Daniel Sousa

No ritmo do reencontro

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

Daniel Henrique de Sousa, 28 anos, tem um sentimento de superação das dificuldades que já passou na vida com a música “At last we meet again”, que está no disco “Three Flew Over The Cuckoo’s Nest”, de 1992, da banda americana Béla Fleck and The Flecktones. Empregado no laboratório de calibração dimensional da ArcelorMittal Tubarão, responsável por calibrar instrumentos de medida como micrômetros e paquímetros, Daniel se inscreveu em cima da hora para o concurso “Talentos Musicais” e ficou em primeiro lugar na categoria instrumental, tocando contrabaixo elétrico com Pedro Henrique na flauta, empregado da área de oficina central de usinagem. Essa mesma música será apresentada no show “Talentos Musicais – O Espetáculo”, que será realizado no Theatro Carlos Gomes, no centro de Vitória, às 20h de quinta-feira, dia 23 de outubro. “Eu sempre gostei de ouvir música instrumental. E essa música era uma que eu sabia tocar completa no dia da audição (do concurso), que me inscrevi de última hora.”

O que pouca gente sabe são os sentimentos que essa música fazem emergir no contrabaixista, que conheceu o trabalho de Béla Fleck, tocador de banjo, por meio de um amigo com quem sempre faz um som para aliviar as tensões do dia a dia. “Na época em que eu estava tirando esta música, a minha esposa havia abortado a primeira gravidez. No ultrassom não havia batimento cardíaco. Fiquei um tempo sem tocar, até mesmo porque ela ficou bem sensível e não queria incomodá-la”, lembra o músico, que é fã do baixista da banda, Victor Lemonte Wooten.

“Passado alguns meses ela engravidou novamente e nós ficamos apreensivos. Eu voltei a tocar pra ocupar um pouco a mente e consegui terminar de tirar esta música, na mesma semana da  ultrassonografia de 8 semanas, onde conseguimos ouvir claramente o coraçãozinho acelerado da Anny Vitória (hoje com dois meses de idade). Então, quando toco e ouço essa musica, me vem muitas lembranças dessa época, um misto de lamento, apreensão e muita alegria é o que eu sinto. Apesar de ter composto uma música com o nome da minha filha, essa música também tem um grande significado pra mim.”

Daniel começou a tocar contrabaixo aos 16 anos, por influência do pai, também contrabaixista. Logo de início, apaixonou-se pelo rock e pelo jazz. “Meu pai me passou o básico, a notação, a afinação e o acompanhamento. E no decorrer da minha vida, fui pegando muita coisa de ouvido. É o tempo que vai trazendo a prática”, afirma. “Não tenho banda fora da empresa, toco por hobby. Às vezes toco com os amigos, mas nada profissional. Eu sou uma pessoa introvertida, meio tímido. E com um instrumento eu consigo expressar melhor um sentimento, é uma forma de reduzir o estresse do dia a dia, é um momento para jogar a carga negativa e poder relaxar um pouco”, explica o músico, que trabalha em Tubarão desde 2005.

Seu principal sonho, explica o músico, já está sendo realizado: mostrar que o contrabaixo, que é um instrumento muitas vezes associado apenas com o acompanhamento, pode também ser usado para solar, o que ele poderá mostrar mais uma vez para a plateia no dia do show. Além disso, com o prêmio de primeiro lugar no concurso, ele tem direito a gravar quatro músicas em um CD que a empresa vai patrocinar. Agora, decidiu que convidará os outros três finalistas da categoria para gravarem juntos. “Eu me classifiquei na parte instrumental, fiquei entre quatro finalistas. Já foi uma grande vitória. Eu fiquei em primeiro lugar. E eu estava pensando em gravar várias músicas, mas depois de ver apresentação de todos os participantes, penso em gravar a música deles no CD. Acho que todo mundo é merecedor.”

Helder Maykel de Oliveira Ferreira apresentou no “Talentos Musicais” a Suíte Nº 1 de Bach no violão. No show do dia 23, nesta quinta-feira, ele tocará a música “Vivifica” no violoncelo.

O show do dia 23, aliás, será uma prévia do que poderá ser gravado no CD, explica o músico. Nesse dia, também subirá ao palco Helder Maykel de Oliveira Ferreira, que ficou em quarto lugar no concurso apresentando ao violão a Suíte Nº 1 de Bach. Na apresentação na quinta-feira, Helder tocará a música “Vivifica”, hino evangélico de John Williams, no violoncelo. Casado, sem filhos, Helder é empregado na área de manutenção elétrica em Tubarão e aprendeu a tocar na mesma igreja de Daniel, a Igreja Maranata. “A gente tocava mais para louvar a Deus, e aos poucos eu fui aprendendo música. Eu não tenho banda, mas toco sempre na igreja. A música tem o principal objetivo de louvar a Deus, mas também tem outras funções, como alegrar o coração”, explica Helder, que também percebe a música como um meio eficaz para reduzir as tensões do trabalho.

