Sidemberg Rodrigues Mar Complementaridade

Um gestor do além

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

Imagine ser escolhido para gerenciar uma área com a qual jamais trabalhou. E, no primeiro dia de trabalho, em meio a planilhas e a busca de fixar nome e a função de cada um da equipe, um espírito surgisse a seu lado pedindo para mandar uma mensagem do além para uma funcionária. Foi exatamente isso que aconteceu com Sidemberg Rodrigues, gerente de Comunicação, Responsabilidade Social e Relações Institucionais da ArcelorMittal Tubarão, que revela seu poder mediúnico no livro “Complementaridade”, lançado no dia 20 de agosto no Espírito Santo. A revelação do executivo, feita pela primeira vez em público, explica em parte o seu envolvimento visceral com que chama de “sustentabilidade em seis dimensões”, que começou a ser aplicado na companhia em 2003. Esse conceito considera a sustentabilidade por meio de ações que englobam as dimensões ambiental, econômica, social, cultural, política e “espiritual”.

O título do livro foi inspirado no “Princípio de Complementaridade” do dinamarquês e Nobel da Física “Niels Bohr” por dois motivos. Primeiro, porque nasceu na Dinamarca o conceito de sustentabilidade em seis dimensões, embora o espiritual tenha sido acrescentado por Sidemberg no Brasil; segundo, porque esse princípio expõe a natureza dual da matéria e da energia. “Foi irresistível não fazer uma analogia entre a natureza espiritual e material do homem, até porque minha experiência metafísica parece ter raízes entre uma coisa e outra. Por assim dizer, entre o ‘concreto’ e o ‘abstrato’”, explica o executivo no início do livro, que tem 130 páginas, publicado pela Art Point Editora. Os direitos autorais foram doados para a Associação Feminina de Educação e Combate ao Câncer (Afecc).

Além dos relatos fantásticos sobre mensagens que Sidemberg recebeu de parentes de funcionários da Arcelor com os quais ele se relaciona, o livro defende a reforma do capitalismo para um “capitalismo social” e elege a “espiritualidade” e a “transcendência” como paradigmas do século 21. Para isso, ele faz um relato da evolução da forma como se compreende a inteligência, desde os testes de QI no início do século 20 à comprovação, em 1994, da influência do lado emocional do cérebro pelo então chefe do Departamento de Neurologia da Universidade de Iowa (EUA), Antônio Damásio, que levou Daniel Goleman a criar o conceito de inteligência emocional (QE), até a física e professora da Universidade de Stanford Hanah Zohar que lançou em 2000 o livro “Capital espiritual”, introduzindo o conceito de inteligência espiritual (QS).

“Há uma energia consciente em sua individualidade que move o corpo e a mente. Liga-se a uma energia maior, a totalidade, influencia processos, interliga sistemas, intui ideias, impacta pensamentos e pode fazer tudo funcionar de forma muito mais fluente se for considerada e aplicada”, afirma o autor, que não está ligado diretamente a qualquer religião, apesar de dialogar com representante de todas as crenças. “Sabe por que entramos nessa espécie de colapso planetário no tempo que experimentamos hoje? Porque nos distanciamos de coisas essenciais: Deus (a totalidade), a natureza e as aspirações do espírito, cuja função é integrar primeiramente os hemisférios de nosso cérebro e harmonizar a sintonia de nosso corpo biológico e todas as suas interfaces com o meio externo.”

Sidemberg é gerente de Comunicação, Responsabilidade Social e Relações Institucionais da ArcelorMittal Tubarão, membro honorário da Academia Brasileira de Direitos Humanos (ABDH), Presidente do Conselho Superior de Sustentabilidade e Responsabilidade Social da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e mestrando em Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É cineasta, poeta, músico, compositor e escultor. Autor dos livros “Mensagens do Vento” (poemas), “Miséria Móvel” (crítica social, editado em quatro idiomas) e “Espiritual e Sustentável” (sustentabilidade em seis dimensões).

O autor defende o poder da oração nesse processo por ser um momento de reflexão e autoconhecimento, independentemente da religião ou da forma que se busca para entrar em conexão com o divino. “Estamos conectados a outras redes que parecem unas, mas que, em verdade, também são múltiplas (outros seres humanos, pois cada um é uma teia por si mesmo, a começar pelo cérebro). Se não conseguimos o aprimoramento da autoconexão com nós mesmos como pré-requisito de acesso a qualquer outra coisa, nem sequer nos comunicaremos a contento com outros pontos humanos da rede, não obtendo sinal forte para a conexão com o Todo.”

Para isso, o autor critica as atribulações da vida cotidiana imprimidas pelo ritmo alucinante da tecnologia em nosso tempo, que busca transpor o tempo tecnológico para o tempo biológico. “Daí não termos tempo para reflexões e para cultivar coisas essenciais, como o espiritual. Nem para exercermos a criatividade, com alguma produção elaborada que não seja releitura ou a pasteurização de alguma ideia requentada ou copiada no mar de ofertas do Google”, afirma. “Na melhor das hipóteses, remamos na superficialidade na preguiça mental de um tempo de mediocridade e muita barbárie, inclusive intelectual. Poucos refletem ou ainda pensam. Ninguém parece disposto a ‘sentir’ e a ‘viver’ o tempo presente: única realidade de que realmente dispomos no estado físico.”

