Encontro Amazônico

O espírito da floresta

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

Existem povos que produzem sons e realizam performances em rituais e cerimônias que, quando questionados por antropólogos e etnomusicólogos, negam que essas expressões sejam “música” ou “dança”. O som e a performance são para eles, na verdade, o próprio ritual de cura, de iniciação da vida adulta, de comunicação com o mundo espiritual. E por serem expressões tão vigorosas e transformadoras, que chegam até a serem chamadas de medicina social pela antropóloga Yvonne Daniel no livro “Dancing Wisdom”, que estudou o conhecimento incorporado na música e na dança dos devotos de sessões do candomblé na Bahia, do vodu no Haiti e o yorubá em Cuba, muitos artistas mergulham nesse universo fazendo a transição do ritual para o palco das sociedades modernas, carregando consigo o espírito dos que pretendem expressar.

Músicos como Milton Nascimento com os índios no disco “Txai”; Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz, cujo som é um híbrido dos toques dos tambores do candomblé com jazz; Carlos Malta, que mistura o pífano à música instrumental moderna; e até mesmo Chico Science, que uniu o macaratu ao rock, são exemplos a serem citados. A cultura da floresta amazônica, dos índios à população que ali se instalou, também serve de inspiração para muitos artistas, como Ellen Fernandes, cantora que no dia 25 de outubro apresentou o projeto Encontro Amazônico, na Casa do Núcleo, em São Paulo.

Com os músicos amazonenses Stanley Wagner (guitarra), Leonardo Pimentel (percussão), Lúcio Vieira (bateria) e o paraense João Benjamim (baixo), a cantora apresentou 14 canções que, tanto no ritmo quanto nas letras, transmitem a importância da floresta para a humanidade. Com arranjos de toada de boi-bumbá e gambá, ritmos locais, ela cantou duas canções próprias e músicas de compositores da região como Emerson Maia, Ketlen Nascimento, Chico da Silva e Celdo Braga, este último, considerado o seu padrinho musical, e que prepara um novo trabalho com dois integrantes do grupo Imbaúba, do qual também faz parte. Também participaram do show em algumas músicas o trombonista Joabe Reis e o saxofonista e flautista Renan Cacossi, ambos do Estado de São Paulo.

Ellen é de Manaus e mora em São Paulo há quatro anos. A mudança ocorreu para que pudesse estudar canto, o que faz em duas instituições de ensino. Mas o principal ela já tinha desde pequena, afirma o músico e poeta Celdo Braga. “O que é mais bonito é que ela canta com a alma e, agora, está buscando a técnica. A gente nasce com talento, mas o aprendizado está na pauta do dia. E é de forma muito interessante que ela busca o aperfeiçoamento, porque a voz é como qualquer instrumento. E ela, de forma muito responsável, encampou desenvolver o seu potencial”, diz, em entrevista por telefone. No palco, ela envolve o público pela voz e por uma interpretação visceral, trazendo para a cidade de pedra a memória viva da floresta.

Celdo a conheceu de forma muito especial. Um dia, foi ao banco falar com o gerente, que o interpelou: “Você me criou um problema sério!” Na hora, Celdo pensou em algum problema financeiro, ao passo que o gerente explicou que sua filha era apaixonada por ele e pelo seu grupo, o Raízes Caboclas. E que, no ano anterior a esse encontro, a filha queria lhe levar flores após um show no Teatro Amazonas, mas desmaiou de emoção. Ao saber disso, Celdo combinou de almoçar com a família e conhecer a garota e fez isso no mesmo dia que teria outro show. “Quando eu cheguei lá, essa criança sentou no meu colo e começou a me dizer coisas como que ancestrais. A gente na floresta tem essa coisa da espiritualidade, por mais que eu seja católico, eu tenho uma veia aberta para a espiritualidade da floresta, como os índios, que tem essa tendência espiritualista. E parecia que eu estava falando com uma pessoa adulta. E a partir de então a Ellen desenvolveu todo um trabalho ligado à canção e estabelecemos esse bem querer, que é impressionante. Inclusive ela está encampando esse trabalho musical por esse toque do passado. É uma pessoa boníssima de encampar essa questão, de viver a arte, tenho profundo apreço por ela.”

