A guerra ao vício vale uma vida?

O pai me pegou pelas mãos, e chorando me levou até a pequena sala, onde estava sendo velado o corpo do filho. “Venha ver o que fizeram com meu filho…” Afastou os parentes, num clima pesado, de profunda tristeza. Ele abriu a tampa do caixão para me mostrar, um a um, os buracos abertos pelos tiros que atingiram o adolescente. Era um daqueles tristes domingos de 1998, num bairro da periferia da cinzenta São José dos Campos. O rosto pálido era de uma criança, e com a imagem da violência e da tristeza profunda do pai, que repetia todo momento, entre soluços, “o que fizeram com você?”, fiquei completamente atordoado. O Boletim de Ocorrência citava suspeita de crime relacionado ao tráfico de drogas. É bem provável que ninguém saiba até hoje quem cometeu esse crime, se policiais ou traficantes. O pai não sabia de nada, mas confirmou que o filho fumava maconha. Independentemente das circunstâncias, o crime estava relacionado às drogas.

A lembrança desse garoto se soma a várias outras notícias de mortes relacionadas ao combate ao narcotráfico ou às disputadas relacionadas às drogas, especialmente crueis quando são as vítimas crianças e adolescentes. E não há como não associar esta morte ao assassinato de Eduardo de Jesus Ferreira, de dez anos, durante operação desastrosa da polícia no complexo de favelas no morro do Alemão no início de abril de 2015. Em circunstâncias diferentes, ambas as crianças foram vítimas de uma violência brutal gerada por uma proibição de venda e consumo de entorpecentes que jamais será possível de ser cumprida. E, em ambos os casos, a imprensa faz uma cobertura rasteira de um dos problemas mais sérios de um país que, teoricamente, vive em tempos de paz.

No caso do menino de São José dos Campos, o caso ganhou no jargão da Folha de S.Paulo um “Módulo 200”, código que à época era usado para desenhar na página do jornal uma matéria em duas colunas. Um garoto pobre, da periferia, região onde casos como esse acontecem a todo momento, deixam de ser notícia. E, no caso de Eduardo, a imprensa faz reportagem especial para mostrar a falta de estrutura da polícia nas UPPs e cobram do governador Luiz Fernando Pezão maior investimento do Estado na segurança pública. Mal a criança foi enterrada no Piauí, Pezão teve a coragem de dizer em rede nacional de televisão que com R$ 70 milhões é possível resolver a situação da falta de estrutura da polícia do Rio. Não há dinheiro no mundo capaz de impedir o fim da guerra às drogas senão regular a venda de todo e qualquer tipo de entorpecente hoje proibido.

Não é cabível que, para evitar que uma pessoa morra de overdose de cocaína ou vire um zumbi do crack, crianças, adolescentes, inocentes, culpados do lado da política, polícia ou do tráfico sejam mortos por toda a violência que a proibição produz na sociedade. É mais racional estimular nas crianças e nos adolescentes o conhecimento sofre os efeitos adversos das drogas, incluindo o tabaco e o álcool. É preciso estimular esse debate nas famílias, na igreja, nas escolas, nos meios de comunicação.

Mas proibir o consumo é estimular o tráfico, cuja renda financia a compra de armas e o financiamento ilegal de muitas campanhas eleitorais. Quando um político usa do argumento da fé, moral, bons costumes e defesa da família para defender a guerra às drogas, pense que na verdade ele pode estar é preocupado em como conseguirá dinheiro para suas campanhas eleitorais.

Não é possível imaginar que pessoas estão morrendo e que mais e mais recursos estão sendo destinados à repressão para elevar ainda mais a tensão em áreas extremamente pobres do país, as que mais sofrem. Não é possível que apenas crianças com doenças raras sejam beneficiadas pela livre utilização de substâncias derivadas da maconha, por exemplo, em seus tratamentos, enquanto que a guerra às drogas ou a guerra entre facções do tráfico exterminam a juventude de uma forma muito, mas muito mais avassaladora que a própria droga.

Agora, com a morte de Eduardo, onde está a imprensa que fomentou a liberação do canabidiol ao fazer reportagens muito importantes sobre como a desinformação e o preconceito podem ser prejudiciais a muitas crianças doentes? Fazer agora o mea culpa da polícia, que tem a função ingrata de combater o que é impossível de ser combatido, é suficiente para amenizar a tragédia gigantesca que se desenha não só no Rio, mas nas periferias de todas as cidades brasileiras?

Se o sujeito quer cheirar cocaína, não seria muito mais fácil comprar na farmácia, pedindo inclusive nota fiscal? Se ele quer fumar maconha, não seria muito mais civilizado permitir que ele cultive a planta em casa? Não seria melhor que pessoas que têm dívidas relacionadas às drogas entrem no Sistema de Proteção ao Crédito ao invés de serem mortas? Que viciados em crack recebam a droga e o tratamento do Estado ao invés de roubarem para saciar o vazio do seu vício?

O combate às drogas da forma como está sendo feito é insano e é preciso que políticos, empresários e líderes religiosos acreditem que a educação e o investimento em saúde são as melhores e mais sensatas saídas para acabar com esse verdadeiro genocídio químico, incluindo nele a morte de seres humanos que socialmente se definiram enquanto traficantes ou policiais.

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