Elis Regina - Marcos Tavares Costa - MTC

Somos todos Elis

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

Arte: Marcos Tavares Costa (MTC)

É preciso fazer uma reflexão sobre questões delicadas no mundo da música, no mundo da arte e da comunicação, partindo de um dos grandes ícones da música brasileira: Elis Regina. Em 2015, ao completar os 33 anos da morte da cantora, circulou em janeiro um texto que, sem dúvida, acertou ao lembrar daquele triste 19 de janeiro de 1982. Mas em meio às necessárias homenagens à diva, acredito ter se excedido. Há no texto uma estimativa interessante de que “surge uma média de duas novas cantoras por dia” no Brasil e que nenhuma teria se igualado a Elis Regina, nenhuma teria atingido o “Olimpo”.

É plenamente compreensível que a um fã seu ídolo seja o melhor entre os melhores. É também igualmente compreensível que para Cesar Camargo Mariano o Brasil seria outro se Elis não estivesse morta, como chega a escrever em sua autobiografia “Solo”, lançada em 2011. Os exageros são próprios dos fãs, familiares e amigos. E jornalista pode ser – ao mesmo tempo – fã e amigo, não há qualquer problema nisso. Não ouso em fazer “apologia” à “isenção” no jornalismo que, sabemos todos, é impossível, especialmente no jornalismo cultural, no qual a matéria-prima é a emoção. A questão é que o exagero surge no ápice da desarmonia entre o que é produzido no Brasil e o que é divulgado pela indústria cultural. Esconde ainda questões mais complexas e profundas e cria um mórbido “padrão de qualidade”, cujas amarras a própria Elis buscou desatar em vida.

Se é para usar uma estatística, vamos aprofundar esse debate? Que tal começar pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais especificamente no Registro Civil de 2013, com os dados das crianças nascidas vivas com registro em cartório? Neste ano, foram registradas 2.832.590 crianças no Brasil, o que dá uma média de 7.760,52 nascimentos por dia. Na minha visão, na minha retórica, é exatamente neste ritmo que surgem cantoras, cantores, atores, atrizes, bailarinos, bailarinas, pintores, pintoras, instrumentistas e dramaturgos. A arte nasce com o ser humano, que tem a incrível capacidade de ser único mesmo quando tenta ser igual ao seu semelhante.

Foi um sujeito muito infeliz esse que inaugurou na sociedade ocidental a divisão dos homens entre “artistas” e “não-artistas”, “músicos” e “não-músicos”, “cantoras”, “não-cantoras” e “A Cantora”. Resistem até hoje sociedades, as quais por incrível que possa parecer ainda são chamadas de “atrasadas”, onde essa dicotomia simplesmente não existe. A arte é parte integrante do mundo, seja para mediar a relação com os Deuses, seja para celebrar a vida. E o mais incrível que vejo hoje é que essa dimensão da arte, como parte constitutiva de Todo ser humano, está crescendo em todo o mundo, inclusive no Brasil.

Vários são os motivos: em primeiro lugar, a revolução dos meios de produção e distribuição da informação; em segundo, o crescimento do número de escolas com uma visão holística do ser humano; em terceiro, a resistência das tradições populares. Por mais que a indústria cultural se esforce em ditar tendências, regras e padrões para dissociar a arte do homem, mais crianças aprendem a se expressar. Mais e mais crianças que aprenderam a expressar seus sentimentos em arte cresceram, e hoje lançam quadros, livros, CDs, DVDs e shows, em tamanha profusão, que nos deixam atônitos. A viabilidade comercial desses projetos, bem como o apoio cultural de empresas e governo, devem ser debatidas à parte. O foco é: nunca se produziu tanta cultura.

Algumas crianças que cresceram na música podem servir de exemplo deste texto, como Andrea dos Guimarães e Barbara Leite, duas cantoras mineiras, musicistas e professoras de música. A primeira lançou em 2014 “desvelo”, seu primeiro CD autoral, com o apoio de 434 pessoas por meio de um sistema de financiamento coletivo. Ela estudou música na Unicamp, é pianista, integrou por seis anos o grupo Garimpo Quarteto, há 12 é integrante do grupo Conversa Ribeira. Em “desvelo”, ela fez arranjos maravilhosos para músicas suas e de compositores como Milton Nascimento, Chico Buarque, Tom Jobim, Edu Lobo, Tião Carreiro e até Björk.

