10 anos de jornalismo cultural

Chris Joao e Dave Crédito Divulgação

Meu sonho no jornalismo sempre foi trabalhar como repórter. Quando comecei a estudar saxofone, em 2005, catando milhos nas partituras e nas chaves do instrumento, fui ampliando minha audição e comecei a nutrir também um grande desejo em escrever sobre música. Eu sempre via os repórteres de cultura dos cadernos dos principais jornais do País como semi-deuses. Seria possível conseguir escrever sobre sensações? Com apoio da jornalista Renata Freitas e do jornalista e escritor Pedro Fávaro Jr eu comecei a trilhar esse caminho. Ao saber que o pianista brasileiro João Carlos Martins estava programando uma apresentação com a lenda do jazz Dave Brubeck iniciei minha apuração. Não me lembro como consegui o celular de Martins. Liguei para o número, mas estava fora de área. Deixei recado. E, num sábado, Martins retornou minha ligação, convidando-me para uma visita ao seu apartamento em São Paulo. Foi um momento maravilhoso, conversamos muito. Ele ligou para Chris Brubeck e combinamos as outras entrevistas. Gravei Martins tocando piano em sua casa, vi um documentário muito emocionante em sua casa e me senti o mais feliz dos seres. É uma pena que a gravação do áudio de todo esse acontecimento tenha se perdido. Agora, em julho, as entrevistas que foram realizadas e a publicação da primeira matéria completam dez anos. Ao longo desse tempo, muitas conquistas e derrotas se passaram, muita coisa aprendi da música e do jornalismo cultural para saber que ainda nada sei. E compartilho com vocês as matérias que produzi à época.

Uma semente de esperança no sertão

As Cangaceiras Crédito Karim Kahn

Serena queria apenas encontrar o seu menino, retirado à força ao nascer e já com sentença de morte determinada pelo cangaceiro Taturano. E, em sua fuga, transforma a sua busca em uma verdadeira guerra no musical “As Cangaceiras Guerreiras do Serão”, do dramaturgo Newton Moreno, que recebeu na semana passada indicações na disputa de melhor dramaturgia nos prêmios Shell de Teatro e da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). A peça, que começou a ser apresentada em abril, encerra sua temporada no dia 4 de agosto no Teatro Sesi, no Centro Cultural Paulista, em São Paulo. O musical penetra fundo na alma em poesia, luz, som e movimentos. Mas não era a guerra que Serena queria em sua busca, tão somente sonhada enquanto puro amor desesperado de mãe. Interpretada magistralmente pela atriz e cantora Amanda Acosta, a personagem reverbera o grito de liberdade das mulheres no tempo do cangaço, ora aprisionadas aos padrões de comportamento da sociedade patriarcal, ora sufocadas pelo machismo e pela violência da vida rude dos bandos que vagavam pelo sertão. A luz do espetáculo é deslumbrante, o cenário, prático, simples e direto. E a banda ao vivo, separada do palco por um fino tecido translúcido, é incrível.

Núcleo Contemporâneo responde com arte à “destruição do País”

Rio Tocantins Estreito Maranhão Crédito Roger Marzochi

É possível pegar um ônibus de uma cidade a outra viajando com a cortina fechada e não ver paisagem alguma. Ouvir o pianista Benjamim Taubkin é como viajar levitando por entre todas as paisagens do mundo. Há 22 anos, a produtora e gravadora Núcleo Contemporâneo, criada pelo músico, segue impulsionando a música instrumental brasileira e, até hoje, lançando CDs, em plena era da música líquida dos streamings. E acabam de sair novidades desse fogo criador: o CD “Encontros”, no qual Taubkin toca com o violeiro Ivan Vilela, trabalho que será lançado em show no Sesc 24 de Maio, no dia 7 de agosto; e “O Piano que Conversa”, CD e DVD com o filme de Marcelo Machado, que acompanhou o pianista em dois países e músicos de cinco nacionalidades, vencedor do Prêmio do Público no Festival in Edit de 2017.

