Anfiteatro Heitor Penteado

Que o palco seja para todos!

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

O cheiro era inconfundível: a madeira do palco, das cadeiras, do piano, das cortinas gigantes nas laterais, do taco novinho que até brilhava de limpeza. Eu me sentia pequeno na imensidão daquela sala, aquele teto alto, o palco parecia alto também naquela época. Aquele lugar silencioso, onde entrávamos às escondidas, era realmente um lugar sagrado. Era assim que eu via o anfiteatro da minha escola, o Heitor Penteado, sem as cerimônias do Dr. Dos sete aos 14 anos, estudei naquela escola, em Americana. E além dos amigos, as atividades no teatro não me saem da cabeça. Era a virada da Ditadura para a Democracia, ainda no tempo em que o diretor regia a criançada com o dom do puxão de orelhas.

Pelo pátio da escola vazia, era possível ver vários furos no chão, que indicavam que, em breve, estariam ofuscantes com o brilho das fubecas de vidro. Era proibido fazer buraco no chão! Mas era o corre-corre da criançada o mais arriscado. Ao tocar o sinal, tínhamos que ficar enfileirados, braços estendidos, em silêncio para a entrada do diretor. O homem de cabelo grisalho e bigode de arame farpado gritava logo por silêncio ao chegar no pátio. Passava depois em revista pelas fileiras das classes. Caso encontrasse um garoto suado, mesmo que vermelho, por ter corrido, aplicava-lhe o golpe. As mãos do homem saltavam ferozes para aqueles lóbulos reluzentes, obrigados a ouvir nossos próprios hinos em louvor à nação. O sujeito então era içado alguns centímetros do chão pelas orelhas, para lembrar que não se deve correr no pátio. E pelo mais nobre das intenções: evitar acidentes!

Fora a casmurrice do velhote, as aulas eram maravilhosas, com ótimos professores, com grandes amigos de classe. E aquele anfiteatro era um lugar surpreendente. Obviamente, por lá passarão charlatões vendendo cursos de inglês fictícios, mas igualmente foi o espaço por onde transitaram vários jovens que faziam peças de teatro, shows infantis. Mas o controle da sala era rígido, aluno que não tivesse em atividade por ali, não entrava. Certa vez entramos às escondidas no lugar, na imensidão daquela sala. Fui para o piano, e toquei algumas teclas só para ouvir o som da sala. Até que, aos 13 anos, finalmente pude usar diretamente o espaço. Fiz uma peça infantil lá, cujo personagem era Silvia, um travesti da floresta, que queria pegar o príncipe dos contos de fada. Papel questionável à época, uma bicha tarada numa fábula que unia vários personagens de conto de fadas, mas o fato é que no palco fez a minha alegria, vendo o riso solto na cara de toda gente. Um gosto de presente, a sensação de subir ao palco era maravilhosa. A peça foi um sucesso e apresentamos para várias classes, lotando o espaço que comporta 500 pessoas nos seus 351 metros quadrados. Tudo ia bem até o dia em que faltou gelou seco na cena da bruxa e eu usei extintor de pó químico para fazer sair fumaça, esbranquiçando o público da primeira fileira, entre eles possivelmente os óculos da diretora que assumiu após a saída gloriosa do carrasco.

Em setembro de 2014 voltei à escola, conversei com o vice-diretor. Ao perguntar sobre o anfiteatro, ele me levou para ver o lugar, com um olhar chateado. O taco está saindo, em várias partes. O piano, que na minha época parecia novo, estás às traças, teclas várias pulando fora do teclado. A coxia virou arquivo morto. Quem se apresenta, tem que se trocar é no banheiro. Como a cidade não tem mais teatro, uma vez que é eterna a promessa de entrega da reforma do Lulu Benencase, porque a Prefeitura do PSDB não colabora com a escola, pressionando o governo estadual, também do PSDB, a liberar recursos para reformular não apenas o teatro da Heitor Penteado, mas melhorar o investimento em educação e cultura em todo o Estado? E inacreditavelmente o governador Geraldo Alckmin (PSDB) está na frente das pesquisas de intenção de voto. Como pode? Ninguém vê nada? O governo não deixa nem mesmo que a escola libere o espaço para eventos externos, que seria uma forma de levantar um fundo para recuperar o espaço e agitar nessa criançada o espírito da criação.

E é assim, embaçado pelas nevoas desse outro extintor de incêndio, que obnublia as minhas pálpebras de rancor, que deixo a porta do teatro que tanto amei um dia. O que falta aos governantes para cumprirem suas promessas? Todas as escolas deveriam ter um teatro, deveriam cuidar das artes cênicas e da música tão bem quanto a própria educação, que foi descuidada após a redemocratização nos governos do PMDB e PSDB que lideraram o Estado desde então.

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