Meditação com Tambores1

Tambores guiam viagem do autoconhecimento

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

Fotos de Fernando Almeida, Verena Pessim e vídeo de Bibiana Xausa-Bozack

O topo de uma montanha, uma praia, um deserto, uma floresta e até a barriga da mãe. Essas são algumas das paisagens internas para onde são transportados os participantes de uma forma muito interessante de se buscar o autoconhecimento: a meditação estimulada pelo som de tambores xamânicos. Há um ano e meio, Mônica Jurado, Cristiane Velasco e Patricia Alcantara iniciaram em São Paulo o projeto “Meditação com Tambores”, unindo técnicas de meditação ao poder transformador da música. “A meditação com tambores nasceu como síntese de todas as abordagens diferentes em relação à meditação e ao espaço sonoro”, explica Mônica, que além de tocar tambor durante as apresentações, canta e também guia os participantes com suas sugestões de sensações que se sucedem ao longo do processo de relaxamento.

A meditação com tambores também surgiu após ela ter realizado meditações tradicionais, que muitas vezes são vistas como processos longos e aborrecidos. “É um processo muito lento e eu tinha urgência de encontrar uma fórmula mais palatável e mais rápida”, diz. “A meditação com tambores é uma forma de ouvir a voz do corpo. O primeiro som que escutamos na barriga da mãe é a batida do coração. E a batida do tambor leva o participante a ficar próximo do estado REM, freqüência em torno de quatro hertz, que é aquele momento do sono no qual os olhos se movem rápido, o corpo fica relaxado. Nessa fase a gente tem mais chance de se lembrar dos sonhos. Mas cuidamos para que as pessoas não durmam. Meditar com tambores é como que experimentar entrar em um sonho acordado e voltar.”

Segundo Mônica, a ideia central do processo é o autoconhecimento. “Se você sabe quem você é você, você pode ser livre. Não será capturado por oferta diversa, você é o que você é”, explica ela, que antes da meditação com tambores, participou do projeto “Almas em Movimento” na Penitenciaria Feminina de São Paulo, de 2008 a 2013, com o objetivo de resgatar a dignidade e a essência de mulheres através do relaxamento com tambores, da voz e da dança. “Essa questão da liberdade é uma coisa que eu falava muito no presídio. Não adianta sair de lá e ficar presa numa crença, numa violação. A liberdade é vista a partir de uma perspectiva de liberdade interna, que é um estado de realização muito alto.”

O grande desafio no início do processo de criação da meditação com tambores foi conciliar religião com psicologia. “Eu já tinha grande aproximação com cerimônias de tambores xamânicos, mas busquei ter cuidado porque não queria fazer algo considerado ‘religioso’. Mas eu queria fazer um projeto, digamos, de ‘designer de interiores’, trabalhando com as paisagens internas de cada pessoa”, diz Mônica, que é atriz, arquiteta e locutora. “Eu criava espaços arquitetônicos pensando no estímulo sensorial, na luz, na cor. Agora, acabo fazendo o mesmo (com a meditação).”

No dia 25 de fevereiro, foi realizada a primeira Meditação com Tambores de 2015, com o objetivo de “Abrir Caminhos e Espaço para o Novo”. A cada evento, os organizadores preparam um novo tipo de reflexão, como pode ser escutado no link https://soundcloud.com/medita-o-com-tambores. Ou ouça no quadro abaixo alguns exemplos:

Há meditações com mantras tibetanos, para obter generosidade infinita e sábia, beleza, harmonia, proteção, proteção para os sonhos e contações de histórias. O primeiro evento de 2015 foi realizado no Espaço 10X20, em Perdizes, e reuniu cerca de 30 pessoas. Em março, estão previstos encontros nos dias 13, 20 e 27 no Núcleo de Pesquisa de Processos Criativos da RED Estúdios, na Vila Madalena, ao custo de R$ 50.

Ao chegar ao local, os participantes recebem um pano umedecido com lavanda, para passar no rosto e para sentir o seu cheiro acalentador durante a meditação. Para iniciar o evento, Mônica comanda o relaxamento dos músculos da face e da boca. Promove a “afinação” da orquestra interna de cada um, ao incentivar os participantes a emitir um “Ah” tão sonoro que chega a vibrar os ossos da cabeça. Em seguida, forma-se uma roda, que com muita alegria gira alterando passos ao som de uma cantiga popular.

