Ilha da Lua

A socialização de crianças e bebês pela música

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

A musicalização de bebês tem objetivo de criar músicos virtuosos. Certo? Não é bem assim. Para celebrar o Dia da Criança, o entresons entrevistou por e-mail Sandra Oakh, atriz e cantora que há 15 anos trabalha na musicalização e sensibilização de bebês em São Paulo. Em 2006, ela criou o espaço Ilha da Lua, que trabalha com o ensino de música para crianças, criando um extenso repertório específico para cada idade. Além disso, ministra cursos para professores. Sandra é também integrante do Mawaca, grupo vocal que há 17 anos interpreta músicas de várias partes da Terra.

“Estou sempre explicando que colocar a criança para estudar um instrumento precocemente, exigir dela todo o estudo e disciplina que a música necessita só vai afastá-la dessa arte”, explica Sandra, ao negar que o objetivo da musicalização para bebês tenha como finalidade o desenvolvimento de músicos excepcionais. Mas ela explica que o principal benefício da musicalização precoce é ensinar as crianças a esperarem, nomear pessoas e coisas, trabalhar som e silêncio e a dividir os brinquedos e instrumentos com as outras crianças para entender que ela “não é a única criança e que as coisas não são do jeito e na hora que elas querem”.

Sandra revela que há pais muito ansiosos, que buscam pela aula antes mesmo de o bebê nascer. “Elas querem começar logo que ele nasce. Quando são muito pequeninos a aula é mais para elas do que para o bebê. O bebê vai absorver o prazer da mãe na execução das músicas fazendo com que ele se sinta seguro e confortável com o som do canto da sua mãe. A musicalidade dele e da mãe vai sendo trabalhada ao mesmo tempo, mas as respostas motoras do bebê só aparecerão meses depois.”

Abaixo, segue a entrevista:

 

Como a música surgiu em sua vida?

Eu sempre gostei, desde criança. Ouvia muita música com meu avó, nós morávamos com ele e nos finais de semana não só nós, mas a vizinhança inteira tinha que ouvir o que ele ouvia.

Sempre gostei de cantar, mas meu sonho era ser atriz e com 15 anos fui estudar teatro no curso profissionalizante do Teatro Escola Célia Helena, lá descobri que eu cantava mesmo, depois fiz licenciatura em música na UNESP e Canto Popular na ULM

 

Quais caminhos a música te abriu? Sei que você participa do grupo Mawaca…

A música foi que me trouxe meu principal “ganha-pão”. Como atriz e cantora é difícil sobreviver sem ser “famosa”. Na licenciatura achei meu diferencial e isso me proporcionou segurança e estabilidade financeira.

Cantar no MAWACA é uma vitrine, e me traz muito prazer, além de toda pesquisa de repertório, encenação, colocação da voz para os diversos idiomas, mas nunca tivemos patrocínio e só conseguimos manter o trabalho por muito amor.

 

Você teve um estudo formal de música ou é, como alguns felizardos, que têm musicalidade nata?

Sempre tive facilidade para cantar, estudei piano quando pequena e violão na adolescência, mas o que gostava mesmo era de cantar. Fiz faculdade de Educação Artística com Habilitação em Música na UNESP e Canto na antiga ULM (Universidade Livre de Música)

 

Desde quando você começou a pensar em ensinar música?

Quando entrei no Célia Helena já fui chamada para fazer assistência para a Célia e a Lígia Cortez nas aulas de interpretação que elas davam. Eu nunca quis ser professora, mas com o que ganhava conseguia pagar meu curso, assim achei que seria professora de teatro. Quando entrei na UNESP, já no terceiro ano éramos obrigados a fazer estágio. Eu que era a única da sala que dizia que nunca seria professora, fui uma das primeiras a arrumar estágio e não parei mais até hoje.

 

Quando foi criado o Ilha da Lua, de ensino de música para crianças e bebês?

