Pecado capital?

Roger Marzochi, matéria publicada na revista Melhor Gestão de Pessoas, Editora Segmento, em junho de 2014

Na busca de melhorar o ambiente de trabalho e ajudar na motivação de seus funcionários, empresas têm estimulado a fé dos empregados em alguma crença ou na prática de ações que alimentem a espiritualidade de uma forma mais ampla, independentemente da religião. O grande desafio dessas companhias é evitar que tais práticas criem constrangimentos a funcionários que não professam determinada crença ou não acreditem em certas práticas, pelo fato de abordarem questões pessoais que não estão ligadas diretamente ao ofício. Para especialistas, o melhor mesmo seria que as companhias evitassem que a fé permeasse o ambiente de trabalho, tanto para respeitar a pluralidade religiosa como para evitar processos na Justiça e a sensação que a prática religiosa na companhia possa beneficiar um grupo de funcionários na hora de promoções.

A Synchro, a maior fornecedora brasileira de soluções fiscais, coloca à disposição de seus 340 colaboradores um oratório na sede da empresa em São Paulo e na filial em Campinas. Na sede, todas as quartas-feiras, às 12h30, um padre realiza uma missa no oratório, que comporta 20 pessoas. Em Campinas não há celebração de missa, mas todas as terças-feiras, às 18h, são realizadas as orações do “terço dos homens”. “Encaramos as pessoas como nosso principal ativo. A empresa não é feita de mesas nem computadores, mas de pessoas. E enxergamos o funcionário como um ser integral, com as dimensões racional, física, afetiva ou emocional e espiritual”, explica Ricardo Funari, diretor presidente da Synchro.

Funari e os outros três sócios da companhia são católicos praticantes. “A gente vê na própria empresa um instrumento de Deus, a serviço de Deus e da sociedade.” Ele, no entanto, afirma que entre os empregados há espíritas, mórmons e, inclusive, ateus. E garante que todos têm as mesmas chances de promoção, embora tenha uma posição crítica com relação aos ateus. “O fato de acreditar que estamos aqui, fruto do puro acaso, terminado essa vida, acaba-se tudo… Eu não acredito que a pessoa seja ateu nessa completude. Difícil acreditar que alguém não acredite em nada. A gente percebe a nossa miséria, não é possível passar por aqui como uma formiga passa. É difícil acreditar nisso. Mas cada pessoa tem seu estágio de desenvolvimento e amadurecimento e, quem sabe um dia, encontre a Deus.”

Funari explica que a empresa não impõe ao funcionário a religião católica, nem aborda a questão da religiosidade em seus programas de desenvolvimento interno. “No nosso programa de desenvolvimento pessoal não falamos da religiosidade, mas sim na busca de um sentido, e damos um processo de autocohecimento e autoeducação e conscientização de que mudar o mundo e melhorar as coisas depende da ação de cada um. Hoje, as pessoas que vem ao mercado esperam que a motivação venha de fora para dentro. E a gente acredita no contrário. É claro que isso pode levar a Deus, mas não falamos de religião específica e não obrigamos ninguém a ter determinada crença numa religião ou outra. O que falamos no programa é que a motivação depende de um sentido para a sua vida. E a religião pode ajudar na busca desse sentido.”

Já o Banco do Brasil permite que seus funcionários se organizem em grupos de oração, ou de discussão de textos bíblicos, por entender que reforça no funcionário o “senso de missão” e a função social do trabalho, segundo explica o diretor de gestão de pessoas da instituição, Carlos Netto. “O banco respeita muito isso. O ser religioso é um ser 100% em tudo o que ele faz, presente no trabalho, fora do ambiente profissional e quando é presente no trabalho, com seus valores e crenças, precisamos respeitar isso. Eu acho que quando se fala de valores e ética toda força que estimule isso, a maior consciência do que você faz e da ética e da postura de princípios e valores, eu acho que é contribuição muito positiva.”

Dagmar Miriam Wendt, gerente de equipe da área de gestão de pessoas do BB, e Denise Nunes de Jesus, assessora da área de gestão de pessoas do BB, participam há quatro anos de um grupo de oração na sede do banco, em Brasília. O grupo atuou até o ano passado, mas deve retomar neste ano. “Prá mim houve uma transformação muito grande”, afirma Denise, que é da Igreja Comunidade das Nações, do pastor JB Carvalho. Por um ano e nove meses, o grupo chegou a discutir todo o Novo Testamento. “O grupo acabou tendo um efeito terapêutico. O texto provocava reflexões e as pessoas traziam questões pessoais ou do trabalho”, explica Dagmar.

Questionadas sobre a reação dos colegas, principalmente os ateus, elas negaram qualquer discriminação. “Não tem discriminação. Só que costumo colocar o nome dessas pessoas no livro de orações, para o espírito santo transformar essas pessoas”, afirma Denise. “Fico com pena das pessoas que deixam de experimentar”, conclui Dagmar.

