Carlos Malta

Pife Muderno lança CD duplo de show ao vivo gravado na China

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

A banda Pife Muderno, que tem como um dos seus idealizadores o multi-instrumentista Carlos Malta, lançou no início de abril o CD duplo “Ao vivo na China”, com shows de apresentação do trabalho nos dias 1 e 2 no Sesc Copacabana, no Rio, e no dia 10, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. A apresentação na China ocorreu em 2011, quando a banda recebeu um convite da embaixada do Brasil em Pequim para realizar um show na sala de concerto que existe na Cidade Proibida, o Forbidden City Music Hall. O teatro, com capacidade para 1.500 pessoas, estava praticamente lotado e o público ficou entusiasmado com a performance da banda, que iniciou o show dentro da sala e terminou no hall de entrada, liderado pelo carisma contagiante do som de todo grupo e da confiança e habilidade musical de Carlos Malta.

Para Carlos Malta, a experiência foi muito positiva, porque a China é um país de contrastes muito fortes. Após uma avenida moderna, com lojas e restaurantes que poderiam estar em qualquer cidade do mundo, ao virar uma esquina o visitante se depara com o lado artesanal e camponês do país. “Eu pensava: estamos chegando num lugar onde todo chinês tem uma flauta de bambu guardada em casa e a gente chegando esse grupo baseado em flauta de bambu e percussão. Eu fiquei impressionado com a popularidade da flauta de bambu, que na China se chama dizi. Eu toco uma dizi com o pife moderno também, mas é usada de forma diferente, é uma flauta chinesa falando português, tocando em duo com uma flauta indiana, a bansuri, que não tem nada a ver com o Brasil, mas está tocando música brasileira. Por isso que o som é doido”, diz.

Com o Pife Muderno, ele fez um workshop no Conservatório de Pequim e, em uma pergunta de um aluno sobre o processo de criação, os músicos colocaram fogo na aula com um som feito na hora. “O professor ficou impressionando, fiz uma música na hora quando um aluno perguntou sobre o processo de criação. E começamos a tocar e a fazer um negócio na cara de todo mundo. Tudo rolando sem dar uma palavra: fiz uma melodia, depois uma segunda parte, a improvisação, o coda, etc. E quando acabou foi inacreditável: os caras ficaram alucinados com o que rola de som no Pife Muderno. É uma química muito poderosa juntar essas pessoas tocando esse tipo de coisa. Bota fogo em tudo, pode ser numa salinha 3 X 3 ou open air para 30 mil pessoas, como fizemos num show no ano retrasado no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília.”

Malta ainda participou de uma entrevista na Rádio Nacional de Pequim, na qual ele respondia perguntas de vários ouvintes à medida que as músicas do grupo eram transmitidas. Segundo ele, o comentário mais interessante que recebeu foi de um ouvinte que estava há quilômetros de distância de Pequim que, após ouvir a versão do grupo para Chiclete com Banana, disse para Malta que a música o fazia pensar que a província de onde vieram os músicos era completamente verde e cheia de frutas. Além de visitar a cidade, conhecendo a Praça da Paz Celestial, Malta ainda conheceu a Muralha da China. E, mais ainda: fez um som lá de cima. “Fomos lá na Muralha da China, chegamos cedão. Foi lindo, fiz um som lá cima, levei a flauta, foi bonito à beça. Lá você vai reto, vai embora, e não volta. É uma linha reta, é uma escada estranha, degrau de cada tamanho, é uma arma de guerra.”

Malta explica que o CD demorou para sair do forno devido à dificuldade que própria da música instrumental enfrenta no Brasil. O importante é que, entre 2011 e 2015, muitos outros projetos que foram ou estão sendo realizados, fazendo a confluência da tradição das bandas de pífano do Nordeste brasileiro à música moderna. Entre esses vários projetos, vale destacar um show  do grupo no Carnegie Hall, em Nova York, em 2012; no ano passado, lançou no ano passado com a editora Página 21 o livro “Pífanos do Agreste”, que estudou 17 bandas de pífanos de Pernambuco; e o documentário “Xingu, Cariri, Caruaru, Carioca”, que Malta está realizando com Beth Formaggini, e que pode ser lançado até o final deste semestre.

Aldeia Ipatse Kuikuro

Carlos Malta visitou a aldeia Ipatse Kuikuro para conhecer e tocar junto com flautistas indígenas do Alto Xingu

Como o nome do documentário sugere, Malta percorreu tribos indígenas no Mato Grosso, flautistas e pifeiros de Pernambuco, Ceará e Paraíba. Encontrou com Isabel Marques da Silva, a “Zabé da Loca”, que recebeu Malta no assentamento Santa Catarina, município de Monteiro, sertão da Paraíba, distante 322 quilômetros de João Pessoa. “Nossos objetos são relacionados à sonoridade das flautas tradicionais e do pife, sua origem, sua transformação, como se descobre o dom do sopro, como se dá a passagem do conhecimento, o contexto do surgimento das bandas tradicionais e da entrada da flautinha na musica pop”, explica release de divulgação do filme. “O documentário desaguou no som do pífano urbano no Rio de Janeiro. O Cortejo Epifania percorreu da Praça São Salvador no Rio até a foz do Rio Carioca reunindo os palhaços Minduin e Trambique, a banda Pife Muderno, os Pernaltas, blocos de carnaval, pifeiros e percussionistas como Robertinho Silva e Odette Ernest Dias, explodindo no espírito carioca pelas ruas e pelo mar adentro.”

 

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