Alexandre Alcântara e François de Lima trombonista da Banda Mantiqueira

Dentista se especializa em tratar músicos de instrumentos de sopro

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br; legenda da foto: François de Lima, trombonista da Banda Mantiqueira (esquerda), ao lado de Alexandre de Alcântara.

A música pode até surgir no cérebro, a partir de uma inspiração, mas para se materializar em som é preciso bem mais que estudo e o domínio de um instrumento: o corpo tem papel fundamental nesse processo. Além de técnicas de respiração, o uso de toda a boca é determinante no caso de músicos que se expressam por meio de instrumentos de sopro, como saxofone, trompete, trombone, flauta, tuba, entre outros. A conexão   exata do corpo do músico com o instrumento de sopro se dá pela chamada “embocadura”, que por meio de uma conjunção de fatores envolvendo os dentes, lábios e a língua, permite a passagem exata de ar pelo instrumento para que ele possa emitir as ondas sonoras das notas musicais.

O assunto, que na área médica pode envolver inúmeros especialistas, chamou a atenção do dentista Alexandre de Alcântara, em 1995. Nascido em uma tradicional família de instrumentistas, Alexandre percebeu à época que não havia na odontologia um especialista nessa área. Hoje, em seu consultório, além da broca, é possível também encontrar até mesmo instrumentos musicais, como se fosse um estúdio de música.

“É importante ter alguns instrumentos no consultório, para que o músico que vem de outros Estados e cidades mostrarem suas queixas e, também, para que possamos avaliar melhor a relação entre o ato de tocar e as estruturas bucais”, diz o dentista. Outra curiosidade relativa ao tratamento de pacientes músicos é que a estética, muitas vezes, fica em segundo plano. “Os músicos dizem que não querem saber de dente bonito, o que eles querem é poder tocar. Os meus pacientes podem muitas vezes não ter o dente branquinho, mas você vai vê-lo tocando feliz.”

Nos últimos 20 anos, Alexandre já escreveu dois livros – “Saúde para Músico” e “Odontologia para Músicos de Sopro” – e se transformou na principal referência da área no Brasil, tratando de clientes de várias partes do País que atuam em importantes bandas e orquestras. Desde 2011, Alexandre também participa de uma equipe multidisciplinar de especialistas médicos preocupados com a saúde de artistas de vários segmentos, não apenas músicos.

Alexandre de Alcântara com o trombonista Bill

Alexandre com o trombonista Bil, que fez parte da Orquestra de Clovis Elly, na década de 1950, e da Orquestra de Georges Henry, na TV Tupi, e Orquestra de Osmar Milani, na década de 1960. “Maestro nenhum abria mão de Bil. Aos 35 anos, é um músico pronto, seguro. Ex-sapateiro, nasceu em Macaparana, na Zona da Mata pernambucana, e ainda na infância começou a tocar trompa e bombardino”, escreve Fernando Lichti Barros, em seu livro recém lançado “Do Calypso ao Cha-cha-chá – Músicos em São Paulo na década de 60, editora Nova Ilusão, na página 21. E continua o autor: “Quando chegou (Bil) a São Paulo, em 1954, para se juntar à orquestra Clovis Elly no palco giratório do Clube OK, um dancing da Rua Conselheiro Nébias, ele já havia percorrido uma estrada sinuosa e movimentada entre Pernambuco e Maranhão. Estudou com Cazuzinha, pai de Severino Araújo, tocou em bandas, procissões, cabarés, estações de rádio e circo, e conheceu músicos que também migraram para o Sudeste. Em João Pessoa acompanhou um deles, o maestro Moacir Santos, até o embarque no vapor Rodrigues com destino ao Rio.”

Especificamente na área de odontologia, Alexandre publicou casos clínicos e estudos em importantes revistas internacionais, como Pinnacle Medicine & Medical Sciences (África e Oriente Médio), Trumpetland (Espanha), International Trumpet Guild (ITG, Estados Unidos) e deve publicar ainda neste ano mais um estudo em uma revista internacional especializada em trompa, a International Horn Society (IHS). Suas postagens na página no Facebook e em seu blog “Odontologia para músicos de sopro” chegam a ter até 130 mil visualizações, o que mostra, segundo ele, grande interesse do público sobre saúde bucal. “Além de pessoas do Brasil, sou procurado por músicos de vários países, de toda a América Latina e de outras regiões.”

