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O papel da arte hoje é apontar caminhos, diz Benjamim Taubkin em debate sobre o filme “Eu Maior”

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

O papel da arte é chocar? Não é essa a opinião do músico Benjamim Taubkin que, durante uma palestra sobre a trilha sonora que ele criou para o filme “Eu Maior”, na Casa do Núcleo, na quarta-feira (29/11), revelou o que mais gostou do trabalho, que completa agora um ano de lançamento. O filme é um documentário sobre a busca do autoconhecimento e da felicidade, com base na experiência de vida de 30 pessoas, como artistas como o próprio Benjamim e líderes espirituais, cientistas, filósofos, escritores. Em um ano, o filme foi visto por mais de um milhão de pessoas na internet.

Participaram do encontro os diretores do Fernando e Paulo Schultz, que agora planejam lançar um livro para aproveitar ainda mais todo o conteúdo gerado nas entrevistas, que ficaram de fora do filme. E, em meados do próximo ano, deverá ficar pronto um novo documentário, a princípio chamado de “Mais Amor”. “A gente é muito fã da trilha do filme. O afeto que as pessoas têm do filme tem muito a ver com a música”, diz Fernando. “Não queríamos fazer um tratado sobre autoconhecimento, mas um poema sobre o tema.” Paulo Schultz diz que a música no filme foi, desde o início, considerada um personagem. “Tem 30 entrevistados, mas o 31º entrevistado é a música.”

Paulo conta que o filme, cujo projeto nasceu em 2009, tinha uma trilha sonora temporária que os ajudava a montar as cenas, que já estavam divididas por temas. Até que Fernando propôs a participação de Benjamim na composição de uma trilha original, pelo respeito que tem pelo trabalho do músico, que já foi responsável pela trilha de pelo menos dez documentários, como “Genesis”, sobre Sebastião Salgado, e “Oscar Niemeyer – O Arquiteto da Invenção”.

“Quando encontramos com o Benjamim ele entendeu e compôs essa música na flor da pele. Foi algo sentido e composto conforme a sensação que ele tinha com o que estava acontecendo no filme. Foi uma experiência muito inovadora e a contribuição do Benjamin ajudou a gente a formular e a lapidar certas cenas. Em alguns momentos, a música estava melhor que a cena, e a gente voltava para editar melhor”, conta Paulo. “É um bom jeito de levar as pessoas para o lado emocional. O filme é muito denso em termos de informação e faz muitas reflexões. Mas o depoimento das pessoas que ouvimos é que elas não se sentem cansadas. Deixamos várias pausas, pequenas ou longas, que são os momentos que deixam as pessoas degustarem as mensagens. E essas pausas deixam o filme menos denso.”

Segundo Paulo, o sucesso do filme veio até antes de ser terminado, “porque conseguimos captar R$ 200 mil em crowdfunding (financiamento coletivo). E o fato de mais de 600 pessoas terem entrado como patrocinadores do filme deu uma ideia do que seria. Deu não uma expectativa, mas uma esperança que o filme iria reverberar em mais pessoas. E tocou muita gente, as pessoas dizem que o filme ajuda a se comunicarem com as pessoas queridas”. O orçamento total do filme foi de R$ 800 mil.

Após mais de uma hora de debate, Benjamim fez um dos mais importantes comentários sobre o filme. Ao responder sobre uma pergunta sobre como foi para ele receber um convite de um filme com a profundidade de “Eu Maior” para poder criar a trilha, o músico comentou sobre a importância de se trabalhar em equipe, com a colaboração dos músicos Sacha Ambak (concepção eletrônica), Zé Godoy (guitarra, baixo e bateria) e Dimos Goudaroulis (violoncelo), responsável por tocar “Prelúdio da suíte I em sol maior para violoncelo solo”, de Johann Sebastian Bach.

“Quando eles me chamaram para ver o filme, eu pensei… ‘Eu Maior’, pensei humm… Pensei em autoajuda, pensei que não seria a pessoa (para o trabalho). Eles me mandaram os drops e vi que era um filme equilibrado, que não é mistificador, porque que isso para mim incomodaria”, diz o músico, que buscou se afastar do New Age, estilo que nos anos 1980 e 1990 era associado com questões ligadas ao autoconhecimento e autoajuda, além de pontuar as diferenças entre as concepções de “música” e “trilha”, argumentando que o papel da trilha deve ter maior relação com as cenas. “Mas uma coisa que eu achei superincrível nesse projeto é o seguinte: qual é o papel da arte no mundo hoje? O feio, as dificuldades, o horror do mundo, já estão expressos na vida cotidiana. Na esquina, na agressão de uma pessoa, nas impossibilidades, nos bloqueios. Você vai num site de notícias mais equilibrado, como a BBC e Al Jazeera – que é bastante equilibrado – E você diz: meu Deus do céu!”

Para ele, não é preciso que arte choque, porque o mundo já faz isso fortemente. “O que a arte pode trazer para o mundo são saídas. Acho que ela pode apontar caminhos possíveis, que você tem pouco hoje. E de um jeito que não é racional. Qualquer um de nós aqui, se ficar meia hora ouvindo música de Bach, vai sair daqui pensando: talvez tenha uma possibilidade. Porque ele te propõe isso, porque é uma coisa do universo da harmonia, da criação, da beleza. E isso pode te fazer avançar. Eu acho que a arte pode prover isso e poderia estar fazendo mais, muito mais. Acho que faz pouco. Esse filme para mim, ele faz isso. Então é muito interessante, porque goste ou não do filme, depois que a pessoa assiste tem perguntas muito boas, você sai do filme mobilizado. Não é simplesmente eu me esqueci quem eu sou por duas horas e vou voltar a ter conviver com quem eu sou. O filme fala sobre quem você é, mas de um jeito que abre portas. Várias das coisas faladas nesse filme ficaram comigo.”

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