Meditação com Tambores3

Músicos que participaram da “meditabanda” explicam a história e o significado de cada instrumento

Após o relaxamento, os participantes se deitam com a cabeça virada para o palco, com os ouvidos ligados aos sons emitidos por cada instrumento. O tambor xamânico dita o ritmo junto com o cajon e a castanhola, mas são usados ainda outros instrumentos, que completam o espaço sonoro. Na apresentação do dia 25, foram usadas a flauta chinesa dizi, a flauta asiática bansuri, e instrumentos orientais como tabla, darbukas, kemence e udu. Em vários momentos, os tocadores de tambor andam em meio ao público, dando para sentir o corpo todo vibrar com os toques sendo feitos tão de perto. Além de Monica Jurado, Cristiane Velasco e Patricia Alcantara nos tambores, participaram da banda os músicos Francisco Mehmet, Telo Ferreira e Ian Nain, e fazem parte de bandas de música oriental como Zikir Trio, Yaqin e Orkestra Bandida.

O “meditashow” se estende por uma hora e meia, com as sugestões de Mônica sobre relaxamento, busca de um espaço seguro na memória, o encontro do animal que guia a energia vital de cada um. Ao fim do evento, os participantes trocam suas experiências com os músicos e entre si. “A gente tem pouco tempo para parar e se ouvir de verdade. Eu fico pensando na quantidade de ondas de interferências que recebemos, como microondas e pensamentos de outras pessoas, que interferem em nossa vida. Na meditação a gente abre uma clareira segura onde a gente deixa a interferência fora para dar uma chance de ouvir a si mesmo. É paradoxal, porque a gente faz barulho, mas propicia o silêncio interno. Tem a ver com essa clareira que a música cria, que abre espaço sonoro e se você entra nele e tem a chance de ter vários níveis de experiência.”

As sensações de bem estar e autoestima se prolongam ao longo da semana, e muitas das imagens sugeridas na meditação surgem em sonhos e ajudam os participantes a ter serenidade para resolver assuntos práticos. “Com a memória estimulada no processo de autoconhecimento, você viveu internamente essa espécie de sonho durante uma meditação, que é uma forma de acelerar sonhos lúcidos. É muito útil, porque você passa a saber por onde você circula quando está sonhando. Isso inclui um terço do nosso tempo, que é o tempo que passamos dormindo”, explica Mônica.

O processo de meditação com tambores também estimula a criatividade, afirma Maria Isabel Aidar, que em meados do ano passado deixou de ser estilista e gerente de produtos na área de moda para tocar projetos como o Energia Vertical, no qual faz um trabalho de alinhamento de energia em escritórios e residências e promove meditações. Além disso, ela espera colaborar na formatação do projeto de Meditação com Tambores para levá-lo para o mundo corporativo, fazendo parte das estratégias de Recursos Humanos para estimular a criatividade e o processo de autoconhecimento de seus funcionários. Bel Aidar, como é mais conhecida, também é compositora, e afirma que participar desse tipo de evento lhe abriu um grande canal criativo com o universo.

“A meditação me coloca em ligação com a minha essência, o que temos no nosso ser é nosso canal de comunicação com o universo, que acredito que seja Deus. Porque a Terra, acredito, é uma grande nave que flutua no infinito Deus. Quando você está ligado a esse ser, você capta talentos e dons e o que realmente você é. E eu comecei a compor”, explica Bel, que pratica meditação há 20 anos e participa do grupo de Meditação com Tambores desde o início do projeto.

“Todo mundo chega aqui na Terra num esquecimento só. Você começa a aprender tudo de novo aqui, sendo que você já é grandioso. Todo mundo aprende a mesma coisa, briga pela mesma vaga. E o empresário fica te comparando, já que todo mundo é igual. Ninguém vê o que você tem de único. E você fica igual a todos por um emprego para sobreviver, isso me deixa chocada. E na meditação você se descobre único, que você tem qualidades únicas, que te faz a unidade.”

Segundo ela, a meditação ajudou a ordenar os pensamentos com relação às suas composições, que geralmente surgem de experiências que vivenciou e que florescem no momento em que ela está no banho, um processo criativo atualmente complexo diante da crise hídrica. Ela já está produzindo três músicas e diz que surge em média uma nova música por mês por causa do estímulo com a meditação.

A primeira música que surgiu no início da meditação com tambores foi “Nene Tutu Baba”, um baião que conta a história de uma ave imaginária com os olhos cor de jade que, quando chora, faz chover no sertão. “A primeira vez que fiz meditação com a Mônica foi para buscar dons e talentos. Prá mim, isso é a música. Mas, para outro, pode ser voltar a ser um supervendedor. E nesse dia eu vi na meditação o porquê eu não aceitava as minhas composições. Eu aceitava sim, não é que eu não dava bola, mas era confuso. Elas vinham todas misturadas, ritmos diferentes, às vezes vinham duas ou três misturadas. E a meditação ajudou a organizá-las.”

Comentários
Uma resposta para “Tambores guiam viagem do autoconhecimento”
  1. André Borges disse:

    Que rufem os tambores, Marzochi!!!
    Bela história, parabéns!!

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