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Música visa quebrar estigma e ajudar na ressocialização de presos

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

“Para mim é uma terapia. E, mesmo estando presa, eu me sinto livre cantando.” A frase é de Keli Loiola, 34 anos, a mais antiga integrante do coral Maria Marias, formado por 20 detentas do Presídio de Cariacica, no Espírito Santo. O coral finalizará a apresentação musical dos empregados da produtora de aço ArcelorMittal Tubarão no show “Talentos Musicais – O Espetáculo”, que será realizado quinta-feira (23/10), às 20h, no Theatro Carlos Gomes, no centro de Vitória. Estimular a prática musical entre detentos é uma iniciativa que está se espalhando pelo País, com ações nesse sentido em prisões em Minas Gerais e no Paraná, o que na opinião de especialistas pode trazer grandes benefícios físicos e psicológicos, embora há quem avalie ser necessário que os projetos musicais sejam aprofundados entre a população carcerária, que no Brasil ainda sofre com a superlotação dos presídios.

A apresentação do Maria Marias no show na quinta-feira, com a música “Maria Maria” de Milton Nascimento, tem grande importância para a produtora de aço, pois uma de suas principais preocupações é reduzir entre os empresários o estigma que os presos carregam, dificultando a sua reinserção na sociedade. “Um dos maiores desafios que temos na questão prisional é o retorno do egresso depois da pena cumprida ao tecido social de onde procede. Porque a sociedade guarda preconceitos violentos para com as pessoas que cometeram atos infracionais. E as empresas têm insegurança de inserir no quadro social pessoas com esse tipo de passado. E a experiência que temos são de pessoas que vem com engajamento muito grande, não são reincidentes, isso é só uma imagem deturpada”, afirma  Sidemberg Rodrigues, gerente de Comunicação, Responsabilidade Social e Relações Institucionais da empresa, que também já promoveu uma exposição de arte de detentos para mostrar quão importante é ter um olhar diferenciado para com eles.“É muito importante expandir e incluir cada vez mais, tanto jovens que estão cumprindo medida sócio-educativa e adultos em projetos que dêem a eles a chance de ressocialização pela arte, pela música, pela escultura. Porque é dessa forma que se mexe com o que de mais humano eles têm, que é a sensibilidade.”

“Também tenho sonho de continuar cantando, tenho vários planos. Espero que quando eu sair as portas estejam abertas”, diz Keli Loiola, do coral Maria Marias.

Keli, que adora cantar a música “Oh Happy Day”, tem vários planos. Em dezembro ela entra para o regime semiaberto e, até o final de 2015, conquistará a liberdade condicional. Ela tem três filhos, dois meninos e uma menina, que moram em Guarapari. Em alguns dos eventos, a família assiste as apresentações, o que a deixa muito feliz. “Quando eu era pequena eu cantava em aniversário de família. Eu sempre achei lindo, sempre me tocou muito forte. Meu sonho é tocar um instrumento. Também tenho sonho de continuar cantando, tenho vários planos. Espero que quando eu sair as portas estejam abertas”, diz ela, que também fez na penitenciária um curso de costureira.

De acordo com o secretário de Estado da Justiça do Espírito Santo, Eugênio Coutinho Ricas, o projeto do coral foi possível por meio do projeto Maria Maria, implantado em 2006 no Estado, com o objetivo de levar qualificação profissional para os detentos. Ele espera fechar 2014 com 6 mil vagas em 50 cursos profissionalizantes no Estado. Dos 16.500 presos no Espírito Santo, 2.500 hoje trabalham em 250 empresas conveniadas com a Secretaria e outros 3.600 presos estão estudando na educação fundamental. Dos 35 presídios do Estado, 30 possuem sala de aula. Além de Cariacica, há outro projeto de coral para os detentos da Penitenciária Estadual de Vila Velha 1, com 30 internos.

“O Espírito Santo sofreu uma reformulação geral no sistema prisional. Em todos os aspectos, somos hoje uma referência nacional, com um dos menores déficits de vaga. Temos déficit de 2.500 vagas. Isso é razão de investimento muito forte, que em dez anos investiu meio bilhão de reais, construindo 26 novas unidades. Hoje o Espírito Santo não tem nenhum preso em delegacia. Os condenados ou provisórios estão no sistema prisional. Acabaram as prisões de contêineres, são todas unidades modernas e com arquitetura compatível”, afirma Ricas, que ainda se posiciona contra a redução da maioridade penal. “É uma discussão que, a rigor, não resolve o problema. O que a gente percebe, na realidade do Espírito Santo, que tem 16.500 presos, que a pequena porcentagem é realmente uma ameaça à sociedade. A maior parte do contingente poderia estar cumprindo pena de outra forma. Por isso, o Estado está investindo em tornozeleiras eletrônicas.”