O Ilha da Lua é um conjunto de atividades. Temos um estúdio para gravação e ensaios e uma sala grande e espaçosa onde damos cursos e oficinas para professores e aulas de musicalização para bebês com seus pais aos sábados.

Fazemos shows infantis de interação entre adultos e crianças, shows para bebês e crianças maiores em festas de aniversário, bibliotecas, centros culturais, teatros. Damos cursos de capacitação em escolas particulares e públicas de algumas prefeituras.

O Ilha da Lua é formado pelo músico, saxofonista, Ramiro Marques que cuida de toda parte de arranjos, produção e contabilidade e atua nos shows e oficinas como violonista, cantor e palestrante. E por mim, Sandra Oakh que cuido da parte artística, pedagógica, das composições e elaborações de conteúdo e atuo como cantora, professora, contadora de histórias e palestrante.

Começamos em 2006, quando fizemos nosso primeiro CD juntos, que foi uma encomenda da escola que eu trabalhava na época, em homenagem ao dia dos pais.

 

Quantos alunos você já teve desde a criação do Ilha da Lua?

Nossa…não consigo calcular isso…já dei aula em várias escolas, hoje estou em apenas uma, que deve ter uns 70 alunos… Dou aulas particulares em turminhas que as mães montam em suas casas com as amigas. Já cheguei a ter de duas a quatro turminhas por dia, as turmas variam de duas a seis crianças. Dou aulas no MOLIHUA desde que inaugurou e aos sábados para duas turminhas no meu espaço… enfim… já foram MUITAS crianças… Eu já fazia isso antes do Ilha da Lua, o Ilha da Lua começou em 2006, mas eu dou aulas de música desde 1996.

 

Porque iniciar a musicalização aos quatro meses?

Não é regra iniciar aos 4 meses. Nas escolas iniciam com 4 meses porque acaba a licença maternidade e a mãe coloca no berçário. Nas aulas particulares sugiro que comecem com 8 meses porque o bebê já senta e consegue segurar os objetos e interagir melhor comigo e com a mãe.

O que acontece é que algumas mães são muito ansiosas e entram em contato comigo mesmo antes de o bebê nascer. Elas querem começar logo que ele nasce. Quando são muito pequeninos a aula é mais para elas do que para o bebê. O bebê vai absorver o prazer da mãe na execução das músicas fazendo com que ele se sinta seguro e confortável com o som do canto da sua mãe. A musicalidade dele e da mãe vai sendo trabalhada ao mesmo tempo, mas as respostas motoras do bebê só aparecerão meses depois.

 

Como ensinar música para bebês e quais os principais benefícios que a musicalização traz para a sociabilidade das crianças?

Não consigo te responder em uma questão COMO… Há muitas técnicas, maneiras e a sensibilidade de cada professor. Mas, sempre deixo claro para meus alunos professores que não há um livro de receitas a seguir. Você tem que estudar muito, se preparar, ter um longo repertório, saber improvisar e adaptar sua aula a cada turma que tiver.

As aulas de música ensinam os bebês e as crianças a esperar, a identificar seu nome e dos amigos, nomear pessoas e coisas, trabalhar o som e o silêncio, dividir instrumentos e brinquedos com os amigos, guardar o instrumento/brinquedo ao final da atividade, entender que ela não é a única criança e que as coisas não são do jeito e na hora que elas querem.

 

“A criança tem que brincar MUITO e sentir prazer em cantar, conseguir acompanhar o pulso de uma canção, dançar, tocar instrumentos de percussão.”

Muitos que me procuram, procuram-me com esse intuito: de tornar seu filho um músico genial. Mas, logo nas primeiras aulas eles entendem que o intuito não é esse. Mesmo assim, estou sempre conversando com os pais a respeito e explicando que colocar a criança para estudar um instrumento precocemente, exigir dela todo o estudo e disciplina que a música necessita só vai afastá-la dessa arte. A criança tem que brincar MUITO e sentir prazer em cantar, conseguir acompanhar o pulso de uma canção, dançar, tocar instrumentos de percussão. Se ela estiver feliz com isso, vai chegar a um ponto de querer ir além e ela mesma vai se interessar por algum instrumento, ou não, vai ser no mínimo um ser humano sensível e com bom gosto musical. Antes disso os pais precisam dar oportunidade do conhecimento para essas crianças: colocando em uma aula de musicalização, levando-a a shows, concertos, peças de teatro, ouvindo músicas ao lado delas não apenas como som ambiente, mas distinguindo os instrumentos, as frases musicais, o significado do texto, brincando com a interpretação das palavras.

