Gian Mellone

Experiência cênica se une à gastronomia

“Cozinhar é o mais privado e arriscado ato.

No alimento se coloca ternura ou ódio.

Na panela se verte tempero ou veneno.

Cozinhar não é serviço.

Cozinhar é um modo de amar os outros.”

Mia Couto

 Nany Gottardi, São Paulo, nanygott@gmail.com; Foto de Gian Mellone

A sexta edição do encontro gastronômico cênico ‘A Tradicional Galinhada do Male Capoeira’, acontece no dia 23 de maio, a partir das 16h, no Espaço de Lazer e Cultura Jardim Mont Kemel. Dessa vez, a proposta é que a experiência do público seja ainda mais intensa, já que os presentes poderão assistir o ritual cênico de preparação e degustação do prato integrado com as linguagens artísticas – capoeira, teatro e dança. O público será convidado a ser protagonista da experiência cênico-sinestésica.

O grupo Male Capoeira é um centro de pesquisa e difusão das artes do corpo. O ponto de partida da sua pesquisa é a Capoeira, cujo jogo é hoje o eixo centralizador da prática por milhares de pessoas no Brasil e fora dele. Por sua vez, a perspectiva do grupo é criar novos diálogos a partir da fusão de diferentes linguagens artísticas, mantendo não somente as práticas tradicionais, mas também a garantia da investigação de novas possibilidades para esse fazer. Gerando, dessa forma, processos criativos capazes de alimentar a busca do Male Capoeira pela corporeidade brasileira e sua ponte com a universalidade.

A roda de Capoeira sempre foi o eixo artístico central do encontro no entanto, há muito tempo, era pretensão de seus idealizadores ampliar esse olhar trazendo a dança e o teatro como linguagens parceiras. A empreitada tornou-se possível com a contemplação do projeto no PROAC – Concurso de Apoio a Projetos Especiais – Moda, Gastronomia, Artesanato e Cultura Digital – no Estado de São Paulo. A atriz, dançarina e arte-educadora Rosana Pimenta e o contramestre de capoeira Kizumba promovem o encontro desde 2004, que reúne cerca de 300 pessoas a cada edição.

“Ao entardecer o ritual cênico terá início. Com a roda de capoeira formada e os convidados brincando, o tacho e outros utensílios já estarão colocados no espaço. Então, a roda será subitamente interrompida para que os ingredientes principais para a preparação do prato sejam levados um a um em gamelas e alguidares, ao som de tambores e luz de velas. Enquanto a fruição cênica acontecer a cocção do prato será realizada. Capoeira, música, dança e culinária provocando estímulos e memórias afetivas, familiares e culturais. Uma volta ao ato de compartilhar: compartilhar a cultura, a comida, as histórias, os movimentos, os cheiros e sabores.  Nossa pretensão têm sido, ao longo dos anos, propiciar uma experiência em que todos os sentidos sejam aguçado”, explica Rosana Pimenta.

“Retomar tradições numa cidade como São Paulo é um grande desafio. Todavia nossas memórias ancestrais e afetivas nos acompanham no processo migratório. Estabelecemos como paradigma o ritmo acelerado de trabalho, quase imposto pela metrópole, mas pulsa, ainda que timidamente, um desejo de retorno aos grandes encontros familiares sempre em torno de boa comida e boas risadas. Preparar a própria comida muitas vezes é quase um luxo em um mundo contemporâneo de refeições industriais, sem valores nutricionais, mas essencialmente sem valores afetivos. E foi nessa perspectiva de retomar a tradição interiorana, de preparar um prato tipicamente brasileiro e oferecê-lo aos amigos que nasceu “A tradicional Galinha do grupo Male Capoeira”, complementa Kizumba

Porque a Galinhada – Inicialmente havia a expectativa de que todos pudessem comer juntos, partilhar a comida e para isso a praticidade foi um ponto de reflexão importante, precisaria ser algo fácil para servir e também para comer, mas que fosse substancial, ou seja, que alimentasse de fato. O segundo motivo foi afetivo. Qual prato era rapidamente preparado por mães e avós e que era deliciosos? O terceiro proveniente de tradições afro-brasileiras em que a comida é um alimento que nutre o corpo, mas também a alma, reconectando a sacralidade do ato de cozinhar, servir e comer.

