Gabriel Santiago 2013

Um músico para ser conhecido e admirado

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

Ele é a inspiração em pessoa, ainda mais quando toca violão e solta a voz. Aos 34 anos, construiu uma carreira invejável. Em várias formações, com a colaboração de músicos tão importantes quanto ele, já gravou 7 CDs, 2 DVDs e participou como músico convidado na gravação de outros 16 CDs. Tocou e foi o arranjador de músicas para o teatro e o cinema e ainda ganhou três prêmios nos Estados Unidos, país onde fez seu doutorado após ganhar uma bolsa de estudos. Apesar dessa profunda experiência e da qualidade admirável de seu trabalho, o público brasileiro pouco ou nada sabe sobre a existência de um ser chamado Gabriel Santiago, que a partir de Ilhéus (BA) estendeu sua obra para todo o planeta, ganhando a audiência de americanos e japoneses.

Por isso, não se preocupe se você não o conhece. Ele nunca foi tema de reportagens da chamada grande mídia, que prioriza artistas estrangeiros ou nomes brasileiros já consagrados seja pela qualidade ou número de CDs vendidos. Gabriel Santiago não está preocupado com a fama, mas como todo artista, gostaria que seu som fosse acessível ao maior número de pessoas. E, devido à apatia da mídia brasileira, um músico como ele tem que se autoexilar no exterior, mais precisamente, nos Estados Unidos, país para onde voltará até meados de 2015.

Nascido em Ilhéus, Santiago sempre teve um contato muito íntimo com o mundo da música. Seu Délio Santiago, pai de Gabriel, é músico e sempre serviu como um grande exemplo. E Gabriel retribuiu todo o carinho ao gravar uma música do pai, “O homem e o cacau”, em seu primeiro CD autoral, em 2007.  “A música está na minha família desde sempre. Além do meu pai, minha mãe também tocava piano. Meus pais têm mais de cinco mil discos de vinil. Sempre havia música ao redor da minha casa, e essa coisa de tocar foi muito natural, aconteceu”, diz Gabriel, que começou a estudar violão aos oito anos. Com 13 anos, ele já tocava jazz e bossa nova nos bares de Ilhéus.

Aos 17 anos, Gabriel foi morar no Rio de Janeiro para estudar música na UniRio. Fez duas graduações, um mestrado e muitos amigos. Em 2006, ele fez os arranjos e tocou violão na orquestra do musical “Império”, de Miguel Falabella. Com todos os contatos que fez, conseguiu gravar o seu primeiro CD em 2007 com a colaboração de mais de 35 músicos, entre eles, Gilson Peranzzetta, Odair Assad, Gabriel Grossi, Marcio Bahia, Ney Conceição, entre outros. Das 11 músicas do CD, nove são composições autorais de Gabriel. Entre elas, a belíssima “Clareanna”, que motivou o cineasta Alex Barbosa a escrever o roteiro do filme “O Quarto Imaginário”. Quando o filme foi finalizado, Gabriel fez a trilha sonora baseada nessa música.

Em 2008, Gabriel venceu um concurso para uma bolsa de estudos da Capes – Fulbright, que promove intercâmbio estudantil entre o Brasil e os Estados Unidos, e foi fazer um doutorado na Universidade do Texas, em Austin. Lá ele formou vários grupos, um dos quais foi recebeu, em 2010, o prêmio “ASCAP – Young Jazz Composer Award Winner”, com a música “Suíte Impressões Nordestinas”. Gabriel foi o primeiro brasileiro a ganhar esse prêmio, destinado para jovens compositores até 29 anos. No mesmo ano ainda havia recebido outro prêmio: “Eleanor A. Stribling Award for Excellence in Jazz Studies”. E, ao fim do doutorado, sua dissertação recebeu o prêmio “2013 Outstanding Dissertation Award”.

Fonte do saber – Apesar de manter estreita relação com os estudos acadêmicos, Gabriel afirma que não é na universidade que se aprender a tocar. “Uma grande parte do conhecimento que eu tenho hoje foi adquirida tocando com as pessoas nos bares. Quando você está cercado de pessoas, de bons músicos, você cresce. Não só de você tocar, mas de conversar com um cara experiente. Esse tipo de aprendizado informal é tão importante quanto você estudar e ir para as aulas. As pessoas jovens que estão iniciando na música estão esquecendo que a fonte são os mestres que tocam, esses são os caras que têm o conhecimento. A música é coletiva, tem que exercer isso, tem que tocar junto.”

