No tom da fé

Caboclo Pena Verde

A música é ciência e, paradoxalmente, religião. Aceitando a acepção dessa palavra do grego “religare”, de atar novamente, de reconexão com as origens, o uso da música para ascender ao sagrado é tão antigo quanto a humanidade. E vem do eco ancestral dos primeiros tambores a soarem na África o primeiro disco digital do Templo de Umbanda Caboclo Pena Verde e Mãe Oxum, localizado na zona oeste de São Paulo. Lançado em agosto de 2019 nas plataformas digitais, o CD tem 18 canções próprias, compostas por membros da congregação e pela dirigente espiritual da casa, Rosângela Bologna. Nem sempre as canções são exatamente as mesmas utilizadas no ritual religioso, mas são expressões artísticas fundamentadas na fé. “A Umbanda tem toda essa relação da musicalidade, que ajudar na estrutura de energia da casa, ao trazer a história de seu guia e o orixá trazem. Quando tem oportunidade, a gente canta. A ideia era fazer um álbum de pontos, de guias de orixá. Mas reestruturando acabaram entrando outros instrumentos e ficou mais uma música de Umbanda para a gente ouvir ao invés do ponto tradicional”, explica Rosângela, que sonhava com o projeto há seis anos.

Bruna Moraes despe a humanidade em “Nua”

Bruna Moraes1

É impossível sair ileso após ouvir “Nua”, o segundo CD da violonista, compositora e cantora paulistana Bruna Moraes, lançado em abril de 2019 nas plataformas digitais. A densidade de sua voz, a gravidade de suas palavras, desencobrem a grossa camada de resistência à alteridade, poeira que a contemporaneidade tem depositado nos relacionamentos nas mais diversas camadas. A capa, criada pelo artista plástico Roberto de Carvalho, faz uma metáfora do mundo a partir do olhar da cantora, convidando o ouvinte à sua perspectiva. E Bruna Moraes revela em suas canções o amor que mora na essência do ser humano, num mergulho perpendicular, o mesmo no qual o poeta Manuel Bandeira se jogou em “Nu”: para dentro do olhar líquido da amada, com o seu corpo reluzente como estrela, no qual “baixo até o mais fundo de teu ser, lá onde me sorri tu’alma, nua, nua, nua…” Com 24 anos de idade, Bruna Moraes comprova nesse novo disco que entrou definitivamente para a história da Música Popular Brasileira (MPB). O trabalho conta com a participação dos violonistas Romero Lubambo e André Fernandes. Cinco anos após o seu primeiro disco “Olho de Dentro”, ela retorna ousada, no estilo voz e violão, desafiando a indústria do entretenimento, pois seu show deixa marcas profundas.

Ciência e meio ambiente inspiram o CD “Quantum”

Duo Quantum 2019-08-08 at 11.11.08

Cientistas têm criado arte no Brasil, em um movimento que vem crescendo desde a década de 1960, refletindo um processo que ocorre em todo o mundo. Eles usam modelos matemáticos, microscópios, sensores, biossensores e algoritmos para fazer da técnica uma expressão lúdica e abstrata. A arte em si, no entanto, também é uma ciência, cujos métodos são muito diversos daqueles empregados pelo modelo cartesiano, que ainda exige prova em laboratório. A ciência da música é a capacidade de sentir e fazer sentir por meio de sons. A música não é matemática, não é física, apesar de as notas musicais e os instrumentos, na maioria das vezes, respeitarem leis dessas áreas do saber. “Em um primeiro momento, você conta o compasso. E, então, para de contar, pois você o internalizou. Você para de contar porque sente o número”, explica o pianista paulistano Daniel Grajew, que buscou inspiração na física quântica e no meio ambiente em “Quantum”, seu novo CD em parceria com o percussionista Túlio Araújo. Há participações especiais em várias composições, como Carlos Malta, Dani Gurgel, Jorge Continentino e Lea Freire. O disco foi feito sob encomenda do Savassi Festival, de Belo Horizonte, evento no qual os músicos realizaram o primeiro show do trabalho, em agosto deste ano.

