Marcus Almeida1

Jazz após as crianças dormirem

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

Foto de Julio Acevedo

Muitos músicos de jazz que tocavam em orquestras em bailes restritos dos brancos nos Estados Unidos, saíam do trabalho para tocar em casas noturnas o que ficou conhecido como Jam (Jazz After Midnight). Com o passar do tempo, a Jam ficou popularizada, ampliando seu significado para momentos de improvisação artística livre. Mas para uma série de músicos, que por vários motivos só tocam em bares quando convém, fazer um som em casa após a esposa e as crianças dormirem já é suficiente para manter o espírito criativo da arte. O compositor e guitarrista Marcus Almeida é um exemplo disso.

Ao dedilhar tanto em seus estudos canções nesse momento íntimo da noite em sua casa, ele fez arranjos para canções conhecidas e novas composições, muitas em homenagem à família e ao sussurrar da madrugada, que foram gravadas no CD independente “nicwenra”, lançado em 2013 e distribuído pela Tratore. O trabalho traz uma arte de capa muito bonita feita pelo grafiteiro Marcelo Zuffo. O nome do CD se refere a uma valsa autoral que está entre as 12 faixas do trabalho, numa junção de letras dos nomes de seus três filhos: Dominic, Wendy e Ramon.

A ideia inicial era gravar o disco com a participação de outros músicos, mas a agenda não batia. Então, Almeida resolveu gravar um disco solo, que ficou tão primoroso que dá a sensação de ouvir os outros instrumentistas tocando junto com o guitarrista nos silêncios entre as melodias. “Não estava conseguindo agendar estúdio. E fiz solo porque tem a cara do que eu toco quando as crianças dormem”, explica o músico, também professor de violão em um colégio tradicional de São Paulo. “O mais legal do CD foi o contato com as pessoas que me envolvi, como o Marcel Nadal, o Gustavo Rennó, o  Alexandre Piccini e grafiteiro.” Nadal e Rennó são amigos de Almeida e integra a Guandama Produções Artísticas, responsável pela produção executiva do trabalho e que já lançou CD da Soundscape Big Band. E Piccini fez a gravação e a mixagem. “São pessoas que se envolveram com o trabalho e se dedicaram mais do que precisaria.”

O disco abre com “Lady Bossa”, uma bossa composta em homenagem à esposa de Almeida. Entre as faixas do disco estão composições consagradas como “Marina” (Dorival Caymmi), “Triste” (Tom Jobim), “Inspiração” (Garoto) e “Stella By Starlight” (Young/Washington). E outras composições próprias como a já comentada “Nicwenra” e “SP; 3:09am”, que nasceu na madrugada a partir de um estudo de harmonia em que o compositor faz uma homenagem à madrugada. “Acabei compondo músicas que tem um significado pra mim. E todas as músicas têm muita a minha cara. Eu prefiro tocar com alguém. Mas o que eu gosto de tocar sozinho é dessa maneira, mais à vontade. Tenho liberdade de alterar o ritmo e não vou atrapalhar ninguém, porque eu mudo a forma. Na gravação não aconteceu, mas quando toco sozinho eu erro e não paro, porque a música pode me levar para o outro lado. Tocar sozinho a gente se expõe demais, mas forma uma situação única. Mas prefiro tocar com alguém.”

“O que motiva o músico (de jazz) não é o dinheiro. Mas o que motiva alguém abrir um bar de jazz também não é dinheiro, porque o pagode daria mais”

Ele conta que não nasceu em uma família de músicos, apesar de o avô ter um violão. Ele, porém, nunca viu o avô tocando, mas seu primeiro instrumento foi esse mesmo violão. Aos 11 anos, começou a estudar o instrumento e a integrar bandas de rock, tocando em alguns bares de São Paulo. O jazz surgiu em sua vida apenas quando começou cursar música na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), aos 18 anos. Formou-se em 1994 e voltou para São Paulo, tocando em bares, shoppings e acompanhando cantores de MPB. Montou o Marcus Almeida Trio, que em alguns momentos chegou a virar quarteto.

Em 2006, quando iniciou mestrado em música na Unicamp, seu filho apresentou sérios problemas de saúde, o que tornava muito difícil a vida de apresentações noturnas. “Com os problemas de saúde do meu filho, trabalhar na noite era muito difícil. Fui acompanhar uma cantora em Campos de Jordão, num evento da TIM, e eu lembro que ele ficou com febre e gastei todo o meu cachê com ligação pelo celular, porque não sabia como ele estava. Eu me afastei da noite”, explica o músico, que concentrou sua atenção em aulas particulares de música e em seu mestrado, no qual estudou a técnica excepcional do toque de violão de João Bosco.

Agora, está no meio de uma intensa pesquisa para o seu doutorado, a respeito dos valores relacionados à vida do músico que toca na noite, e dos donos dos estabelecimentos de jazz. “O que motiva o músico (de jazz) não é o dinheiro. Mas o que motiva alguém abrir um bar de jazz também não é dinheiro, porque o pagode daria mais. Há outros valores envolvidos nessas relações. É um mercado, mas tem situações onde músicos bons tocam de graça. E onde o dono do bar não ganha nada. O que é nítido é que os músicos não dependem desse dinheiro, é uma parte de sua renda, mas é muito pouco.”

“Depois de lançar o disco, tenho tocado pouco, porque fiquei muito tempo afastado. A gente não ganha dinheiro tocando na noite, e esse é meu trabalho de doutorado. As pessoas ganham, mas não é o que sustentam os músicos de jazz. Se você imaginar que o músico se dedica, a universidade o prepara para tocar jazz e improvisar, e na verdade ele não vai tirar seu sustento desse trabalho, o meu trabalho é dar aula. Eu adoro dar aula. Tirando o lado pessoal, meu lado musical tem três caminhos que se cruzam, o de pesquisador, instrumentista e educador. Esse lado instrumentista ficou mais abandonado, porque era o lado que exigia mais tempo e dava menos retorno. A pesquisa me toma muito tempo, mas hoje como bolsista eu tenho renda. E professor também me dá. A pesquisa me toma tempo, mas tem renda”, explica ele, que ficará um tempo na Irlanda do Norte neste ano como parte do estágio de seu doutorado, com bolsa da Unicamp/Capes.

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