A partir desta tríade de premissas, porém essencialmente a partir da memória afetiva a Galinhada foi escolhida. No prato, as lembranças de infância de Kizumba e Rosana se encontraram, a partir de experiências vivenciadas entre Minas Gerais e São Paulo. O prato é tipicamente brasileiro e amplamente difundido entre as regiões do país. Para cada região uma forma particular de preparar, com alteração de temperos, um ou outro ingrediente, no entanto preservando a dupla: arroz & galinha ou o frango para os moradores de regiões urbanas.

Breve histórico – Em 2004 aconteceu, na Casa de Cultura do Butantã, a primeira “aventura gastronômica cultural” idealizada por Rosana Pimenta e Kizumba. O encontro reuniu manifestações culturais tradicionais como Ciranda, Maracatu, Jongo e muita Capoeira. Ao final uma galinhada foi servida como forma de celebração coletiva.

Como o encontro sempre foi feito com recursos próprios, houve um intervalo de cinco anos até que acontecesse a próxima edição. Em 2010, foi realizada a segunda edição, no Espaço Cultural Caldeirão. Em 2011 o encontro começou a tomar proporções um pouco maiores;  Kizumba faria sua formatura para receber a graduação de Contramestre e decidiu que isso se daria na Galinhada. Como o encontro reuniria muitas pessoas pois, além da formatura seria também realizado o batizado de vários alunos e troca de graduações, o encontro foi realizado no CEU Jaguaré. Em 2012 a festa aconteceu no Espaço Cultural Encena e, a partir de 2013 o encontro adotou o Espaço de Cultura e Lazer Jardim Mont Kemel como sede.

 Idealizadores

Kizumba – Contramestre de Capoeira, arte-educador, preparador de ator

Tendo como ponto de partida a capoeira, Kizumba trabalha a manifestação cultural tradicional em diálogo com a música, a dança e o teatro. Entrou contato com a capoeira ainda menino em Minas Gerais e nos anos 90, já em São Paulo, mergulhou profundamente nessa arte por meio do Mestre Pequeno, discípulo de Mestre Meinha, capoeirista renomado fundador e presidente do grupo de capoeira Cruzeiro do Sul. Em 2007, Kizumba fundou o grupo Male Capoeira.

A relação de Kizumba com o universo gastronômico se deu de modo empírico.  Nascido no sul de Minas Gerais, sempre teve a casa cheia. Familiares e amigos, sempre em grande número, foram presença constante na mesa da família. “A preparação dos pratos era um capítulo especial e foi nesses momentos em que fui aprendendo a arte de fazer e servir uma boa comida, especialmente a Galinhada, prato muito apreciado, servido com tutu de feijão e torresmo “, conta Kizumba.

Pautado por essas recordações e por seu fazer profissional, criou em 2004 – em parceria com Rosana Pimenta – a Galinhada do Kizumba, hoje denominada “A Tradicional Galinhada do Male Capoeira”Atualmente trabalha como arte-educador na Fábrica de Cultura do Capão Redondo. É também preparador corporal de atores do Núcleo Bendita Água de Pesquisas Cênicas e cursa a graduação de Pedagogia na Universidade Unisa.

Rosana Pimenta – atriz, dançarina, arte-educadora. O início de seus estudos aconteceu por meio da Capoeira, que até hoje alimenta e sustenta sua busca pela arte e cultura tradicional. No teatro, sua iniciação aconteceu no Teatro Ventoforte, dirigido por Ilo Krugli. Rosana foi também atriz e produtora do Grupo Caldeirão, de 2008 a 2011. Em 2006, teve seu primeiro contato com as Danças Clássicas Indianas – nelas enxergou a possibilidade de estruturação de seu trabalho com dança-teatro. Entre dezembro de 2011 e fevereiro de 2012, foi para Chennai, Índia, a fim de aprimorar seu aprendizado de Bharatanatyam, na Escola Triveni de Danças Clássicas Indianas. Ainda em Chennai, realizou uma série de workshops de Capoeira e Danças Brasileiras. Atualmente, além de continuar dedicando-se à arte-educação, faz parte do grupo Male Capoeira; trabalha no Bendita Água de Pesquisa Cênica – um coletivo de artistas que pretende, a partir do estudos das tradições, resignificar matérias primas de matrizes populares e cursa a graduação em Arte-Teatro no Instituto de Artes da UNESP.

 

A Tradicional Galinhada do Male Capoeira

Data: 23 de maio, sábado, às 16h,
Local: Espaço de Lazer e Cultura Jardim Mont Kemel : Rua Dias Vieira, 800
Grátis

Site www.malecapoeira.com.br

Classificação indicativa: Livre

Capacidade: 300 pessoas

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