20 minutos e muita história

eraumaveznooeste_ creditos versos polaris

“Meu amigo, meu compadre, meu irmão. Escreva sua história pelas suas próprias mãos.” Ao ouvir esse refrão, da música “Como Diria Dylan”, de Zé Geraldo, Douglas Man encontrou o seu caminho. Nascido no Jardim Imperador, em São Paulo, Douglas cresceu ouvindo modas de viola de duplas como Tonico e Tinoco. À época, algumas ruas do bairro da periferia da capital ainda eram de terra, o que deixavam mais naturais essas notas soltas no ar, criando um clima ainda maior de interior. “Eu comecei a ser tocado pela música de viola, a música sertaneja de raiz”, lembra. Ganhou um violão, aprendendo a tocar sozinho nos livrinhos que se vendiam em bancas de jornal. E foi com Zé Geraldo que, da década de 1990, ele teve a consciência que também poderia compor suas próprias músicas. Ainda neste ano, Douglas lançará seu primeiro trabalho autoral. Mas sua atuação se estende em diversas frentes, mas todas elas amarradas a um mesmo nó: cantar histórias. A música sertaneja de raiz lhe apresentou as primeiras histórias, que foram depois sendo ditadas por Bob Dylan, Zé Geraldo, Zé Ramalho, Renato Russo, Led Zepplin, Raul Seixas. De tal forma que Douglas considera “folk music” toda aquela canção que contar uma história.

Caridade em tempos de crise

Assimetria no Caminho ((Roger Marzochi)

A luz diáfana que atravessa as árvores entre os gentis caminhos do Parque Villa Lobos, em São Paulo, revela uma beleza baça na mistura entre o verde da vegetação, o cinza do chão e a suave névoa branca de uma manhã molhada do fim de fevereiro. Com uma pasta azul embaixo do braço, cujas pontas estão esgarçadas, revelando o bege do papelão da qual é feita, seu Gutemberg procura latinhas nas lixeiras. “A chuva deve ter espantado o povo daqui ontem, consegui quase nada”, diz. Após reunir o que pode de recicláveis, que são colocados em sacos plásticos, esse homem negro com barba e cabelos embranquecidos, percorre empresas da região da Lapa entregando o conteúdo de sua pasta: currículos. “Trabalhei a vida toda de ajudante ou conferente, não sei fazer outra coisa”, afirma. Gutemberg me fez refletir sobre o que realmente significa a palavra caridade, um conceito que está na base de todas as religiões do mundo. Mas, afinal, o que é caridade? E como é possível hoje praticá-la? “A caridade é um impulso de amor que faz você ver o outro como um templo divino. O povo confunde com filantropia, que sempre diferencia o ajudado de quem ajuda”, diz o jornalista e escritor Pedro Fávaro Jr.

Além de documentário, “Woodstock brasileiro” deve ser lançado em CD e vinil

Público de 1975 - foto de arquivo pessoal Leivinha

Nem a direita, nem a esquerda. Foram os hippies que revolucionaram os padrões de comportamento durante a abertura lenta e gradual da Ditadura (1964 – 1985), a partir do governo de Ernesto Geisel, em 1974. É esta a mensagem de “O Barato de Iacanga”, documentário que será exibido em abril em São Paulo e Rio de Janeiro no festival “É Tudo Verdade”. Thiago Mattar, diretor do filme, está negociando com artistas que participaram do Festival de Águas Claras, na cidade paulista de Iacanga, entre 1975 e 1984, para lançar um CD com as gravações originais dos shows, que transitavam entre o rock e baião, com ícones como Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, João Gilberto, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Alceu Valença, Raul Seixas, Walter Franco, Jorge Mautner e Gilberto Gil. “O ideal seria fazer um álbum duplo. E aí entrariam duas músicas de cada artista. Eu acho que a gente precisa tornar esse material público. As pessoas precisam ouvir. Só o show do João daria um disco só dele. Existe uma máster, um original da gravação. E eu escutei e dá para lançar um disco ‘João Gilberto ao vivo em Águas Claras’”, diz Mattar.

