Fernando Baggio1

Ensino de música em tempos modernos

Fernando Baggio

Quando meu amigo Roger Marzochi me convidou para escrever para o seu site “entresons”, ele me disse: “escreva sobre algo que te faça subir nas alturas quando fala”. Disse a ele que haveriam vários assuntos. Mas achei que o ideal seria falar sobre uma área em que atuo e que é muito séria: Educação.

Sou professor de música há 13 anos. Não é muito, é verdade. A maioria dos meus colegas têm pelo menos o dobro desse tempo dando aulas. Mas comecei a estudar música muito novo, com 7 anos. E noves fora, vão aí quase 25 anos aprendendo e ensinando. De quando eu comecei a aprender com meu primeiro professor, o Pollaco, na cidade de São João da Boa Vista (minha cidade natal, Aguaí, não tinha professor), até hoje, onde dou aulas na renomada Escola de Música Souza Lima, a mudança foi enorme.

Mas que mudança? Bom, primeiro do perfil do aluno, e automaticamente da didática aplicada no ensino. A principal causa disso é uma coisa maravilhosa chamada acesso à informação, na sua maioria feita pela internet. Sim, isso é maravilhoso, mas esconde aí quase todo o problema do ensino atual. Uma conta que não fecha: velocidade de informação x aprendizagem musical.

Hoje em dia antes do garoto ter sua primeira aula ele já sabe quem é e como toca seu baterista preferido (ou da sua banda preferida). Ele já assistiu vídeos, já assistiu vídeo-aulas, e talvez já até entrou em contato com esse baterista. Pronto, agora ele já um baterista, um músico, sem nunca ter sentado em uma bateria, ou pelo sem nunca ter feito uma aula, tocado em uma banda, ou sequer saber tocar uma música realmente. Quando esse garoto decide então ter aula, ele espera aprender em pouquíssimo tempo. Algo como “aprenda a tocar em 5 passos” (passos, não aulas!!).

Quando então na sua primeira aula ele passa o tempo todo aprendendo a segurar a baqueta, e depois na aulas seguintes ele passa fazendo exercícios em borracha de estudo e fazendo repetitivos exercícios de coordenação motora, eu posso nesse ponto estar correndo risco de vida!!! Na melhor das hipóteses eu estou com certeza correndo o risco de perder o aluno. Ele me acha ruim, equivocado, maluco, e talvez ache que eu o esteja enganando.

A vida não tem a velocidade da internet, nem em música, nem em nada. Não se muda nada de fato em sua vida com um click. Na música muito menos. O estudo de músico é o antônimo da vida na internet. Talvez mais semelhante a meditação.

Mas aqui está a realidade, para alguns dura, para outros feliz. A vida não tem a velocidade da internet, nem em música, nem em nada. Não se muda nada de fato em sua vida com um click. Na música muito menos. O estudo de músico é o antônimo da vida na internet. Talvez mais semelhante a meditação. Música se estuda com muita repetição, paciência e perseverança. Só assim pode se obter o resultado. Não há fórmula mágica que mude isso. E acredito que nunca haverá. É verdade que a tecnologia ajudou muito na música, e até no ensino dela. Ajudou e ajuda. Mas isso não muda a maneira de aprender a tocar um instrumento, a se tornar músico.

O que acontece é que esse choque de realidades é um fato nas escolas de música, e também outras escolas, eu sei. O que mudou foi a vida do garoto. Ele passa muito tempo conectado a internet, com muitas páginas abertas ao mesmo tempo. Batendo papo em um ou dois chats com muitas pessoas. Tudo é veloz. A ansiedade é uma questão de tempo na vida desse menino. O problema é que o tamanho da ansiedade é proporcional ao tamanho da frustração. E lidar com frustrações não é o forte dessa geração.

Faltaram muitos “nãos” em suas vidas para que eles soubessem que a vida se constrói e não é dada a eles. Isso independente da classe social. O quadro aqui tem a ver com pais ausentes, que estão fora o tempo todo para trabalhar.

Esse é o perfil do aluno de hoje. O garoto fadado a frustrações a insucessos e fracassos e desistências precoces do que quer que seja. E é nesse ponto que mudou a minha profissão de professor. Primeiro que dar aulas individuais sempre foi um tanto quanto ser um pouco terapeuta dos alunos. Isso sempre foi assim. Mas por esse quadro acima apresentado isso se intensificou. Antes você era “convidado” a ser o terapeuta do seu aluno.

Eu vejo que é necessário dar aos alunos um choque de realidade, mas manter nele vivo, muito vivo, o sonho que o motivou a chegar até aquela sala de aula.

Agora é muito importante que o professor saiba quando se convidar a ser esse terapeuta. Porque isso pode ser determinante no sucesso do seu aluno. Conhecer o aluno, ganhar a confiança dele, ser para ele um exemplo, alguém que ele goste, que ele gostaria de ser. Empenhar-se em ser esse professor. Isso foi o que mudou. Você então enquadra o aluno em um perfil e o guia. Eu vejo que é necessário dar aos alunos um choque de realidade, mas manter nele vivo, muito vivo, o sonho que o motivou a chegar até aquela sala de aula. A partir do momento em que o aluno passa a confiar em você só aí o ensino de música realmente começa. Antes disso, qualquer trabalho terá sido jogado no lixo.

Me sinto muito responsável pelos meus alunos. Tento de todas as maneiras trazê-los para esse mundo real. São muitas horas de conversas, as vezes aulas inteiras apenas conversando. Tento me concentrar neles. Tento fazê-los concentrarem-se em si próprios também. Isso é bem difícil nos tempos modernos. Temos a tendência em nos espelhar demais nos mais diferentes modelos, e isso faz com que não tenhamos capacidade de sabermos quem realmente somos. E somos artistas, e artistas são por definição seres de expressão e criação própria, pessoas que se comunicam de forma própria e única através de sua arte. Assim, o auto conhecimento é pré-requisito para ser um músico.

O mundo cresceu, se abriu, mas trouxe também um distanciamento sobre o que nós somos. Assim, nesses tempos modernos meu ofício de ensinar é dos tempos antigos, muito antigos. Ensinar através de exemplos, e ajudar a praticar, guiar na estrada certa em um caminho cheio de atalhos e bifurcações. O conceito é o de sempre: ensino através da confiança e amizade. Aliás, essa deveria ser a maneira de se fazer tudo.

Fernando Baggio é baterista da banda RDT (http://br.myspace.com/rapazesdotrio)  e professor da Escola de Música Souza Lima.

Comentários
Uma resposta para “Ensino de música em tempos modernos”
  1. Simão disse:

    Excelente o seu artigo, professor. Realmente, excelente.
    Cada aluno é um caso a parte… ainda mais em se tratando de arte.
    Gostei do paralelo que você fez do estudo de música com a meditação. Acho que é bem por aí mesmo.
    Comecei a tocar o trompete há pouco tempo, mas já tocava violão e depois guitarra. Esse lance que você disse sobre a importância de nos encontramos enquanto artistas é primordial. É uma maturidade que só os que tem muita sorte encontram logo de inicio, ainda mais no pluralismo cultural dos tempos modernos.
    E a internet nos deixa muito ansiosos mesmo, é complicado… E olha que eu não sou desta geração mais nova aí… Já tenho 32 anos. Mas a gente acaba ficando muito tempo conectado e a mente acelera, não tem jeito. Temos que maneirar nesse negócio…

    Grande abraço! Boas aulas!

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