Graças à sua atuação no Brasil, o Conselho Federal de Odontologia emitiu o parecer 717 em 2012, no qual reconhece que o músico de sopro é um paciente especial e requer atenção. “Isso foi muito importante, pois permite uma abordagem ampla, desde a criança que quer se tornar um músico até um músico idoso. E o mais importante: decidi levar essa especialização adiante para incentivar que outros dentistas façam o mesmo. Não quero ser o único. É preciso criar uma consciência nova na área, uma mudança de cultura para introduzir o músico como uma classe importante na odontologia.”

Segundo ele, a odontologia demora a enxergar a especialização em músicos de sopro da mesma forma demorou a reconhecer a importância da odontologia desportiva. Para ele, atleta e músico são muito parecidos, pois não realizam suas tarefas de uma hora para a outra, precisam de treino e atenção referente à saúde. “E vai dizer: ‘dente não é importante’. E se o músico for tocar na sexta-feira e dá canal no dente dele. O que o dentista faz? Ele trata o canal, adia o tratamento, ou ele faz o canal? Nenhuma coisa nem outra. Ele abre o dente, medica para o paciente não ter dor e o deixa tocar, para no sábado ou na segunda-feira fazer o canal”, explica.

Alexandre lembra que os dentistas têm grande responsabilidade no futuro de crianças que pretendem tocar um instrumento e na longevidade de músicos idosos. O dentista, explica ele, precisa ajudar no crescimento de novos talentos, e não o contrário. “Imagina um dentista que diz que a criança vai ter que parar de tocar para usar aparelho. Existem métodos diversos de se corrigir os dentes que não impedem a criança de tocar.”

Comentários
32 Respostas para “Dentista se especializa em tratar músicos de instrumentos de sopro”
  1. Josiane Sampaio disse:

    Eu toco trompete e já tem quase 2 anos que estou usando aparelho.
    A boca fica toda machucada, cortada, sai sangue, é difícil, mas pessoas não entendem.
    Custei para recuperar a embocadura, não está bom, ainda preciso
    melhorar muito !!!! …. Muitas vezes da preguiça de continuar os estudos,
    porque a evolução não é mais como antes, todos os dias tem que
    re-aprender a sobrar o bocal sem que machuque a boca.
    O que fica sendo chato, pois a evolução dos estudos caminha como uma
    tartaruga, enquanto outras pessoas que não enfrentam problemas fazem
    comparações e decolam nos estudos. …. Queria ver se ia aguentar uma
    semana de aparelho e enfrentar o que eu passo com essa porcaria na boca.

    • Boa tarde Josiane.
      Importante seu depoimento e é isso mesmo, a maioria das pessoas não entende as dificuldades dos músicos de sopro.
      Existem protetores de brackets que colocados sobre eles, reduzem bastante o atrito e diminuem o desconforto.
      Assim que você tirar o aparelho, o benefício será enorme na sua vida, pois a correção dos dentes evita no futuro muitos problemas como Disfunções da ATM, por exemplo. Existem aparelhos chamados invisíveis como o invisalign que não tem brackets e também promovem a movimentação dos dentes(embora com algumas limitações), pode ser uma boa alternativa no seu caso.
      Abraços
      Dr.Alexandre de Alcântara

  2. Sonia Carrasqueira disse:

    Dr. Alexandre, eu moro em Portugal e o meu filho de 15 anos toca clarinete há 5 anos. Ele agora decidiu mesmo fazer carreira na música e ingressou num curso profissional. Mas estou preocupada porque ele tem que usar aparelho dentário durante 2 anos e meio (o curso é de 3 anos, vai portanto andar com o aparelho o curso quase todo…). Precisava de umas dicas suas, porque ele anda tão motivado com o curso e eu não queria que o aparelho lhe destruísse o sonho de ser músico. Andei a pesquisar na net e há de tudo, desde opiniões que só custa a habituar, mas também outras que dizem que, ou o clarinete ou o aparelho…
    Obrigada.

  3. MARCOS disse:

    Em qual endereço e telefone consigo consultar com o doutor?

