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Templo budista inspirou Daniel Grajew a compor “Manga”, música que batiza o seu primeiro CD autoral

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

O pianista e compositor Daniel Grajew, hoje com 35 anos, acompanhou uma cantora em 2008, participando da banda e dos arranjos. Com a moça, o grupo disputou um concurso de música promovido pelo Templo Zu Lai, em Cotia, na Grande São Paulo. O prêmio era uma viagem para realizar um show na China. O grupo foi desclassificado, mas para Daniel a visita ao maravilhoso templo budista e a meditação que ele conseguiu fazer naquele local foi o bastante para ele semear “Manga”, composição que foi gravada no álbum “Tudo Azul” em 2011, do Carlos Malta Quarteto, e que agora dá o título do primeiro disco gravado pelo pianista, com apoio dos recursos liberados pelo Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo (Proac).

“Entrei no templo e fiquei meditando um pouquinho. O lugar é muito bonito. E, quando voltei, tinha aquela expectativa de ganhar (o concurso), mas que ao mesmo tempo valeu pela estada no templo. E quando voltei, voltei com essa música na cabeça, sentei no piano e essa música saiu”, explica Daniel, que pensa na música da mesma forma como um jardineiro cuida das plantas. “A música ficou um tempão parada, não sabia que nome dar. O curioso é que manga é uma fruta que eu adoro, sempre curti. E pesquisando vi que é uma fruta que veio do oriente e se adaptou bem no Brasil. E essa uma música, que é um ijexá, que tem levada brasileira, mas tem a pentatônica, que é oriental. E ela surgiu dessa mistura. Eu fiz lá atrás, em 2008. E depois você faz outro arranjo, fiz um arranjo para a mão direita, etc. É legal ter uma ideia que ela vai aumentando, a música precisa de atenção, ela vai crescendo, é como regar uma planta. Se você colocar ela no sol e dar atenção, ela brilha mais. E esse disco foi um pouco isso.”
O CD conta com um total de 11 músicas. Nove faixas Daniel compôs ao longo da sua experiência com a música, que começou aos 11 anos, quando ouviu um vizinho tocando piano. “E todos os brinquedos que ele tinha eu queria, e se ele tocava piano eu também queria. E minha mãe me colocou para estudar piano numa escola.” Ele ainda tem uma lembrança remota do móbile sonoro que havia em seu quarto que tocava “Lullaby”, de Brahms, e do piano de sua avó que ele herdou e que hoje está em sua sala, em um simpático grupo de prédios de três andares em Pinheiros, em São Paulo. Antes, o piano ficava na casa em que a avó morava em Ubatuba, onde ele brincava com as teclas sempre que descia a serra.

Além das músicas que ele compôs ao longo do tempo, o CD conta também com uma parceria sua com Humberto Zigler em “Berimbau ao Vento” e uma música de Nilton Leonarde: “Tio Anibal”. Ambos também fazem parte da banda. Zigler é baterista e percussionista e Leonarde toca contrabaixo acústico. Além desse trio, o CD conta ainda com a participação de Jorge Neto (trombone), Luis Passos (guitarra), Luiz Brasil (violão e berimbau), Carlos Malta (sax soprano) e Willie Daniel (guitarra). O som de “Manga” é vibrante, dando vida a baiões, choros e chamamés, com toda a potência da música instrumental brasileira.

Em “Sancho”, em alguns momentos, o som faz lembrar um pouco do som da pianista Alice Coltrane, em “Lovely Sky Boat”, mas não é nada que remeta especificamente à métrica musical, mas à essência, tendo em vista que são músicas um tanto quanto diferentes. Tão diferentes quanto a história do músico, que aos 14 anos se cansou de tocar música clássica no piano e foi aprender bateria. Deixou o instrumento quando, durante a Faculdade de Administração, morou com um baterista que arrasava na bateria. Voltou para o piano e o teclado e ouviu muito rock progressivo até chegar, durante aulas que fez com um professor que estudou em Tatuí, ao som de Hermeto Pascoal, que o deixou impressionado e conseguiu ver similaridades entre o rock progressivo e a música do bruxo e seus discípulos.

Ao fim da faculdade, Daniel entrou na então Universidade Livre de Música (ULM), hoje Emesp – Tom Jobim,  e começou a tocar na noite no shopping Eldorado e no hotel Maksoud. Foi nesse hotel que, certa vez, João Gilberto se hospedou e chegou a ouvir Daniel tocando bossa nova. Após o show, o empresário de João veio parabenizá-lo, e dizer que o mito da bossa nova havia ficado impressionado pela forma como Daniel levava a vida na bossa. Fora a piada pronta que qualquer um pode fazer ao ver o músico, de cerca de dois metros de altura, Daniel é um grande pianista, que não deve parar de semear a sua música e alimentar toda gente e os pássaros com seus incríveis sabores.

 

 

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