Tom da liberdade - De acordo com o inspetor Fabiano Thatiano Martins Propato, músico responsável por reger as detentas de Cariacica, o coral surgiu em março de 2011 devido à necessidade de apresentações durante a formatura de cursos profissionalizantes promovidos na unidade. Durante o banho de sol das detentas, ele fez o anúncio da ideia de se criar um coral e na hora 200 presas levantaram as mãos querendo participar.

“Elas tinham que chegar e cantar, como no programa Ídolos. E as que mantinham o tom eram selecionadas. E começamos a trabalhar postura e respiração. E não é só ser afinada na voz, mas no comportamento positivo, no respeito às ordens atribuídas a elas, respeito aos colegas de cela, aos agentes, tem todo um critério”, explica.  “A atividade melhorou a autoestima e a disciplina. Elas estão presas porque quebraram a disciplina, quando você insere a música a gente retoma a disciplina e os critérios. Elas descobriram que podem cantar e são aplaudidas, isso traz o desejo de voltar para a sociedade e não para a criminalidade. Isso mudou também o diálogo e o comportamento dentro da unidade.”

Projetos como esse são realizados em Minas Gerais e no Paraná. No Presídio de São Lourenço, no sul de Minas, há o projeto “Vozes da Cela”, formado por dez detentos. Eles até se apresentaram no início de outubro de 2014 em um show com o pianista Arthur Moreira Lima, e já somam mais de 500 apresentações, até mesmo em cerimônias de casamento. O coral foi criado e é regido por José Henrique Martins. Em maio, ainda foi realizado o 3ª Edição do Encontro de Corais Penitenciários do Sul de Minas, em São Lourenço. O evento reuniu cerca de 110 detentos e detentas de 11 unidades prisionais do Sul do Estado.

De acordo com a Subsecretaria de Administração Prisional (Suapi), que administra 145 unidades prisionais em todo Estado de Minas Gerais, dos 53.649 presos, atualmente mais de 13 mil presos trabalham e cerca de 6.500 estudam enquanto cumprem suas penas. “Em sua maioria, as unidades utilizam as oficinas culturais e artísticas como forma de ressocialização dos detentos”, explica a assessoria de imprensa da Suapi.

Também no Paraná, de acordo com a Secretaria de Justiça do Estado, há um coral de detentas na Penitenciária Feminina do Paraná, em uma parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR). E ainda um projeto chamado “Música para Reinserção Social”, na Penitenciária Estadual de Ponta Grossa. Outro projeto, chamado “A Música como Instrumento de Reinserção Sociocultural e Humanização da Pena”,  é desenvolvido na Penitenciária  Industrial de Cascavel-PIC, unidade de regime fechado da Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Paraná. O projeto ganhou até patrocínio da Fundação André Maggi, que destinou recursos no valor de R$ 25 mil para a compra de novos instrumentos em 2012. A cada 12 horas de curso, a pena do detento diminui em 1 dia. No Estado de São Paulo, a Secretaria de Administração Penitenciária não respondeu à reportagem.

“O fazer música em grupo, seja cantando, ou tocando instrumentos em grupo, ajuda na expressão dos conteúdos inconscientes de uma forma mais lúdica”, diz Ana Maria Caramujo Pires de Campos, da FMU.

