Heraldo do Monte 2

Heraldo do Monte abre o Instrumental Sesc Brasil de 2015 com o projeto Choro de Viola

Roger Marzochi, Americana, entresons, roger@entresons.com.br

Foi em uma apresentação com Rolando Boldrin, no programa Sr. Brasil, que Heraldo do Monte decidiu levar adiante um projeto antigo de tocar chorinho na viola caipira. O resultado do desafio lançado durante o programa da TV Cultura levou o multi-instrumentista e compositor, que integrou o lendário Quarteto Novo nos anos 1960, a pensar seriamente em tocar e compor choro usando a viola, o que resultou em várias composições novas e novos arranjos de clássicos do gênero reunidos agora no projeto Choro de Viola, que no dia 5 de janeiro abrirá a programação de 2015 do Instrumental Sesc Brasil, em São Paulo. Ao longo do ano, o show deverá ser apresentado também no no Sesc Santo Amaro, dia 07 de fevereiro, e no Sesc Pinheiros, possivelmente em março.

Prestes a completar 80 anos em maio, Heraldo diz que leva o seguinte aprendizado de vida: quanto mais um músico estuda, maior é o seu ostracismo no Brasil. “A minha carreira e tudo que aconteceu na minha vida eu acho bem legal, porque consegui bastante respeito”,  diz o músico. “É claro que se for pensar na grande mídia, o músico que estuda e se aprimora não tem espaço, comparando com uma pessoa como a Valesca Popozuda, que é de uma turma mais famosa para a mídia. Eu considero que a gente vive uma situação de semiostracismo. Mas quanto mais se estuda, cada acorde que você acrescenta, o semi vai sumindo e vai crescendo o ostracismo. E se você estudar muito, sai o semi e fica o ostracismo.”

Heraldo afirma que o público da música instrumental é bastante fiel e há também alternativas de divulgação, mas não deixa de pontuar a responsabilidade da mídia. “Não gosto de citar o pessoal mais famoso e que estuda menos, mas para cada fulano desses, nós temos um Egberto Gismonti, um Hermeto Pascoal. A mídia busca o que é mais fácil para o público. Nem todo mundo nasce com ouvido musical legal. E se você não tem formação e não ouviu essa música na infância, vai assimilar o que entra mais fácil no ouvido. Quando você tem ouvido musical e curiosidade, mesmo que você esteja num bairro cercado por gente que não liga, mas você ouve no rádio ou algum lugar você se sente atraído porque você sente alguma coisa, algo melhor que a maioria das músicas. Não sei se a mídia tem razão. Mas é culpada, porque se resolvesse educar musicalmente, o cenário inteiro seria outro.”

Responsabilidades à parte, Heraldo está bem empolgado com esse projeto, que o faz viajar no tempo. E embarcam com ele os músicos Edmilson Capelupi (violão de sete cordas), seu filho Luís do Monte (violão de seis cordas) e Cleber Almeida (percussão). Para essa formação, ele apresentará no show músicas próprias como “Esperando a Feijoada”, “Doçura”, “Choro de Viola” e “Choro para Lucas”, composição inspirada em seu neto. A estes se somarão choros de Pixinguinha e Jacob do Bandolim, apresentados nessa formação bem peculiar com a sonoridade da viola caipira.

“Como eu toco uma porção de estilos, cada estilo tem um universo para o qual eu me transporto. E quando eu vou para o choro, eu me lembro da minha infância no Recife. No meu bairro tinha muita gafieira, as pessoas dançavam, e eu ouvia também muitas gravações de Pixinguinha, Benedito Lacerta, Jacob… E todo esse ambiente de choro eu me transporto para esse lugar, eu fazia rodas de choro quando eu tocava com o pessoal no bairro, tocando bandolim e cavaquinho.”

Miles num dia de preguiça - E como ele é um músico inquieto e talentoso, ao longo do ano ele ainda buscará emplacar o Projeto Groove, para abrir espaço para um som mais dançante e cheio de improvisação.  “Fazer groove é coisa de músico preguiçoso”, brinca Heraldo. “Você escreve o ritmo de contrabaixo, depois uma batida de guitarra, e isso já teve lá uns 16 compassos só do groove de contrabaixo, já causa impacto! Depois põe uma melodia e um misto de sax tenor e guitarra-solo e a música já está com duas horas, e depois as improvisações. O groove para show de duas músicas (risos!). É música de vagabundo. É uma música que dá muito prazer, eu me divirto. Já o choro requer mais concentração.”

O que importa, para Heraldo do Monte, é que o que ficou definido como “groove”,  é caracterizado por “uma batida regular, hipnótica, sem muita complicação rítmica ou harmônica, que mexe com o corpo, sem que você queira e que possibilita a execução de temas rítmicos, riffs vigorosos e improvisos super quentes. A ideia é trazer levadas brasileiras, cubanas, dentro deste ritmo dançante, incansável, onde sempre fica um gostinho de ‘quero mais’, tanto para o público, como para os músicos, que se divertem à vontade improvisando nestas levadas”.

Para esse projeto, Heraldo assume a guitarra, e conta com a companhia dos músicos Luís do Monte (guitarra), Sizão Machado (baixo), Fred Prince (percussão), Cleber Almeida (bateria) e Vinicius Dorin (sax). “A gente vai quebrar tudo. É só escrever uma melodia simples em uníssono de guitarra e tenor ou se tiver um trompetista para engrossar a turma. O Miles (Davis) fazia isso, teve uma época de groove e as músicas eram quilométricas, com muito improviso. Ele que criou isso num dia de preguiça. Choro não pode ficar folgado.”

Comentários
Uma resposta para “Heraldo do Monte abre o Instrumental Sesc Brasil de 2015 com o projeto Choro de Viola”
  1. Que orgulho eu sinto quando me lembro que Heraldo do Monte e eu fomos clarinetistas da Banda do Liceu de Artes e Ofício de Recife, na década de 50.
    Heraldo sempre foi um gênio!!!

Deixe um comentário

Social



Licença de uso

Licença Creative Commons
Os textos do Entresons são publicados com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir, retransmitir e distribuir o conteúdo, desde que com crédito (ao site e ao autor do texto), para uso não-comercial e com uma licença similar.

Próximos shows

Assinar: RSS iCal