João do Pife

“Pífanos do Agreste” estuda 17 bandas de Pernambuco

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

A produtora Página 21 lançou em novembro o livro “Pífanos do Agreste”, resultado de uma pesquisa e um mapeamento de 17 bandas de pífanos no agreste central de Pernambuco. Os pesquisadores percorreram 1.500 km para realizar o levantamento, que teve a participação de historiadores, músicos e antropólogos. Foram impressos mil exemplares que seguiram para escolas públicas do Estado. O trabalho deve continuar, com novas pesquisas nos sertões do Moxotó, Central e Pajeú, cujo resultado será divulgado até junho de 2015. “Daí, seguimos pra o sertão de São Francisco”, conta Amaro Filho, da Página 21. “Muito mais que aprender sobre as bandas de pífanos, a pesquisa me revelou nuances sobre a vida de gente simples, que encontra a felicidade em tocadas depois de um dia de trabalho e renova a fé através da arte de tocar”, escreve no livro o músico e pesquisador Daniel Magalhães.

O estudo tem como objetivo garantir medidas de salvaguardas dessa expressão popular, que se apóia na tradição oral para se perpetuar e enfrenta os desafios da globalização para continuar viva. Por isso, o estudo usou a metodologia do Inventário Nacional de Registro Cultural (INRC) e teve acompanhamento técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com o objetivo de conquistar o reconhecimento como Patrimônio Imaterial no Brasil e perante a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, fazendo o mesmo caminho que o frevo, que obteve esse reconhecimento em 2012.

“Tivemos duas reuniões com os técnicos do Iphan aqui no Recife, a última com o superintendente, Fred Almeida, que nos falou que estamos muito adiante em relação ao pedido de registro. Isso porque já estávamos fazendo projetos de salvaguarda, como os encontros de bandas, oficinas de confecção de pífanos, colocando os pífanos nas escolas, além dos livros que vão cobrir todo o Pernambuco registrando a expressão. A proposta é pedir o registro direto ao Iphan durante o próximo Tocando Pífanos (encontro nacional de bandas de pífanos) que acontecerá no primeiro semestre em Olinda. Mesmo sendo o pedido feito por PE, ele tem o caráter nacional, pois a expressão tem essa significância e se encontra em várias regiões. Foi assim com a capoeira, por exemplo, que foi iniciativa dos Estados do RJ e BA. Daí, nós iremos para a ONU junto, inclusive, com países da Europa, como a França, onde há um encontro de pífanos há 24 anos”, conta Amaro.

O livro conta a história do pífano no Brasil de forma bem didática, mostrando que o instrumento já era usado em bandas marciais na Europa e que vieram ao Brasil com nos navios desde o descobrimento do País. Uma vez no país, a tradição do pífano recebe a influência de índios e negros, que influenciaram a forma de se tocar o pífano e os ritmos. Para mostrar que o toque da flauta no País é muito mais antigo do que se pensa, há no livro um artigo da coordenadora do Museu de Arqueologia da Unicap, Maria do Carmo Caldas, sobre a flauta de osso encontrada com um esqueleto em um cemitério indígena no Brejo da Madre de Deus, a 195 km de Recife, com datação de 2 mil anos A.C.

A pesquisa conta a evolução na formação dos grupos de pífano ao longo do tempo, a formação da principal cidade do agreste Caruaru, a fabricação dos instrumentos, o figurino dos tocadores, a importância das bandas na tradição religiosa e nas festas profanas, a história das 17 bandas e histórias de alguns dos principais expoentes da tradição, como mestre Vitalino que, apesar de ficar conhecido como artesão, era também pifeiro de primeira ordem. Há também destaque para João do Pife (que está na foto que abre esse texto) e a sua banda Dois Irmãos, que realizam oficinas de construção de pífanos e já percorreram a Europa e os Estados Unidos levando música para todos os cantos. O livro ainda traz a transcrição em partituras de seis músicas tradicionais das bandas de pífano pesquisadas.

“O toque do pífano parece um elixir da juventude, a notar-se pelo olhar do tocador, que não perde seu brilho desde os tempos de infância. A própria embocadura exige do tocador um leve sorriso para criar o som, sugerindo, de imediato, uma alegria contagiante”, escreve o músico Carlos Malta, responsável por modernizar a tradição, usando o instrumento na música moderna. “A realização deste mapeamento e sua conseqüente publicação é um divisor de águas na difusão do pife e seu rico universo, dando luz especial aos tocadores, seus instrumentos e sotaques, trejeitos e passos.”

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