 

Como você o crescimento de bandas de músicas infantis como o Palavra Cantada? Seriam os pais os mais cativados pelas músicas bem elaboradas por esses grupos que propriamente as crianças?

Se os pais gostam da música já é um grande passo para a criança gostar porque a criança percebe a felicidade dos pais e também fica feliz com isso. Isso desde que o bebê está na barriga da mãe. As músicas que dão prazer a ela, que a acalmam, ou agitam, vão fazer o mesmo efeito no bebê.

Tem certas canções que acho sim muito adultas e pensadas diretamente em falar o que os pais querem ouvir. Mas, daí entramos na questão de que música é música. Não acho que as crianças têm que ouvir só músicas infantis. É muito importante para sua formação ouvir tudo quanto é estilo, tipo e até qualidade porque isso também vai trabalhando seu gosto musical e eliminando futuros preconceitos. Quando é pequena ela vai ouvir o que o seu meio familiar, escolar e social ouvem e isso fica marcado em sua memória para o resto da vida. Dificilmente uma criança vai “desgostar” daquilo que ela ouvia na sua infância, pela própria carga emocional que a infância traz.

 

Ao mesmo tempo em que surgem grupos com grande qualidade na música e nas letras direcionadas às crianças, há também exemplos de exploração que parecem puramente mercadológicos, muitos dos quais são exibidos com insistência em alguns canais de televisão. Você avalia que músicas como do Patati Patatá são apropriadas ao desenvolvimento da musicalidade das crianças?

“O gosto da criança está sendo formado e mais uma vez repito, se os pais compram, ouvem, consomem, as crianças vão achar que isso é bom”

Eu particularmente abomino Patati Patatá, mas tenho aluninhos na escola que vão toda sexta-feira, que é dia que eles podem ir fantasiados vestidos de Patati Patatá, na escola… No começo eu ficava revoltada. Não entendia como um pai que paga para o filho ter aulas de música comigo, comprava, consumia e incentivava a criança a gostar, ouvir e  vestir Patati Patatá. Depois comecei a observar essas crianças e tentando deixar meu gosto pessoal e meu preconceito de lado perceber que essas crianças participavam muito bem das minhas aulas, demonstram gostar das minhas músicas e das minhas atividades propostas tanto quanto do Patati Patatá. O gosto da criança está sendo formado e mais uma vez repito, se os pais compram, ouvem, consomem, as crianças vão achar que isso é bom.

Essas músicas as fazem cantar, dançar… A qualidade para mim é horrível, mas não posso negar que de certa forma eles estão trabalhando o canto, a dança, a coordenação. Mas, quero deixar claro: não gosto, não indico, acho a qualidade musical, vocal, de expressão e interpretação lastimável, mas cansei de remar contra a maré. Se em casa é o que os pais e a mídia oferecem, a escola TEM OBRIGAÇÃO de oferecer música de qualidade das mais variadas fontes. Para isso as professoras e a direção têm que ter essa consciência e todos os profissionais se engajarem nessa proposta.

 

Qual o principal bem estar que a sua profissão proporciona em sua vida?

Trabalho com música, arte, palco, crianças, bebês… Dou o melhor de mim para outros seres humanos. É o que mais amo na vida, cantar, brincar, interpretar, contar, ensinar, viajar…

Minha profissão me proporciona tudo isso. Depois que fundamos o Ilha da Lua faço a maioria dessas atividades ao lado do meu marido. Formamos uma ótima parceria. O que mais posso querer?

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