Estética da Amazônia – Celdo explica que não é possível traduzir esteticamente a música da Amazônia pela MPB. “A música da Amazônia passa pela natureza dos pássaros, do encontro do vento tocando as ramagens, a chuva tamborilando as casas cobertas de palha, que faz parte da minha infância e da minha adolescência, a batida do remo na água… Nossa canoa é um elemento simbólico muito estreito com o homem. É tão humana a relação do caboclo com sua canoa e o rio que quando ela desata e vai ele diz com tristeza, minha canoa fugiu. Ele dá um atributo humano para a canoa. A partir desses elementos sonoros, eu desenvolvo a matriz da minha composição musical, buscando a batida ancestral dos índios como referência, mas quase todas as composições buscam fraseados de pássaros”, explica ele, que carrega no pescoço uma bocarina, uma pequena flauta antiga. “E com ela eu imito alguns pássaros. Esse é o canto do tucano, é a mesma nota. Eu pego esse fraseado: ta tan ta tã; o pássaro me dá a célula-mãe da música que eu vou compor. Toda vez que minhas músicas tocam, geram um efeito sinestésico no ouvinte e traduzem um som de água, de pássaro. Busco a matéria prima na sonoridade da floresta.”

Há 32 anos trabalhando com a cultura da floresta, Celdo não teve retorno financeiro, mas muita realização pessoal. Suas músicas circulam o mundo, seja em CDs ou na trilha sonoras de documentários e séries de televisão. Ele esteve em agosto com o Imbaúba em São Paulo para o show de abertura da quarta edição da Virada Sustentável. “Não faço isso como suporte financeiro, porque cantar cultura não dá dinheiro, mas sim como realização pessoal. E esse trabalho está em todo o planeta. É um trabalho instrumental que tem tocado em muitos segmentos e com isso vamos dialogando.”

Após 25 anos no Raízes Caboclas, Celdo deixou o grupo por desencontro de ideias. Ao migrar para o Imbaúba, com foco na questão ambiental. “E chega um momento que a gente percebe que tem pessoas do grupo que efetivamente não está nessa vibe, como dizem os jovens. E não adianta sustentar um trabalho que não tenha alma, relação estreita com essa verdade. Estávamos em cinco. Agora estamos em quatro. Já foram lançados sete CDs e, com essa obra, vamos segurando os shows.”

O som da semente – E, em breve, deve sair um CD batizado de Gaponga, que é o som que faz o fruto e a semente ao caírem no chão alagado da floresta. “Esse trabalho reúne a essência de dois anteriores e vai ser centrado na mística. Vamos cantar a mística das pessoas e a relação com o sagrado. É um trabalho que vai de uma forma interessante mostrar a divindade. Eu sou cristão, mas há uma divindade na paisagem. Tem um texto meu que diz: ‘o rosto de Deus é parecido com o meu, parecido com o teu, é parecido com nós. Aprendi no espelho das águas ver meu rosto do lado de lá. Quando canto, descubro em meu rosto Deus nas águas comigo a cantar. Quando vejo a paisagem bonita, infinita essa imagem se faz na extensão do olhar que me habita, vejo Deus que me diz muito mais. É por isso que eu digo não mate na paisagem o meu rosto e o teu. Deixe o verde da imensa Amazônia ser espelho do rosto de Deus. Deus nos ama na força das águas, na leveza da pluma que cai, na semente gerando a esperança, na alegria de ser nosso pai.’ O texto se chama o ‘Rosto de Deus’.”

O novo trabalho está sendo feito com outros dois integrantes do Imbaúba, com vários ensaios já realizados, numa forma coletiva de composição. “Nós estamos já ensaiando e o mais interessante desse trabalho é que a gente se reúne e aparece uma imagem musical. E vamos desenvolvendo coletivamente, como uma forma de todos participarem do processo de criação. A composição mais recente surgiu agora, um texto que eu imaginei, na questão da fruta. A fruta às vezes a gente gosta tanto, mas não percebe que o sabor que ela oferece, seja a intenção dela se perpetuar para a gente ser seduzido a plantar a semente, e não raro a gente joga a semente fora.” E assim, nesse híbrido de cultura ritualística e local com a cultura ocidental, o espírito da floresta reafirma a sua importância.

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