Um cadáver ouve rádio - Marcos Rey

Artistas tentam salvar um dos últimos espaços do exercício do pluralismo no rádio

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

Imagem de Jayme Leão (ilustração) e Ary Almeida Normanha (layout) da capa do livro “Um cadáver ouve rádio”, de Marcos Rey, pela editora Ática

A discrepância entre o que se é produzido de música no Brasil e o que veiculado pelos meios de comunicação é tamanha, que um grupo de 156 instrumentistas, cantores, produtores culturais e jornalistas se viu obrigado a lutar pela manutenção da qualidade de uma rádio AM. O Movimento Somos Rádio encaminhou há 15 dias uma carta ao Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta exigindo que a entidade reveja a demissão de dois locutores da Rádio Cultura AM, o que prejudicou programas da emissora que realizavam programas ao vivo com músicos. Apesar da péssima qualidade do AM e dos problemas técnicos, os artistas argumentam que a rádio havia ampliado sua área de atuação com a transmissão de sua programação por meio da internet.

“Programas de entrevistas com músicos e  personalidades culturais foram tirados do ar e a programação  musical propriamente dita passou a ser transmitida sem  locução e,  portanto, sem informar ao ouvinte sobre aquilo que ele está escutando”, explicam os artistas na carta, endereçada diretamente ao presidente do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta, Belisário dos Santos Jr. “Os cortes ora em curso, justificados como contingência de ordem econômica, resultaram na demissão de um locutor do horário noturno e de um outro  que cobria folgas. Não nos parece que tão pouca economia justifique um prejuízo tão grande para os ouvintes e para a música brasileira.”

Os locutores em questão são Laura Mayumi e Roberto Hais que, procurados, não deram resposta sobre pedido de entrevistas. Procurada no dia 9 de abril, a assessoria de imprensa da Fundação Padre Anchieta não respondeu aos questionamentos da reportagem e não confirmou se Santos Jr. recebeu a carta até a divulgação deste texto, embora informalmente a informação é que o conselho todo já tem ciência sobre o protesto do Somos Rádio.

“Tradicionalmente voltada à música brasileira, a Cultura AM sempre caracterizou-se por transmitir o que de melhor se produz no Brasil, sempre voltada à qualidade e sem discriminar gêneros  ou  épocas.  De Noel Rosa a Criolo, a bússola da Rádio sempre orientou-se para a diversidade aliada à qualidade, para ser, também, o espaço de artistas sem acesso à chamada  ‘grande mídia’, alijados pela perversidade e ignorância da lei de mercado”, continua a carta do Movimento.

“Nos anos de 1990, diversas séries abordando a obra de nossos principais atores musicais foram transmitidas pela Cultura AM, como ‘Noel  Rosa, as Histórias e os Sons de uma Época” (34 programas), ‘Vinícius – Poesia, Música e Paixão” (32 programas), ‘Elis, Instrumento: Voz. Uma Travessia  em 6 Tempos’  (6 programas) e ‘Caymmi por Ele  Mesmo’ (8 programas comemorativos dos 80 anos do compositor, com o próprio como narrador). Em anos recentes, programas como o Cultura Livre e o Radar Cultura – o primeiro agora saindo do ar ao vivo e o segundo, definitivamente – pautaram-se na qualidade e na  divulgação de trabalhos inovadores da música brasileira.”

Batata frita e televisão – O músico Benjamim Taubkin, que assina o protesto do Somos Rádio, faz uma reflexão muito importante sobre o papel da rádio na formação de público. Para ele, o músico, assim como o professor, não está preocupado apenas com o emprego, mas com a formação do indivíduo. “É um espaço de trabalho, mas também de formação para as pessoas. O professor não está preocupado só com o emprego, mas com formação de alunos. Que país é esse, que se pensa em batata frita e dançar na frente da televisão? Isso é muito pobre”, conclui ele, argumentando que “a arte e a cultura não é perfumaria, é o eixo da vida.”

