missa_dos_quilombos

Após os protestos, reze a “Missa dos Quilombos”

“Em nome do Pai, que fez toda carne, a preta e a branca, vermelhas no sangue”

O seu protesto foi no dia 13 ou 15 de março? Em ambos os protestos a tônica majoritária foi o de gritar contra a corrupção, obviamente excluindo desse ponto principal as vozes de minorias – cada vez maiores – que defendem a volta da Ditadura de Direita no Brasil (1964-1985), seja porque quer uma intervenção militar por não aceitar a decisão da maioria que elegeu Dilma Rousseff, seja porque desconhecem o poder transformador de educadores como Paulo Freire e de músicos como Chico Buarque.

O ódio que toma conta dos corações dos chamados pejorativamente de “coxinhas” versus os “petralhas” envenena o País e prejudica a busca de consensos para que os movimentos populares possam exercer pressão sobre os poderes constituídos. É com pressão popular, com pautas definidas, que se consegue levar o Congresso a realizar mudanças necessárias. Não é o ódio que vai construir uma alternativa à crise, o ódio nos aniquilará por completo, levando-nos muito próximos à situação retratada pelo chargista Chico Caruso, que provocou polêmica no Dia Internacional da Mulher com a imagem de Dilma prestes a ser decapitada por um carrasco do Estado Islâmico.

Esse carrasco da charge de Caruso simboliza, na verdade, o reflexo do fundamentalismo político e religioso que ganha cada vez mais destaque no País e é uma ameaça à democracia. Seu pulso já pode ser tomado no dia 15 de março. Quem segura essa faca da charge é a mesma mão que carrega cartazes defendendo um golpe militar; quem cobre o rosto e o corpo de preto como um carrasco do Estado Islâmico é o mesmo que faz parte de um movimento que defende um Brasil livre, mas que é a favor da censura à imprensa e apregoa um livre mercado tão ingênuo que beira o charlatanismo; quem leva essa faca diretamente ao pescoço da democracia são os fieis de numerosas igrejas evangélicas, que elegem senadores e deputados que querem aplicar uma leitura deturpada da fé como lei.

O protesto contra a corrupção é válido e necessário, mas a população participa como sempre como massa de manobra, ora de partidos e sindicatos, ora de movimentos “libertários” obscuros. Muitos motivados pelo ódio, pela incapacidade de perceber que o governo do PT, de Lula a Dilma, conseguiu reduzir as desigualdades sociais e lutou com todas as armas contra a maior crise econômica que o planeta já passou. Obviamente, esse direcionamento político exitoso não exime o partido da culpa de ter agido da mesma forma como faz 98% dos partidos políticos, especialmente o PSDB, um partido blindado pelos meios de comunicação.

Independentemente de o seu protesto ter sido feito no dia 13 ou no dia 15, é preciso recorrer à arte para fazer uma reflexão importante sobre o que é realmente a liberdade. E, mesmo que um artista não tenha expressado sua opinião a respeito deste ou daquele movimento social, é possível encontrar em sua obra muita inspiração para futuros protestos, sonhando inclusive que os manifestantes dos protestos dos dias 13 e 15 se unam num único e organizado movimento capaz de realizar mudanças profundas na sociedade brasileira. E essa inspiração é possível encontrar em “Missa dos Quilombos”, uma obra de puro sincretismo religioso que a princípio defende o negro, vítima da maior violência que o mundo já presenciou. Mas, ao mesmo tempo, essa obra magnífica defende a liberdade de todo e qualquer homem, dos escravos de todo o mundo.

Somos até hoje uma coisa senão escravos. Escravos de nosso ego; das convenções sociais; escravos em nosso emprego; escravos da indústria de armas, da violência e da repressão do Estado. Milton Nascimento não deu sequer um “ai” sobre a situação política do País, mas ele, Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra fizeram em 1982 esse disco que é o maior manifesto político que se pode fazer em vida em nome da liberdade e da justiça social. Você pode encontrar o disco num desses aplicativos de música, ou alguns trechos nas redes sociais. Se seu coração não estiver empedrado por inteiro, por ter sido chamado de “coxinha” ou “petralha”, faça as reflexões que esse disco sugere.

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