“Operação Riga” é um canto místico de liberdade

Victoria Crédito Joana Peressinotto

Música é uma questão de gosto? A repórter e musicista Victória, protagonista do romance ficcional “Operação Riga – Sons entre a guerra e a sublimação”, de Roger Marzochi, sentirá na pele que o som pode destruir, construir e transcender. Enfrentando barreiras para publicar reportagens sobre música no Diário Brasileiro, recebendo muito pouco com as apresentações de sua banda de jazz, Victoria ainda descobrirá segredos sobre sua família que estão intrinsecamente ligados ao mistério dos sons, usados tanto para a guerra quanto para a cura. O ebook chegou na loja da Amazon no domingo, dia 18 de agosto.

A estética da cura

Anais Karenin Exposição no Japão 1 Crédito Divulgação

O artista plástico Roberto Burle Marx, reconhecido como um dos maiores paisagistas do mundo, usava plantas para fazer arte em seus jardins. Mas a busca pela natureza no fazer artístico extrapola o paisagismo. Jovens cientistas-artistas, empoderados com novas técnicas laboratoriais possibilitadas pelo avanço da tecnologia, vêm usando de plantas medicinais a bactérias para ressignificar conceitos como cura, memória e metodologia científica. Este é um ramo da bioarte, que lança um olhar lúdico para o mundo da biologia. A “aura” de uma obra de arte, expressão definida pelo filósofo alemão Walter Benjamin para identificar sua autenticidade, cuja emanação é possível na relação direta entre a obra e o observador no exato momento da fruição estética, é capaz de se transformar num verdadeiro “remédio social” ao se embrenhar nas intersecções da vida pessoal do expectador aos símbolos de sua cultura. Benjamin argumentava que, no momento que uma expressão artística é reproduzida pela técnica, como a fotografia, a sua aura desaparece. O tema, debatido avidamente na academia, especialmente num momento no qual a reprodutibilidade técnica alcançou seu ápice com a internet, chega à tona na bioarte.

10 anos de jornalismo cultural

Chris Joao e Dave Crédito Divulgação

Meu sonho no jornalismo sempre foi trabalhar como repórter. Quando comecei a estudar saxofone, em 2005, catando milhos nas partituras e nas chaves do instrumento, fui ampliando minha audição e comecei a nutrir também um grande desejo em escrever sobre música. Eu sempre via os repórteres de cultura dos cadernos dos principais jornais do País como semi-deuses. Seria possível conseguir escrever sobre sensações? Com apoio da jornalista Renata Freitas e do jornalista e escritor Pedro Fávaro Jr eu comecei a trilhar esse caminho. Ao saber que o pianista brasileiro João Carlos Martins estava programando uma apresentação com a lenda do jazz Dave Brubeck iniciei minha apuração. Não me lembro como consegui o celular de Martins. Liguei para o número, mas estava fora de área. Deixei recado. E, num sábado, Martins retornou minha ligação, convidando-me para uma visita ao seu apartamento em São Paulo. Foi um momento maravilhoso, conversamos muito. Ele ligou para Chris Brubeck e combinamos as outras entrevistas. Gravei Martins tocando piano em sua casa, vi um documentário muito emocionante em sua casa e me senti o mais feliz dos seres. É uma pena que a gravação do áudio de todo esse acontecimento tenha se perdido. Agora, em julho, as entrevistas que foram realizadas e a publicação da primeira matéria completam dez anos. Ao longo desse tempo, muitas conquistas e derrotas se passaram, muita coisa aprendi da música e do jornalismo cultural para saber que ainda nada sei. E compartilho com vocês as matérias que produzi à época.

Uma semente de esperança no sertão

As Cangaceiras Crédito Karim Kahn

Serena queria apenas encontrar o seu menino, retirado à força ao nascer e já com sentença de morte determinada pelo cangaceiro Taturano. E, em sua fuga, transforma a sua busca em uma verdadeira guerra no musical “As Cangaceiras Guerreiras do Serão”, do dramaturgo Newton Moreno, que recebeu na semana passada indicações na disputa de melhor dramaturgia nos prêmios Shell de Teatro e da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). A peça, que começou a ser apresentada em abril, encerra sua temporada no dia 4 de agosto no Teatro Sesi, no Centro Cultural Paulista, em São Paulo. O musical penetra fundo na alma em poesia, luz, som e movimentos. Mas não era a guerra que Serena queria em sua busca, tão somente sonhada enquanto puro amor desesperado de mãe. Interpretada magistralmente pela atriz e cantora Amanda Acosta, a personagem reverbera o grito de liberdade das mulheres no tempo do cangaço, ora aprisionadas aos padrões de comportamento da sociedade patriarcal, ora sufocadas pelo machismo e pela violência da vida rude dos bandos que vagavam pelo sertão. A luz do espetáculo é deslumbrante, o cenário, prático, simples e direto. E a banda ao vivo, separada do palco por um fino tecido translúcido, é incrível.