Rito de comunhão - O Magazine Luiza é outro exemplo onde a questão religiosa é utilizada para motivar seus funcionários. A empresa, que nasceu em Franca, sempre teve o costume de realizar, às segundas-feiras, um “rito de comunhão” que permanece desde os dias atuais, segundo afirma Ruy Shiozawa, CEO do Great Place to Work (GPTW), que já elegeu a companhia, dirigida por Luiza Helena Trajano, como uma das melhores para se trabalhar no País. A empresa foi procurada pela reportagem, mas não quis comentar sobre o tema.

“O rito de comunhão é um evento com a própria Luiza Helena, uma oportunidade de ter contato com a presidente da empresa toda semana. Eles cantam o Hino Nacional, depois a celebração da empresa com o Hino do Magazine Luiza, e depois, vem uma comunhão com o absoluto, quando rezam o Pai Nosso”, explica Shiozawa. “Tem o viés católico, mas é mais simbólico que católico, porque estão falando da pátria, da empresa e do absoluto, para que pessoas de outras religiões fiquem à vontade mesmo rezando uma prece católica. Talvez em outros países isso até daria em morte, mas no Brasil é algo mais natural, uma pessoa não católica participar de um rito assim. E é voluntário. A própria Luiza me contou sobre isso. Olhando de fora, como avaliador da empresa, o espírito principal é a integração da equipe, valorizar o país, destacar as metas da empresa e ter um lado espiritual também.”

Mas por se sentir obrigada a rezar uma prece que não era de sua religião, a então caixa Rosimere Miquelin Felisbelo acionou na Justiça uma unidade das Casas Bahia em Piracicaba, no interior de São Paulo, onde trabalhou de 2004 a 2007. Evangélica, ela disse que era obrigada a rezar todos os dias por ordem do gerente da loja, afirmando que a oração era obrigatória. A ação, impetrada em 2008, também questionava o pagamento de horas extras. Segundo o advogado da reclamante, Jean Carlos de Souza, a Justiça reconheceu o direito ao pagamento das horas extras, mas não a acusação de a empresa ter ferido o direito fundamental de liberdade religiosa, garantido pela Constituição. A defesa argumetou que a oração não era obrigatória e que a prática era realizada uma vez por mês.

“O constrangimento era ficar no meio do saguão da loja com todos empregados, de mão dadas, rezando orações católicas, Pai Nosso e Ave Maria. Não eram pessoas convidadas para participar da reunião, era imposto. Tem que ir porque pode sofrer retaliação e realmente sofria. Isso foi sustentado no tribunal.  Mas os desembargadores entenderam que a prova na primeira instância não foi bem produzida, que ela era convidada apenas. O convidado é entre aspas”, diz Souza.

“Era uma gerente (que organizava a reza). Tinha que chegar mais cedo, ir para o meio da loja. Tinha uma Bíblia e uma santa, tinha que rezar o Pai Nosso e Ave Maria e ai se a gente não rezasse. Ela procurava onde você estava. Ai de você se não entrasse na roda”, relembra Rosimere. A assessoria de imprensa da Viavarejo, que administra a Casas Bahia desde 2010, informou que se isso ocorreu no passado foi por ação de um gerente, sem a orientação da empresa. De acordo com a assessoria, a Casas Bahia não tem nenhum tipo de política que permita realização de cerimônia religiosa no local de trabalho, para não ferir a individualidade.

Sustentabilidade – A espiritualidade também está inserida na política de sustentabilidade da ArcelorMittal  Tubarão, no Espírito Santo. Segundo Sidemberg Rodrigues, gerente de Comunicação, Responsabilidade Social e Relações Institucionais da empresa, em 2003, após palestras na unidade feitas pelo filósofo Karel Frans van den Bergen, da Universidade Federal do Espírito Santo, a companhia adotou a “sustentabilidade em seis dimensões”: “promovemos as dimensões ambiental, econômica, social, cultural, política e espiritual, com a conexão do indivíduo com um senso de pertencimento a um senso maior. O espiritual transcende à questão religiosa, porque pode ser espiritual sem ser religioso”, explica Rodrigues.

Cabana ecumênica na floresta da ArcelorMittal Tubarão, em Serra (ES), destinado aos seus funcionários para realizar orações e meditações

A sustentabilidade em seis dimensões, explica o executivo, tem como objetivo garantir uma visão holística da participação da empresa e de funcionários no tecido social, incentivando os funcionários a participarem ativamente da vida social e realizando campanhas que fortaleçam o senso de pertencimento e a espiritualidade, como uma forma de conscientização e um sentido para a vida. “Você observa que as pessoas, de modo geral, estão passando por um momento de insegurança, de grande vazio. Esse vazio é causado seja pelo excesso de racionalização e funcionalização, e as pessoas se esquecem da sua conexão delas com isso. Esse vazio existencial só pode ser preenchido com um sentido para você e sua vida. E aqui católicos, evangélicos – o espiritual é acima do religioso – são respeitados. Uns querem rezar, outros fazer meditação. A prática independe, porque temos prática de diversidade cultural”, explica Rodrigues.