Da mesma forma, ele vê com preocupação estudos acadêmicos sobre o jazz nos Estados Unidos e o samba e o choro no Brasil. “Essas culturas estão lutando para serem preservadas. Acontece que os gêneros e tradições chegam ao nível acadêmico e alguma coisa se perde com isso. É a mesma coisa do jazz nos EUA. Estão querendo elevar o jazz à música clássica e ser estudado e contemporizado. Mas alguma coisa – a essência – se perde nisso”, afirma.

“Assim, como no Brasil, quem tocava violão sete cordas e passava isso para o filho, fazia a roda para tocar. Agora, isso virou assunto para a academia. A maioria das teses da UniRio é ligada ao choro e ao samba, obviamente porque se esgotou o assunto música de concerto, as pessoas começaram a falar sobre coisas que têm a ver com o contexto delas. O pessoal que tocava também foi para a universidade, tem o chorão que tocava e foi para a universidade e vai ter que fazer doutorado, vai querer falar de coisas que são inerentes à cultura dele. Mas se começa a alçar esse contexto de alguma coisa sublime, mas se esquece do contexto da música na rua. É uma faca de dois gumes. O jazz inundou o mercado com métodos, com livros, e a universidade com muito cursos, mas tem um monte de gente que não toca nada.”

Outra preocupação do músico é com rótulos. Para ele, erram aqueles que no Brasil preferem chamar o jazz feito no País de “música instrumental brasileira”.  “Esse negócio de música instrumental virou um gênero no Brasil. Vão jogando dentro dele tudo, virou um saco de gato. Tudo que não tem ninguém cantando é música instrumental. E tem aquela coisa de ter receio de tocar o que a gente quer por não ser mais brasileiro. Todo rótulo é ruim. Não é um estilo ‘música instrumental’. Lá fora não tem música instrumental, tem jazz. Uma grande geração de músicos não está muito ligado nisso”, afirma ele, para quem o rótulo até assusta alguns ouvinte, acostumados a associar música instrumental à música feita só para músicos.

“Chama logo de ‘jazz brasileiro’ ou sei lá o que, mas instrumental é muito limitado. Os músicos que eu conheço e admiro no Brasil, como o Hamilton de Holanda, as músicas dele não têm barreiras. Pode ser que se faça com um cantor. Esse termo instrumental limita a gente, porque tem um pré-conceito ao instrumental, de música que ninguém entende. A gente fica marginalizado, pois o que queremos é tocar para muita gente. E isso é difícil quando se fecha nesses conceitos.”

O que move a arte – Antes de voltar para Austin, Gabriel ainda pretende gravar no Brasil mais dois CDs: “Connections 2” e o “Metropole 2”, dois projetos musicais lançados entre 2013 e 2014 que ele realizou quando voltou dos Estados Unidos e decidiu vir morar em São Paulo. Em ambos os casos ele visita composições consagradas para dar novos arranjos e deixar a sua marca na história da música, com solos e vozes inspiradores e com a máxima atuação de grandes músicos brasileiros de jazz, como o baterista Thiago Rabello, baixista Sidiel Vieira e o pianista Zé Godoy.

No caso do CD “Connections” há a participação do saxofonista americano Justin Vasquez, que tem Egberto Gismonti entre seus ídolos musicais e que, na gravação, faz solos emocionantes. O músico ainda precisa finalizar neste ano duas composições de concerto encomendadas por músicos americanos. Para finalizar, Gabriel explica o porquê compõe: “a arte, a música, sempre nasce de um conflito, de uma necessidade de dizer algo. Quando eu faço uma peça tem que haver ideias contrastantes, tem que ter dificuldade, uma busca e uma inquietação. Sempre nasce desse tipo de conflito e de uma certa inquietude. Porque se é 100% feliz, você não vai fazer música. Existe um senso de que está faltando alguma coisa, isso é o que mova a arte.”

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