“Vamos sentir a falta de João”, diz Chick Corea

João Gilberto (1983_ por Mario Luiz Thompson)

Os grandes ícones da música têm histórias inusitadas. O bruxo Hermeto Pascoal, por exemplo, gaba-se de ter nocauteado Miles Davis no ringue que o trompetista americano tinha dentro de sua própria casa. E, quem diria, João Gilberto não era apenas o gênio que inventou a bossa nova, mas também nutria grandes habilidades no pingue-pongue. Quem lembra da história é o pianista americano Chick Corea que, a pedido do entresons.com.br, escreveu uma breve homenagem ao músico brasileiro, que morreu no último sábado, dia 6 de julho. “Eu e todos nós vamos sentir a falta do João. Vamos amar a sua contribuição musical para sempre”, afirmou Corea, que no fim de junho lançou o novo álbum “Chick Corea and The Spanish Heart Band: Antidote”, no qual o maestro revisita “Desafinado”, música de Tom Jobim e Newton Mendonça, imortalizada por João Gilberto.

Um antídoto contra a violência

Chick Corea2

Faça amor, não faça a guerra. E o amor pode se expressar de diversas maneiras. O pianista americano Chick Corea compartilha com o mundo a sua contribuição com essa máxima pacifista por meio de sua música, desde dos anos 1960. E, em 28 de junho, o músico com ascendência italiana, mas de coração latino, lançou o álbum “Chick Corea and The Spanish Heart Band: Antidote”, com músicas dos álbuns “My Spanish Heart” (1976) e “Touchstone” (1982). Revisitar grandes clássicos que traduzem o amor de Corea pelo universo latino-americano contou com grandes músicos de diversas partes do mundo, como Cuba, Espanha e Venezuela. E, no jazz, especialmente para artistas que transpiram música como Corea, a música gravada nunca será exatamente a mesma daquela apresentada no palco, tornando uma das expressões musicais mais inovadoras do mundo.

Mais veloz que a luz

Ivo Perelman1

Os impressionistas buscavam captar a luz no exato momento da pintura. Artistas como Van Gogh, por exemplo, chegaram ao extremo. Em seu quadro “Noite Estrelada”, ele retratou a turbulência em espiral que flui na expansão da luz – fenômeno reconhecido até mesmo pela ciência. O saxofonista brasileiro Ivo Perelman vai além. “Quero não só captar a luz, mas tudo”, diz o músico, radicado nos Estados Unidos desde a década de 1980. “Eu tento captar a totalidade da minha experiência corpórea e espiritual, a fisicalidade que me rodeia. E a minha luta e o meu processo é ser cada vez mais honesto com essa captura. E mais eficiente. Busco tirar pensamentos estranhos e distrações e entrar na vibração simplesmente do ser como tal, como zen. Me mesclar com meu meio ambiente, com meus outros manos, com o planeta, com os planetas da Via Láctea e com o Universo. É uma experiência mística, eu nunca quis ser artista para outra coisa.” Expoente mundial do free-jazz, Perelman e o pianista americano Matthew Shipp se apresentarão em São Paulo, dias 11 e 12 de julho, no Sesc Pompeia, com vários motivos interplanetários para comemorar. Na semana da apresentação no Brasil, o duo lançará uma caixa com quatro CDs batizada de “Efflorescence”. Este será o centésimo trabalho da carreira de Perelman, 58 anos, que também completa 30 anos de estrada desde o seu primeiro trabalho, “Ivo”. Há 20 anos, o instrumentista se enveredou pelas artes plásticas e ainda lançará no próximo mês uma plataforma de exibição e de comércio eletrônico de suas obras.

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