Adylson Godoy foto de Claudia Souza

Pergunte a um poeta, mas nunca a um ditador

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br ; Foto de Claudia Souza

O destino entrelaça caminhos de forma inacreditável, colocando muitas vezes opressores e oprimidos lado a lado. Foi o que aconteceu com o pianista e compositor Adylson Godoy em 1980, quando se apresentou na casa do ditador João Baptista Figueiredo, o último dos “presidentes” da Ditadura Militar (1964-1985). Adylson, que completa em 2015 seus 50 anos de carreira, foi censurado pela Ditadura, proibido de gravar “Heroica” e “O General e o muro”. Mas também fez trincheira de resistência e defendeu o pagamento de direitos autorais de artistas exilados, como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Com a música “Heroica”, apresentada pelo Zimbo Trio e a cantora Sílvia Maria, com arranjo de Cyro Pereira, Adylson conquistou o primeiro prêmio no Festival Internacional de Música da Venezuela (Onda Nueva), em 1972, concorrendo com compositores como Astor Piazzolla e Dave Grussin.

“Eu perguntei a ele (Figueiredo) se o Brasil tinha jeito. E ele, com um copo de uísque na mão, me disse: ‘você já viu cobertor curto?’ Eu tenho testemunha disso, que presenciou”, lembra Adylson, que 35 anos depois da resposta, chega a usar a mesma metáfora para se referir ao Brasil de hoje. “O nosso Congresso é corrupto, nunca vi tanta podridão nessa atual conjuntura, independente de partido. A mentalidade de político que assume é pensar em arrumar a vida em quatro anos de mandato, desde que o dinheiro entre no bolso”, protesta. Para ele, o “panelaço” feito contra o PT é uma “manifestação de profundo descontentamento com a conjuntura política”.

Ele não isenta outros partidos, incluindo o PSDB, embora os deslizes destes não tenham na sociedade a mesma trilha sonora. E por falar em som, ele afirma com todas as letras que “os produtores das gravadoras receberam orientação das matrizes no exterior para gravar só lixo”. “O Brasil tem 75% de pessoas que compram lixo cultural, e o resultado é o que você vê na televisão”, afirma o músico, que se firmou na carreira com as gravações de “Zimbo Samba”, no primeiro álbum do Zimbo Trio em 1965, e “Sou sem paz”, gravada por Elis Regina, em 1966.

Adylson Godoy e Milton Nascimento

Adylson Godoy e Milton Nascimento

Como diretor musical de programas de televisão, acompanhou a batalha de artistas jovens como Milton Nascimento, Edu Lobo, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Betânia e Gal Costa. Adylson tem mais de 150 músicas gravadas, por nomes como Elizete Cardoso, Taiguara, Alaíde Costa, Walter Wanderley, Agnaldo Rayol e Clara Nunes.

Nascido em uma família de músicos em Bauru, ele recebeu influências do avô materno, que imigrou da Síria para o interior do Estado em 1905 e tocava alaúde; do avô paterno, que era violeiro, tem as memórias das composições de música de raiz; do pai trompetista, o jazz que gostava de mostrar aos filhos em vários discos; da mãe, que era regente de coral e pianista; e de um tio, João Godoy, que tocava trompete e ensinou Adylson harmonia. O DNA da música se espalhou também em seus irmãos Amilton e Amilson – o primeiro integrante do Zimbo Trio – e chegou até a filha Adriana, instrumentista e cantora. A família também planta música boa na mente de muita gente por meio do Centro Livre de Aprendizagem Musical (Clam).

Além de músico, é também advogado, e foi um dos fundadores do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad). Foi ainda presidente da Sociedade Independente de Compositores e Autores Musicais (Sicam), presidente da Associação de Intérpretes e Músicos (Assim), fundada por Elis Regina, Théo Barros e Amilson Godoy, com a finalidade e a preocupação de lutar pelo aperfeiçoamento do processo de arrecadação e distribuição dos direitos de autor e, agora, faz parte da União Paulista dos Artistas Seniores (UPARS), que busca valorizar o trabalho desses artistas, com projetos de arrecadação de recursos aprovados e já em busca de patrocínio para realização de shows. E, ao mesmo tempo, leciona e se apresenta pelo País. Tudo isso, para chegar agora, completando 50 anos de carreira, e achar que Figueiredo estava certo? Em sua história, seu único deslize talvez seja o de ter perguntado a um ditador sobre o futuro de um País que apenas um poeta poderia responder.

ADYLSON GODOY: 50 anos de carreira

Convidados especiais

Amilton Godoy, piano

Amilson Godoy, regência e piano

Adriana Godoy, canto

Músicos

ADYLSON GODOY, piano e canto

&

CAMERATA ERUDSOM

Ângela Coltri, flauta

Gustavo Bonin, clarinete

Patricia de Araújo Borges, fagote

André Massuia, oboé

Eder Tavares, trompa

Bruno Belasco, trompete

Gerson Galante, saxofone

Renato Farias, trombone

Felipe Furnari, contrabaixo acústico e violão

&

Marcelo Rocha, contrabaixo

Ricardo Berti, bateria

André Kurchal, percussão

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