  4. Marcos disse:

    Toco saxofone contralto há 10 anos e recentemente fiz uma cirurgia de enxerto para implante dentário.
    Quanto tempo demora para voltar a tocar o meu instrumento?
    Abraço.
    Marcos Piedade

  5. Agradeço a todos que apreciaram esta reportagem e quem quiser entrar em contato comigo, é só enviar um email no alealc3@gmail.com

    Abraços e obrigado

  6. paulo disse:

    Toco trompete e tenho os dentes projetados anteriormente,usar aparelho lingual pode ajudar?pois encontro dificuldade na embocadura a medida que o bocal não fica do centro dos lábios.

    • Alexandre de Alcântara disse:

      Boa noite Paulo.
      Desculpe não ter respondido antes a sua pergunta. O site não me avisa que há novos comentários.
      Espero que tudo esteja bem.
      Abraço

  7. Ricardo disse:

    Olá, Alexandre. Tenho 26 anos e comecei a tocar trompete há uma semana. Estou praticando bastante, mas com moderação, e fazendo exercícios como o do lápis, para fortalecimento da musculatura. Estou encontrando a embocadura com naturalidade e não sinto problemas em relação à posição dos meus dentes, que são bem alinhados. No entanto, tenho sentido um pouco de dor nos dentes nos últimos dois, dias, uma sensação semelhante àquela de sensibilidade quando se toma algo muito gelado. Não é nada muito forte, apenas um leve incômodo, mas como não sei se isso é normal fiquei preocupado. Pode ser considerado normal no início ou há algo de “errado” comigo? Obrigado pela atenção!

    • Alexandre de Alcântara disse:

      Boa noite Ricardo. Desculpe não ter visto sua pergunta. O site não me avisa que há novos comentários. Espero que esteja tudo bem.
      Abraço

  8. Miro Teixeira disse:

    Olá sou trompetista a alguns anos e toco pra valer amo tocar chego a sonhar que estou tocando, precise coloca r a parelho estou com dificuldade de atingir notas agudas lá si uma oitava acima, antes atingia com facilidade, será que vou me limitar ou não conseguir tocar com facilidade como tocava ?

    • Alexandre de Alcântara disse:

      Boa noite Miro.
      Pelo que entendi você está usando aparelho. Se estiver, é normal ter limitação devido ao atrito dos brackets contra os lábios. Assim que você tirar o aparelho precisará estudar para voltar a atingir as notas, mas não dá para dizer muito antes de retirar o aparelho. Abraço e boa sorte

  9. Dayane disse:

    Oi, preciso de ajuda.
    Toquei sax 10 anos e agora decidi fazer facetas de porcelanas nos dentes, foi ate dificil porq sempre preferi tocar em vez d dentes perfeito,
    Porem na minha cabeça pode se fazer uma placa de resina (igual a de bruxismo) e eu protejo os dentes de cima(facetas) pra eu poder continuar tocar . Muito triste olhar meu instrumento .. ja que eu era ativa na musica . Nao quero quebrar meus dentes e quero tocar, é possivel?

    Alguem pode me dizer

    • Ricardo disse:

      Dayane,

      Estou com um problema parecido. Fiz implante dos incisivos superiores a dois anos. Hoje pretendo aprender a tocar saxofone. Estou em busca de uma solução. Gostei da sua sugestão. Vamos fazendo as nossas buscas e compartilhando informações. Meu e-mail é ricardo.tourinho@hotmail.com.

      Abs,

    • Alexandre de Alcântara disse:

      Boa noite Dayane.
      Tocar saxofone não impede de colocar facetas. É importante que o dentista faça um apoio na parte de trás do dente para aumentar a resistência da faceta e também ele precisa entender que o saxofonista não morde a boquilha e sim apoia nela. Se as facetas não fossem resistentes, você também não poderia mastigar com elas. Vá em frente e boa sorte.

  10. Hugo disse:

    Boa noite Alexandre tudo bem? Eu toco trompa a algum tempo e precisei colocar aparelho Infelizmente agora nao estou conseguindo mais tocar como antes devido ao uso do mesmo, o bocal é muito pequeno e os lábios nao vibram corretamente impossíbilitando tocar a regiao media e aguda… o que posso fazer ou método posso usar de tratamento que me possubilite voltar a tocar ?

