Ouvido Absurdo

Taquaritinga 2 - Marcos Tavares Costa MTC

Meia luz, meia noite. A sala está na penumbra, vez ou outra é perpassada por flashes luminosos projetados nas paredes pelos farois dos carros, que atravessam ferozes a encruzilhada onde fica o prédio da família do músico Taquaritinga, que mora em meio ao ruído enlouquecedor do primeiro andar de um condomínio na Vila Madalena, em São Paulo. No meio da sala, avó, avô, pai, mãe e filho do músico, subitamente desaparecido, formam um círculo e acendem uma vela no meio. O avô sussurra primeiro, com a boca flácida e já desdentada, o nome do neto, enquanto que, suavemente, ouve-se ritmos de tambores africanos, cuícas e paus de chuva. Todos dão as mãos e começam a fazer uma roda. Aos poucos, o ritmo se acelera e o sussurro ganha as proporções de uma canção em alto tom, puxada pela mulher do instrumentista, que pergunta:

Música em ponto de mutação

Foto de Luís Dávila - Vila Imagem — com Mario Aphonso III em Munhoz MG

É possível que seja mais comum que se imagina a ocorrência diária, em qualquer parte do mundo, de um final de tarde parecido com aquele das últimas cenas do filme “Ponto de Mutação” (Mindwalk, EUA, 1990), inspirado no livro “O Ponto de Mutação”, de Fritjof Capra (1983). No filme, uma cientista, um político e um poeta debatem as barreiras para se colocar em prática uma nova visão da vida não mais baseada no modelo cartesiano, que reduz o tempo e o homem a máquinas, mas em uma perspectiva integrada, em um sistema complexo de relações. Debates como este do enredo do filme estão na base de movimentos como o de defesa do meio ambiente, que floresceu em escala planetária nos anos 1980, de novas abordagens científicas, além de instigaram novas concepções sobre a cultura e a arte. Independentemente de terem visto o filme e compartilharem ou não as ideias sobre a teoria dos sistemas e da física quantica, dois artistas brasileiros de universos diferentes tiveram um por do sol semelhante ao do filme, representando o poeta, aquele que constrói a invisível teia de sentidos de uma nova forma de estar no mundo. Mario Aphonso III e MC Joul, cada um do seu jeito, criaram movimentos artísticos e sociais a partir da fusão da cultura brasileira com a norte-americana e a oriental, promovendo uma mudança de percepção estética e educativa.

Todas as noites serão de eclipse

ECLIPSE_Claudio Capucho

Um jogo de palavras sobre a temperatura ideal para se viver gerou o título do primeiro CD do Rodrigo Nassif Quarteto “Todos os dias serão de outono”, lançado em julho deste ano e que ficou em primeiro lugar de downloads na Apple Store em agosto. Com uma mistura muito sensível de estilos tão variados quanto o rock, valsa, jazz e ritmos da cultura popular latina como o chamamé e o tango-milonga, o grupo prova que a riqueza musical brasileira não tem limites, tamanha é a porosidade capaz de absorver elementos culturais diversos, que podem ser unidos em uma formação musical contemporânea. O grupo realizará show no dia 18 de outubro no Sesc Campinas e no dia 19 de outubro no Instrumental Sesc Brasil, em São Paulo.

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