Benefícios da música - Para Ana Maria Caramujo Pires de Campos, professora do curso de graduação de musicoterapia e supervisora de atendimento clínico da Clínica de Musicoterapia da Faculdade Metropolitanas Unidas (FMU), a música traz benefícios físicos e psicológicos, podendo colaborar no relacionamento em grupo e na reintegração à sociedade. “O fazer música em grupo, seja cantando, ou tocando instrumentos em grupo, ajuda na expressão dos conteúdos inconscientes de uma forma mais lúdica, de uma forma agradável. E obriga que o participante, que no caso são os presidiários, a ter disciplina, pois tocar junto exige disciplina ao ouvir, ao tocar no tempo certo. Ele desenvolve um sentimento de pertença a um grupo que constrói, que vai mostrar um produto musical final. Isso aumento a autoestima. E vai fazer com que esse grupo de indivíduos, que precisam ser reinseridos na sociedade, se sintam mais ‘empoderados’ para isso, em inglês poderíamos dizer ‘empowerment’. Eles vão se sentir capacitados a realizar tarefas que tenham um resultado final positivo, bom. Além do que a música tem um valor evocativo, se a gente trabalhar num nível com objetivo de evocar lembranças boas, pode fazer trabalho direcionado onde você vai recolher um histórico sonoro musical com as músicas que evocam momentos, lembranças, e situações boas, positivas, agradáveis. A música pode ajudar porque ela embala, acalenta, a música aconchega, apóia, traz segurança emocional e segurança interior.”

Ela avalia que, sem dúvida alguma, as apresentações musicais de presos resultam num efeito muito importante, mas defende que a musicoterapia deveria ser utilizada de forma mais ampla com a população carcerária, não apenas no fazer musical, mas também na construção de instrumentos a partir de materiais reciclados e, também, na própria audição de músicas. “A audição, a música como terapia receptiva, pode colocar o paciente somente para ouvir a música, o que vai ter um valor interno que a música vai processar não somente na escuta ativa e atenta, mas também evocando tudo o que há de bom dentro dele, ou não. Mas trabalhar com repertório que ele já goste ou ache importante. A música em si traz muitos benefícios principalmente porque atua em muitas áreas cerebrais, não somente na área responsável pela linguagem musical, mas em muitas áreas, o que aumenta a plasticidade cerebral. Como a música traz prazer, alegria, bem estar, isso faz com que a pessoa tenha uma maior produção de serotonina, que aumenta os anticorpos, ajuda também a minimizar doenças. Tem uma alteração mesmo no sistema orgânico, afeta fisiológicamente. As apresentações musicais são ótimas, amplia o aspecto cultural, sensibiliza melhor do indivíduo. O ideal seria ter programas de musicoterapia dentro dos presídios. Oficinas de música ajudam, mas a musicoterapia trabalha no nível da saúde mental.”

O tempo infinito – Para Gilvan Vitorino, representante do Espírito Santo na Coordenação de Acompanhamento do Sistema Carcerário do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a importância da música não está exatamente na questão da “recuperação” do dentento, palavra que para ele é crítica. “Não poderia entrar nessa abordagem de recuperação, eu sou crítico dessa perspectiva. Não me parece que o valor disso está no fato de se vai recuperar ou não, porque não sei se essas pessoas precisam de recuperação. O que elas precisam é enfrentar a ociosidade que passam na prisão. O cárcere é um fator enlouquecedor por causa do aprisionamento e ociosidade. Nilo Batista, um grande penalista do Rio, diz que dentro do sistema prisional qualquer atividade que se dê para o preso é importante, não porque ele precise da ética do trabalho, mas a importância é para com a violência do tempo que não passa. O tempo é infinito para quem está preso. Qualquer atividade para que esse tempo flua de forma menos penosa, menos enlouquecedora, qualquer atividade, eu tenho que louvar.”

Apesar de apoiar, ele defende que um maior número de detentos possam participar de atividades relacionadas à arte. “Por exemplo, às vezes eles dizem que o artesanato não é permitido como atividade laboral porque não tem efeito econômico na vida do sujeito. Mas eu diria que o artesanato é importante, e englobo isso em todo tipo de arte, que não converto em benefício monetário. Mas é para que o tempo na prisão seja amenizado, porque a ociosidade enlouquece mesmo, porque tem gente que fica trancafiada 23h por dia na cela e sai por uma hora para tomar banho de sol. Nesse caso, a atividade musical, para aprender, praticar e apresentar fora do presídio eu tenho que concordar, porque isso tem um efeito terapêutico na vida da pessoa, não que vai transformá-la em melhor ou pior, mas vai dar uma atividade para enfrentar o tempo. Eu vou lamentar que esse tipo de atividade contemple um pequeno grupo de presos. Num presídio de 400 pessoas, eu tenho 30 pessoas fazendo música. Não admito que se faça propaganda porque os incautos vão achar que cumprir pena ali é bom.”

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