Um som “Solar”

foto divulgação Alfredo Dias Gomes -creditos Thiago Kropf

O multi-instrumentista Alfredo Dias Gomes, filho dos dramaturgos Janete Clair e Dias Gomes, está lançando “Solar”, seu 11º disco autoral, com a participação do saxofonista e flautista Widor Santiago. Gomes assina as composições, algumas com mais de 30 anos, mas ainda inéditas em CD, além de tocar bateria e teclados. “Viajante”, a música que abre caminhos do trabalho, foi composta em 1980 a pedido de Janete, que à época queria um tema para um personagem interpretado por Tarcísio Meira na novela “Coração Alado”. O jovem baterista, que trabalhava nesse período na banda de Hermeto Pascoal, foi no coração do Brasil para representar esse personagem, que saíra do Nordeste para viver no Rio de Janeiro. O CD está disponível em streaming e meio físico, embora haja um problema ao ouvi-lo no Deezer. Exatamente aos 3 minutos e 36 segundos de “Viajante” nessa plataforma, a música dá um salto abrupto, coisa que não ocorre com o CD físico.

Jazz na zona de guerra

Vinicius Chagas Warzone

O jovem saxofonista Vinícius Chagas lança “Warzone”, seu seguindo trabalho autoral, com um som carregado em velocidade de execução e gritos muito próximos do completo desespero, desalento e desamor. Sua fascinação pelo jazz de Miles Davis e Charlie Parker estão nítidos em seu swing e na fotografia que escolheu para ilustrar o seu WhatsApp, embora suas dissonâncias o deixem mais próximo de Ornette Coleman e do free-jazz. Mas, afinal, por que você toca assim? Por que você grita? “Eu cresci em igreja evangélica, ouvindo muita música gospel. E música raiz, samba, por influência do meu pai. Isso está dentro da minha musicalidade. Tem uma coisa melódica, mas tem uma tristeza. Todos esses fragmentos são coisas da minha vida pessoal que se refletem na música”, explica o saxofonista. “A maneira de tocar vem da influência da minha vivência, minha personalidade. Reflete o jeito que eu toco, reflete mais a minha personalidade que o momento. As composições podem ter minha maneira de tocar, que desenvolvi há anos.”

Um todo mais que completo

Giba Estebez

O pianista paulistano Giba Estebez resgatou o conceito do “todo” como inspiração para o seu primeiro trabalho autoral, lançado em meados de 2018 nas plataformas de streaming. “Omni”, que vem do latim todo, inteiro, reúne dez composições autorais do músico, que além de acompanhar cantoras como Alaíde Costa, Claudette Soares e Patricia Marx, é um dos instrumentistas mais ativos da cena do jazz brasileiro. O CD físico deverá ser lançado em 2019, com realização de shows em São Paulo. As composições são inspiradíssimas, resultado de grande dedicação ao estudo musical, que deslanchou nos anos 1980, apresentando ao público diversos estilos entre jazz, samba-jazz, bossa nova e uma incrível fusão das tradições ocidental e oriental na peça que batiza o trabalho.

Improvisação no Choro e jazz brasileiro passa por transformação “ininteligível”

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Avenida Rudge, 944, Bom Retiro. Era para esse endereço que Izaías Bueno de Almeida se deslocava com grande alegria, o maior número de noites possíveis, ao longo da década de 1960, em São Paulo. Lá morava Antonio D’Auria, o criador do Conjunto Atlântico, um importante grupo de choro do País, cuja trajetória é contada no livro “Conjunto Atlântico – Uma História de Amor ao Choro”, de José de Almeida Amaral Júnior. No fundo da residência, pertencente à família de D’Auria até hoje, rodas de choro se formavam num estúdio improvisado de cerca de 16 metros quadrados. Em uma dessas noites na casa do saudoso chorão, Izaías estava na roda com seu bandolim, tocando uma das músicas que mais marcaram o início de seu aprendizado no instrumento: “Doce de Coco”, de Jacob do Bandolim. O jovem músico mal conseguiu acreditar em seus olhos quando, naquele mesmo recinto, entrou Jacob do Bandolim, em pessoa. “Eu improvisei na frente dele. Foi uma ousadia da minha parte. Os chorões improvisam, sempre improvisaram. Mas foi uma ousadia fazer uma variação para a música dele perto dele”, recorda Izaías, com certa angústia. “Ele fez uma cara de reprovação. Ele disse que não precisava de parceiros, que a música era bonita por si só. E eu fiquei envergonhado, inclusive. Mas foi o que aconteceu. Voltei a improvisar, mas não na frente dele. O Jacob tinha um temperamento terrível, muito difícil.” Hoje, aos 81 anos, é Izaías quem faz cara feia.

