombrio. O trabalho também está disponível no Deezer, aplicativo de streaming de música.

capa_circular Santiago CHile

Um ouvido na cabeça, outro no coração

No início de outubro, peguei uma gripe poderosa. Como reflexo, sofri uma infecção no ouvido direito, que causou uma dor absurda até o penúltimo domingo, e que me deixou surdo nesse hemisfério. A previsão é que eu volte a ouvir – se Deus quiser – daqui a dois meses. A vida continua. Mas, com o ouvido esquerdo, foi possível sentir novos sons: o compositor e baterista alagoano Carlos Ezequiel lançou “Circular”, uma experiência jazzística polirrítimica poderosa, com a participação de dois músicos estrangeiros convidados; o violonista baiano Gabriel Santiago, músico premiado nos Estados Unidos, apresentou “Traveler”, altamente inspirador na melodia e em seus vocalizes; e o pianista Tomás Improta veio com “Olha Pro Céu”, disco solo no qual interpreta músicas de Tom Jobim, Ary Barroso, Edu Lobo, Torquato Neto, Villa-Lobos, Cole Porter e composições próprias. Todos os discos estão no Deezer, meu serviço de música por streaming.

Delia Fischer Mercado

Amor para dar e vender

A pianista, compositora e cantora Delia Fischer lançou no fim de agosto “Mercado”, videoclipe de música feita em parceria com Thiago Picchi. Com uma produção caseira, mas poderosa, a canção reflete sobre a máxima que dinheiro não compra o amor. E a trama se desenrola na relação da compra do amor de um homem, seja pelo desejo de uma mulher ou de outro homem. A questão é mais antiga que a história da humanidade, mas não deixa de ser contemporânea. Os reacionários ganharam a internet, com a disseminação do ódio e da moral hipócrita. E, como em uma obra de arte, Delia se despe de moralismos, embora transpareça a dor que o poeta sente do mundo: “os corpos se entendem, mas as almas não”, já dizia Manuel Bandeira. “Compre embalado seu namorado / Compras do coração / Bem a seu lado existe um mercado / Sempre à disposição”, diz a cantora.

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