Na estante dos proibidos

Douglas Mam - Crédito da Foto de Antônio Borduque

A minha esperança no “rock and roll raiz” brotou ao ouvir o álbum “Transmutante”, da atriz, compositora e cantora Tchella, lançado no ano passado e revisitado em versão acústica em show no dia 13 de julho. Agora, com “Fahrenheit”, disco de estreia do poeta, compositor e cantor Douglas Mam, definitivamente o poder de transformação do rock retoma à cena com força. Mam é um poeta muito próximo de artistas como Cazuza e Renato Russo. Ele se inspirou no livro “Fahrenheit 451”, do escritor Ray Bradubury, que prevê um futuro distópico no qual um governo autoritário proíbe a existência de qualquer livro. O clipe da música-título do disco, dirigido por Antônio Borduque, já está no ar, assim como as oito composições, que podem ser encontradas em aplicativos de streaming. O trabalho será comemorado, com o CD físico, em show às 21h, no dia 26 de julho, no Sesc Belenzinho, em São Paulo.

“Vamos sentir a falta de João”, diz Chick Corea

João Gilberto (1983_ por Mario Luiz Thompson)

Os grandes ícones da música têm histórias inusitadas. O bruxo Hermeto Pascoal, por exemplo, gaba-se de ter nocauteado Miles Davis no ringue que o trompetista americano tinha dentro de sua própria casa. E, quem diria, João Gilberto não era apenas o gênio que inventou a bossa nova, mas também nutria grandes habilidades no pingue-pongue. Quem lembra da história é o pianista americano Chick Corea que, a pedido do entresons.com.br, escreveu uma breve homenagem ao músico brasileiro, que morreu no último sábado, dia 6 de julho. “Eu e todos nós vamos sentir a falta do João. Vamos amar a sua contribuição musical para sempre”, afirmou Corea, que no fim de junho lançou o novo álbum “Chick Corea and The Spanish Heart Band: Antidote”, no qual o maestro revisita “Desafinado”, música de Tom Jobim e Newton Mendonça, imortalizada por João Gilberto.

Um antídoto contra a violência

Chick Corea2

Faça amor, não faça a guerra. E o amor pode se expressar de diversas maneiras. O pianista americano Chick Corea compartilha com o mundo a sua contribuição com essa máxima pacifista por meio de sua música, desde dos anos 1960. E, em 28 de junho, o músico com ascendência italiana, mas de coração latino, lançou o álbum “Chick Corea and The Spanish Heart Band: Antidote”, com músicas dos álbuns “My Spanish Heart” (1976) e “Touchstone” (1982). Revisitar grandes clássicos que traduzem o amor de Corea pelo universo latino-americano contou com grandes músicos de diversas partes do mundo, como Cuba, Espanha e Venezuela. E, no jazz, especialmente para artistas que transpiram música como Corea, a música gravada nunca será exatamente a mesma daquela apresentada no palco, tornando uma das expressões musicais mais inovadoras do mundo.

Memórias e saberes das “Matriarcas” são tema de exposição em Campinas

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Quem são essas mulheres que perpetuam a potência das Culturas Populares e Tradicionais na cultura na região de Campinas? A documentarista visual Fabiana Ribeiro mergulhou em territórios ricos e férteis para mapear o retrato das memórias, saberes, fazeres e a herança cultural da potência feminina. Em fotografias, livro e audiovisual, o público poderá conferir o resultado da empreitada no projeto “Matriarcas”, contemplado pelo Edital nº 26/2018 do Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. O registro da iniciativa estará em exposições fotográficas itinerantes por Campinas, em três espaços públicos: Estação Cultura, Casa de Cultura Tainã e Casa de Cultura Itajaí. A abertura acontecerá na Estação Cultura no dia 5 de julho, sexta, a partir das 19h.

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