“Ao término de um período de decadência, sobrevém o ponto de mutação”

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Pode parecer contraditório se pensar em esperança em tempos como agora, com a ascensão da extrema direita, que nas pesquisas eleitorais tem vantagem na disputa pela Presidência da República. E, mesmo se Fernando Haddad ganhar, terá pela frente um País fraturado, tendo que negociar com extremistas e as fake news que os alimentam. Mas o percussionista e produtor musical Kastrup mantém viva essa capacidade de sonhar, desejo esse que se transformou em som. O músico, com a participação de vários artistas, está lançando neste mês “Ponto de Mutação”, um álbum-conceito que desenha no ar uma trilha sonora da transição de uma sociedade capitalista, ancorada numa visão cartesiana de mundo, para um sistema mais igualitário, no qual atributos considerados como arquétipos femininos como intuição, solidariedade e afeto serão “mola propulsora dessa virada de era”. Para o músico, as sementes dessa nova era já estão germinando, mas não será agora que darão frutos. “… ainda teremos inevitavelmente algum tempo de dificuldades pela frente, até que um novo período de luz ressurja. Mas as bases para essa mudança já estão sendo germinadas e brotadas agora, e é nelas que devemos nos concentrar”, afirma Kastrup.

Dani Gurgel dá asas à onomatopeia

Dani Gurgel

Quando a multi-instrumentista Dani Gurgel foi para o estúdio gravar “Voou”, uma das músicas mais fortes de “TUQTI”, o seu segundo disco autoral, não havia ainda uma letra. Isso nunca será empecilho para ela, que também é cantora. Dani desenvolveu uma técnica apurada de “scat singing”, usando a voz como puro instrumento em frases melódicas e percussivas. A gravação, cuja música teve parceria do violonista Daniel Santiago, era importante porque teve a participação da trompetista canadense Ingrid Jensen, musicista da orquestra da compositora americana Maria Schneider. Ouvindo os scats de Dani, Ingrid sentiu que aquilo se assemelhava a um canto de um pássaro. Emocionada com essa comparação, Dani decidiu criar uma letra para homenagear a trompetista, numa história de um pássaro fêmea que não teme voar, que é forte e alto o suficiente. “É uma coisa também sobre a dificuldade de ser mulher tocando música instrumental, que precisa se afirmar”, explica Dani. Segundo ela, é comum no meio musical uma musicista ouvir um tipo de elogio enviesado, do tipo: “ela toca igual a um homem”.

Fôlego de Cachalote

Iuri Nicolsky

A baleia Cachalote tem um fôlego da pesada. Ela consegue ficar submersa por até uma hora e meia até voltar à superfície para respirar. Inspirados nesse mamífero incrível, jovens do Rio de Janeiro criaram uma banda com esse nome, preparando-se para gravar o primeiro CD autoral. Um dos líderes da Cachalote é o saxofonista Iuri Nicolsky, 31 anos. O músico ficou conhecido no Brasil e no exterior com o projeto Nova Lapa Jazz, que começou tímido em 2011, com a ideia de tocar música instrumental na frente de um bar na Lapa, mas virou uma febre. “Isso me trouxe muitos frutos”, lembra o multi-instrumentista. “Reunimos até 4 mil pessoas na rua, fizemos show no Circo Voador, foi matéria do New York Times, isso me deu uma carreira profissional”, diz Iuri, à época estudante de música da Uni-Rio.

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