Além da música instrumental, haverá também a apresentação de cantores de música Gospel. A empregada Tamires de Freitas, que trabalha na área de manutenção da ArcelorMittal Tubarão, vai se apresentar no dia 23 com a música “Acreditar”, da cantora Cristina Mel. Já Joabson Souza de Paula, outro empregado da companhia, apresentará a música “Coração”, de Leonardo Gonçalves.

Tamires diz que praticamente nasceu na igreja Assembleia de Deus, em Serra (ES), que incentiva desde muito cedo a música nas crianças. Participou de vários corais e, por influência do pai, decidiu participar do concurso “Talentos Musicais” com a canção acreditar. “Meu maior sonho é poder através da música falar com as pessoas, transmitir mensagem de paz e felicidade. Eu acredito que é uma missão que Deus me deu na Terra. Quando você canta, entra em outro universo. A música faz a gente refletir, pensar, são várias sensações. A música ‘Acreditar’ tem uma letra muito forte, porque ela fala de uma pessoa que não tem mais esperança. Então ela fala que existe um Deus que pode tirar ela do problema que está enfrentando, pode restaurar a vida de pessoas que acham que não tem mais jeito. É uma música que traz esperança, é o que eu sinto quando estou cantando ela, é uma mensagem para alguém”, diz a cantora gospel, de 19 anos.

De aço e espírito – O músico Carlos Papel foi jurado no concurso “Talentos Musicais” e, por ter orientado alguns participantes minutos antes da apresentação, foi escolhido para comandar os ensaios das 13 músicas que serão apresentadas na quinta-feira. A empresa ainda contratou uma banda de apoio, formada pelos músicos Eduardo Sziajnbrum (bateria), Leo Carvalho (guitarra), Hugo Maciel (baixo) e  Wandaluz Filho (teclado). Durante os ensaios, Carlos orienta os músicos de Tubarão com relação à interpretação e comportamento de palco.

“Gostei da experiência, sempre fiz isso, já produzi muitos discos. A minha vida é a música e gostei pela liberdade que estão me dando de trabalhar com as pessoas e acrescentando valor. Eu acho que uma empresa do tamanho da ArcelorMittal Tubarão voltar a sua força para cultura e educação é muito importante. A educação e a cultura são fatores essenciais para a cidadania. Acho superprodutivo que a empresa tenha esse carinho de estar investindo no ser humano, uma empresa que produz aço poderia ter visão dura como a do aço, mas essa fusão da imagem do espírito e não da coisa dura da realidade é importante, o cidadão precisa disso para ter mais alto estima e seu lado humano valorizado”, afirma o músico, que nasceu no Rio de Janeiro mas escolheu o Espírito Santo para viver.

Na semana passada, também participaram do ensaio as detentas do presídio de Cariacica, que formam o coral Maria Marias. Elas apresentarão na quinta-feira “Maria Maria”, de Milton Nascimento, que vai encerrar o show. Para Carlos Papel, a apresentação é muito bonita e muito importante a decisão da produtora de aço de convidar esse coral. “É muito bonito, o encerramento é muito legal. Foi muito importante a empresa ter pensado na reintegração na vida social dessas pessoas. E a gente integrou a banda da ArcelorMittal Tubarão ao trabalho delas.”

No Espírito Santo, Carlos produziu cinco discos, a maioria da era do vinil. Ele ficou conhecido nacionalmente em 1985 com a música “Sol da Manhã”, que disputou o festival de música promovido naquele ano pela Rede Globo. Ele também é reconhecido pelos jingles que faz. Há um jingle que ele fez do supermercado Perim que está há 23 anos no ar. “Esse jingle é um fenômeno. Eu fiz também muito jingle político. E esse meu trabalho, produção de estúdio e de show, eu gosto muito de fazer.”

Lançou em 2012 na França e na Espanha seu mais recente CD  “C’est bon ça”, só com jazz e bossa nova. Mas um acidente no ano passado e problemas de saúde que surgiram no início de 2014 atrasaram o lançamento do CD no Brasil. Superando aos poucos as barreiras que a vida impõe, Carlos mostra muita alegria pelo seu trabalho e otimismo para seguir cantando. É a música religando o reencontro com todas as esferas da vida.

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