E, o mais bonito: chamou o seu pai Alcides Nunes para cantar com ela “Meus Tempos de Criança”, de Ataulfo Alves. “Ele sempre quis ser músico e a gente, desde criança… minha família sempre gostou muito de música. E, em todas as festas de família, meu pai pegava o violão e tocava três acordes. E tudo que ele gosta ele toca com esses acordes. Sempre fiquei muito emocionada com ele cantando. E eu pensei em chamá-lo para participar de uma faixa (do CD), ele topou e ficou supernervoso”, conta Andrea. O  lançamento oficial do CD ocorrerá no dia 26 de fevereiro, no Itaú Cultural, em show gratuito a partir das 20h.

Já Barbara Leite vive numa cidadezinha de 35 mil habitantes, mais conhecida por sediar a maior unidade da Gerdau no mundo: Ouro Branco, em Minas Gerais. Nascida em Barão de Cocais, começou aos nove anos a tocar violão e não parou. Entrou no conservatório de São João Del Rey e se formou em violão pela Universidade Federal de Ouro Preto, onde conheceu os músicos que participaram de seus dois CDs. O último, “Quem”, foi lançado pela gravadora Kuarup no final de 2013, justo no ano em que  nasceram em média 7.760,52 crianças por dia, segundo o IBGE. Das dez músicas do CD, nove são da mineira, que o gravou num estúdio da pequena cidade de Itabirito.

“Eu canto porque eu componho, eu nunca fui interprete. Eu comecei a compor e a cantar minhas próprias músicas. O que eu mais gosto de fazer é compor e fazer os arranjos e por isso eu canto. Mas não é o objetivo principal, o principal é compor. Eu estudei violão e não tinha essa pretensão de ser cantora. Foi acontecendo. Eu compunha as músicas no tom que eu cantava, e para não ter que mudar o arranjo foi ficando fixo. E, de repente, virei cantora. Estou cantando!”, diz Barbara, que tem conseguido apoio das rádios locais para divulgar seu trabalho, mas investe seu talento também nas redes sociais. No dia 19 de dezembro de 2014, ela postou nas redes sociais “Tempestade”, a sua mais nova música, gravada da forma mais simples em casa, mas com muita força, como você pode ouvir abaixo:

De repente, veio-me à cabeça um “dilema”: será que Andrea e Barbara são menores, iguais ou maiores que Elis? Ao pensar  nisso, num estalo só, vi Elis em pensamento! Sim, era ela. E estava gargalhando, olhando para frente, vendo que o que resta da Ditadura aos poucos se esvai, tamanho o número de gente se expressando livremente por meio da arte, sem o apoio da mídia como a conhecemos até o século 20, sem ligar para aquele tal de “Olimpo”. Um artista – cantor, cantora, instrumentista, etc – alcança sempre o “Olimpo” toda vez que entra em ressonância com os seus sentimentos, com o som de outros instrumentistas, com o som da plateia, com as cores de um quadro na face (não no face) do espectador. E vejo mais! Elis está irradiando felicidade, porque desde 2012 a sua filha Maria Rita superou as comparações com ela, como se fosse um crime ser filha de Elis e ainda cantar. “É realmente um absurdo uma filha se parecer com a mãe”, disse ironicamente Maria Rita, em show na Sala São Paulo, no dia 3 de dezembro de 2014, ao explicar as pressões que sofreu no início da sua carreira.

Mas há ainda um esforço em se fazer da liberdade de Elis – ou na liberdade de expressão de qualquer artista famoso – em uma prisão de “padrão de qualidade”. É bom lembrar que mesmo sob forte pressão política, Elis – e muitos outros artistas – soube protestar contra a censura. É por isso que quando surgiu Elis – e muitos outros artistas – criou-se realmente uma verdadeira “encruzilhada”, não para as cantoras, não para os artistas, mas sim para o poder. A credibilidade hoje está na ação transformadora e, podemos dizer, sustentável da cultura. A cada hora nascem 323,35 artistas, a cada minuto são 5,38. Todos nós somos, e seremos, cada vez mais, Elis Regina. Não em seu talento, porque ela sempre será única. Não se pode esperar por outra Elis, outro Milton, outro Chico, outro Caetano, outro seja lá quem for. Mas Elis está pulsando nas veias de vários artistas, em sua coragem de fazer o novo, confrontar a censura e abrir novos caminhos.

Comentários
3 Respostas para “Somos todos Elis”
  1. Monica Jurado disse:

    Excelente!
    Me senti representada com esss texto.
    Acredito integralmente que a arte nasce com o ser humano, e esta sempre pronta para ser capturada cotidianamente, com ou sem patrocínio, com ou sem holofotes e Olimpos.
    E agradeço por ter conhecido Barbara Leite e Andreia Guimarães!

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