“Querem justificar tudo pela economia, e a vida fica muito mais pobre, muito ignorante. Você precisa de outras áreas do conhecimento humano como ciência, arte, filosofia, paisagem, natureza, espiritualidade. Precisa disso para dar sentido à vida, porque senão a vida fica muito pobre e burra.”

Ele também questiona que tipo de economia que estaria fazendo a Fundação Padre Anchieta demitindo duas pessoas. “Parece (decisão) econômica, mas é de esvaziar um modelo que é vivo. Não demitiram tanto assim para justificar a mudança. Esvazia a rádio. Todos os programas com entrevistas acabaram. Vira um vitrolão. Sem os programas de entrevista, a AM vira uma FM antiga.” Segundo ele, a deterioração do rádio no Brasil foi tamanha nos últimos anos, que a “diversidade que existia foi para o saco”. “Há anos tem a compra do espaço na rádio. Antes, você tinha em média 500músicas, hoje são no máximo 80, não tem diversidade, não tem rádio feita co paixão. Você tem a compra de espaço, virou uma vitrine comprada e não reflete a produção brasileira”, afirmou.

“Quando eu era moleque eu ficava acordado esperando tocar a música que eu gosto, hoje em dia ela virou esse negócio de venda de espaço. A rádio púbica passou ser o único espaço que refletem essa diversidade”, afirma ele, para quem nem Milton Nascimento nem Chico Buarque têm espaço na rádio de hoje, fazendo com que toda uma geração nova fique até mesmo sem saber quem são esses artistas. “Eu ouvi uma conversa assim…  Chico? Quem é? São coisas impensáveis. É um erro isso não ser visto como uma questão de importância nacional, porque faz parte da formação do povo. Tem que tocar tudo, não só axé e sertanejo, até música contemporânea eletrônica. Tem que ter espaço para tudo. E as rádios públicas sempre foram os parques ecológicos da cultura, as reservas ambientais da música. Vivemos uma situação limite há muito tempo.”

Ele explica que, um dos motivos desse protesto é também decorrente desse momento complexo no qual a sociedade brasileira atingiu um limite do que é aceitável. “Estamos vivendo um limite, temos ouvido cada barbárie por aí. As pessoas de visão estreita têm se manifestado sobre gênero, raça, crenças… E chega uma hora, a gente vê que está demais.”

Hipertexto nas ondas do FM – Dancing to the end of Love, em vão! Até descobrir que era a maneira de jogar, continuei te amando e tentei acreditar. Quando um certo alguém, desperta o sentimento: AA UU. Estou ficando louco de tanto escutar! Faz de conta que ainda é cedo. Esses loucos de movimento social que tiram sarro de cristão, mete a vaia nesses vagabundos!

O pessoal pode mandar mensagem, são 31 mil durante a madrugada. Amor I love you in the air tonight. Rather be! Que Deus te abençõe! Muita gente testificando que Jesus não mudou, ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente. As metades da laranja, dois amantes, dois irmãos.

Fizeram um trabalho com boneco preto, que tem cinco alfinetes no pescoço e dois na cabeça. Preste atenção! Ele foi jogado no quintal da sua casa, fizeram uma magia, uma bruxaria forte, por isso que os espíritos imundos vivem cirandando na sua casa! Eu vou dizer o nome da pessoa que fez isso, venha de Santos e a gente vai combater esse mal.

Legal assistir ao Rock in Rio, mas prepare o visto porque você vai precisar em Las Vegas! Se é você já perto, se é intuição. Prá onde quer que eu vá, levo você no olhar. Prá onde quer que eu vá. I wish that I could be like the cool kids. Like the cool kids.

You’ve got that smile, that only heaven can make. Na terapia do amor você vai aprender sobre as coisas ou pessoas que tenham distanciado você do amor. Partia, comprava a flor mais bonita pra te agradar. Botava 15 de crédito e ligava o celular. Cê’ já tinha vindo do trampo e tava fazendo o jantar. Chet Baker.

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