Em sua crítica ao capitalismo, ele não perdoa o impacto que a tecnologia teve no corte de vagas de trabalho nas grandes empresas, nem mesmo na mercantilização dos sentimentos, explorados em larga escala pelos meios de comunicação e a indústria da estética. Ele critica a “felicidade moderna”, aquela que é oferecida por soluções de mercado. “Vale lembrar que as pessoas hoje querem solução ‘de mercado’ para tudo. Se sentem uma discreta dor de cabeça, mal tentam respirar ou relaxar para ver se o incômodo desaparece sem remédio”, afirma. “No provável limite do expansionismo capitalista, igualmente parece esgotado o entusiasmo humano de cultivar o senso de pertencimento e o de finalidade. Ou seja, o sentido das coisas parece ter alcançado sua pior baixa nos pregões da esperança e ninguém parece querer ligar-se solidamente a nada nem a ninguém.”

Por isso que, argumenta o autor, se o século 18 teve o suporte de “grandes sistemas mecânicos que precederam a Revolução Industrial; o século 19 se curvou ao reinado da máquina a vapor, e o século 20, por sua vez, teve como a grande estrela o computador, cujos avanços culminaram com a internet e com a invasão e o benefício da informática em praticamente todas as áreas do conhecimento”, o século 21 é o momento da dimensão espiritual, com a globalização dando espaço às culturas locais, com as pessoas em busca da conexão consigo mesmas e ampliando a sensação de pertencimento à sociedade, às instituições.

Para o autor, tudo que se conquistou até agora é meramente material, que não responde a todos os anseios das pessoas. “O vazio existencial que se alarga no peito do século 21 não pode ser preenchido pela produção capitalista. Esta é por demais humana para ocupar um espaço tão cósmico, vasto e sagrado, porque anseia por aspirações imateriais. E o vácuo desse vazio requer como preenchimento algo muito distante das coisas tangíveis, visíveis e previsíveis do homem. Urge um rompimento com a lógica da posse e o resgate dessa partícula que nunca morre – embora precise de cultivo. Se o mercantilismo e a acumulação descabida até então deram as cartas, a espiritualidade nos prece um promissor caminho para quem precisa retirar a cabeça do novo turbilhão e sintonizar-se com ideais mais amplos em termos de virtudes e prazeres reais.”

Para ele, “compaixão, gratuidade e fraternidade inspiram o rompimento com o desejo de posse para a sintonia com os ideais de comunhão: com as pessoas, a natureza, os processos, as instituições, os sistemas e as nações. Essa é a força do novo chamado. Não há mais espaço para sombras, pseudolíderes nem falsos profetas. No tempo da transparência, a luz que refrigera e regenera é a mesma que queima qualquer intenção de desigualdade ou atrocidade”.

Ele defende a reforma do capitalismo “sugerindo formas menos predatórias de extração de lucro em suas capilaridades produtivas mundo afora, e também uma forma menos concentradora de distribuição de riquezas, esquivando-se daqui da utopia de se igualar renda”. E chega, até mesmo, a citar Chico Xavier: “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora a fazer um novo fim.” Para o autor, essa frase “se aplica não apenas ao capitalismo, como ao mundo que almejamos e também a nossa vida pessoal.”

Mas, antes de mudar o capitalismo, o autor defende a reforma de nós mesmos. “Para uma real e profunda reforma no capitalismo, é preciso que todos nós sejamos corajosos de nos reformarmos antes. Juntos, poderemos desfrutar das ofertas infinitas do invisível potencializando o visível, em um show de complementaridade. Eis o capitalismo universalizado como utopia possível.”

Ele separa religiosidade de espiritualidade e cita o livro “Espiritualidade – um caminho de transformação”, de Leonardo Boff. “Quero enfatizar que espiritualidade não é monopólio das religiões, nem dos caminhos espirituais codificados. A espiritualidade é uma dimensão de cada ser humano. Essa dimensão espiritual que cada um de nós tem se revela pela capacidade de diálogo consigo mesmo e com o próprio coração, se traduz pelo amor, pela sensibilidade, pela compaixão, pela escuta do outro, pela responsabilidade e pelo cuidado com a atitude fundamental”, diz Boff.

“Já não se pode negar que, embora não passe pela produção do homem, a solução passa ‘por dentro’ do ser humano, em sua dimensão mais profunda e que o liga ao outro, ao meio, ao cósmico e ao divino, com ou sem poesia, com ou sem fantasia ou mística, mas com a alquimia semântica de um irrefreável desejo de comunhão e propósito. Algo que traga sentido ao estar vivo, enriquecendo a vida com relações que amplifiquem o prazer de participar em uma rede, visível e invisível”, afirma o autor.

 

Mais informaçõeshttp://www.sidemberg.com

 

Comentários
2 Respostas para “Um gestor do além”
  1. Ruth bezerra da silva disse:

    Oi Simdembergue, quero adquirir esse livro onde encontro? Abraço

    • Ruth querida, me desculpe, pois só vi sua msg hoje. Todos os livros que publiquei tiveram sua renda destinada a entidades filantrópicas. Este ultimo (Complementaridade) somente está sendo vendido pela Associação Feminina de Educação e Combate ao Câncer (AFECC). Se você for do ES, só passar na sede da entidade, que fica no Hospital Santa Rita de Cássia. Se não, penso que no site da entidade ou no facebook. Abraços, Sidemberg. Site da AFECC: http://www.afecc.org.br

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