Além de oferecer uma cabana ecumênica para seus funcionários em sua sede na cidade de Serra, a empresa se uniu com a prefeitura da cidade, o Ministério Público e a Justiça para implantar na cidade o projeto “Educação e valores humanos” em 2010, levando a prática da meditação para alunos e professores das escolas municipais. Esse projeto foi levado pela ArcelorMittal para sua unidade no México no ano passado e, no Espírito Santo, o Ministério Público Estadual tem atuado em conjunto com a empresa para conseguir que seja estendido para todas as escolas estaduais. “Eu brinco no MP que é um programa de desarmamento dos espíritos, temos escolas com muita violência no entorno, do professor olhando o aluno como agressor. E esse programa busca mudar atitudes para melhorar aprendizagem”, diz a Fabíola de Paula Secchin, promotora de justiça do Estado.

Ajoelou, tem que rezar? - Marco Antônio Lovizzaro, professor dos cursos de pós-graduação da FIAP em assuntos relacionados a Desenvolvimento Organizacional, Liderança, Gestão de Pessoas e Gerência de Mudanças, avalia que o ideal é a religião ficar fora do ambiente de trabalho. “Ter uma capela gera constrangimento. Estamos em uma empresa com capela. Tem um grupo que participa das missas. O que ocorre? Na hora que vou promover pessoas, por acaso, na minha decisão vou escolher os mais competentes e, por azar, os que eu tenho escolhido nos últimos meses professam a religião católica.”

Mesmo que a escolha seja feita por competência, não por religião, Lovizzaro explica que o ser humano vive de percepção, e a imagem que fica é que existe preferência por determinado segmento religioso. “A tomada de decisão envolve algumas pessoas e coisas que são discutidas em ambiente de decisão, que você não vai amplificar. O melhor é evitar isso no ambiente organizacional.”

Para Patrícia Epperlein, presidente da Mariaca, consultoria de gestão de pessoas e carreira, as empresas podem “pecar” por desejar realizar ações que avaliem como boas entrando no campo da religião. “É uma coisa boa ter a capela para rezar, mas você cria grupos. Vai ter um grupo que vai. Será que esse grupo ficará mais forte que o resto? Nessas aberturas pode pecar. Receio que as empresas criem segregações. Na ânsia de ajudar todo mundo, acabem indo para o outro lado. Vamos todos fazer oração de manhã? E quem não gosta? Não vai obrigar, mas não é questão de obrigar. Isso naturalmente faz uma seleção. Tem aqueles que vão ou não vão, e isso por si só cria segregações mesmo que não seja implícito. Não é o desejo da empresa, não está fazendo por mal, mas o resultado disso não é necessariamente bom.”

O advogado Gilberto Ferreira da Costa, do escritório Macedo e Costa Advogados, adverte as empresas a terem muito cuidado para respeitar a liberdade ampla e irrestrita à religião ou sua ausência garantida pela Constituição. Ele avalia que pode ser uma boa ferramenta de RH, desde que não seja imposta e que não beneficie os grupos ligados à religião professada pelo dono da companhia. “Se forem beneficiados, isso cria uma desigualdade incabível e pode gerar ações na Justiça de pessoas que se sentirem preteridas.”

Transparência – Ruy Shiozawa, CEO do Great Place to Work, avalia que atritos com os funcionários com relação a esse tema devem ser dirimidos já no início da contratação. Para ele, a empresa pode tentar trazer para a companhia pessoas comprometidas com a sua causa. “A empresa tem o direito de colocar isso como requisito. A pessoa que está entrando tem o direito de saber disso. O que eu não posso é entrar numa empresa sem saber isso. Primeiro dia de trabalho vai ter uma reza e eu sou radicalmente contrário a isso, a essa religião. Isso tem que ser acordado antes de a pessoa entrar, tem que ser transparente de lado a lado. A pessoa não pode aceitar o emprego e depois questionar.”

Lizete Araújo, diretora executiva da Veli RH, considera que as empresas estejam alinhando práticas religiosas ao ambiente corporativo muitas vezes por terem a espiritualidade como um dos seus valores. “Rezar uma missa, um Pai Nosso, um ritual que a empresa acredita que isso possa transmitir o valor com relação à fé ou religião é um caminho que a empresa quer escolher. Mas é importante que a empresa, desde o início da entrada do colaborador, informe que existe essa prática e que a pessoa não é obrigada a ter essa vivência. Atender o mercado, satisfazer o cliente e prezar pela espiritualidade, que pode influenciar no resultado do trabalho, não vejo nada errado desde  que seja colocado abertamente.”

O que não pode, explica o advogado Gilberto Ferreira da Costa, é a empresa discriminar na contratação um funcionário em decorrência de sua orientação religiosa. “Ainda que esteja ligado ao objetivo fim da empresa é um ato discriminatório. O Ministério do Trabalho, por meio de fiscalização, pode autuar a empresa por prática abusiva na contratação de empregados. Se de um lado possibilita ao empregado professar a fé no ambiente de trabalho, de atrair as pessoas para o emprego, ao mesmo tempo tem que tomar cuidado para não se transformar em prática discriminatória.”

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