  11. Gabriel Martin disse:

    Bom dia doutor e Bom dia a todos ,entao faz 6 meses que estou com o aparelho ortodôntico ok ,e estou pela misericórdia de deus aprendendo tocar tronpete no começo machucava muito mas agora não machuca mais, tiro as notas e alguns hinos e pego muito o método do instrumento só que estou
    Com uma dificuldade que me preocupa um pouco ,quando toco no começo vai tudo bem mas quando repito novamente parece que vol perdendo as forças nas musculatura , eu queria saber se é normal no começo ? oq eu deveria fazer para não acontecer mais .

  12. Acir disse:

    Boa tarde doutor! Eu toco o instrumento de sopro trombone de vara e já faz seis meses que estou usando aparelho ortodôntico, desde então não consigo de forma alguma tocar como antes, a performance mudou totalmente. O aparelho me incomoda muito, machuca os lábios. Existe algum modelo de aparelho que incomoda menos? Eu nao estou aguentando mais! Preciso de uma solução e se eu n consegui, terei que interromper o tratamento.

  13. Filipa Marques disse:

    Bom dia,
    Eu estou em Portugal, estou preocupada com a situação da minha filha e não sei bem o o decidir. Ela toca saxofone há 2 anos, neste momento tem 7 e vai fazer 8. Está com mordida aberta causada pela língua… fui ao ortodontista que aconselha o uso de uma grelha lingual…. será que ela conseguirá tocar saxofone, apesar do incomodo????
    Obrigada pela atenção
    Filipa Marques

  14. Tiago Agostinho disse:

    Olá, tenho 24 anos e toco Clarinete/Clarone há 15 anos. Nunca tive nenhum tipo de problema com meus dentes. Ano passado fiz clareamento dental. Durante o tratamento, não tive nenhum problema. Mas umas 3 ou 4 semanas depois, ao tocar, meus dentes da frente doem. Para tocar, coloco os dois dentes na boquilha para fazer a embocadura, e como ela vibra, os dentes doem. Já vai fazer um ano que fiz o clareamento e ainda sofro com isso. Já usei cremes dentais de diversas marcas para dentes sensíveis e nada resolveu. Alguma ajuda?

  15. Raphael Chaves disse:

    Olá Dr. Alexandre! Me chamo Raphael Mota, Toco Saxofone há 3 meses,

    Essa semana [09/10/18] tive de passar por um procedimento cirúrgico
    [Retirada dos 4 sisos e Realização de um implante dentário = 1º molar inferior direito] Tudo de uma só vez.
    Até aí tudo bem. O dentista marcou para retirar os pontos semana que vem [16/10/18]
    Até lá nada de saxofone, estou me segurando. uma semana dá pra aguentar, Mas

    A minha pergunta é a seguinte:

    com relação ao implante [1º molar inferior]
    o período de “osseointegração” é bem longo até a colocação da coroa, [22/02/18] São 4 Meses !!

    Gostaria de saber se vou ter de ficar sem tocar até lá [por 4 meses] !!

    Ou se este implante não interfere na prática do instrumento,

    Se poderei voltar a tocar assim que cicatrizar os pontos dos sisos (2 a 3 semanas)
    ou terei de esperar 4 longos meses ??

    Att.

    Raphael Mota

  16. Emanuel disse:

    Bom dia Doutor! Eu tenho 15 anos e estou começando a tocar clarinete, e eu gostaria de saber se tem algum perigo para os dentes a respeito deste instrumento?

  17. Pilar Morais disse:

    Boa tarde, toco trompete há 12 anos e tenho 19 anos. Na semana passada fui retirar o dente do siso superior do lado esquerdo (o dente ainda não estava saído, mas tive que o retirar por estar a movimentar os restantes dentes -eu usei aparelho à uns 4 anos- para o dente sair a doutora tive tirar um bocadinho do osso). Hoje fui tirar os pontos e está tudo bem , está a cicatrizar muito bem. Já peguei no trompete e sinto-me bem, mas tenho que medo que ao estar a estudar durante algumas horas isto possa infectar ou possa abrir.
    Posso estudar à vontade?
    Muito obrigada.

    • rogermarzochi disse:

      Olá Pilar, tudo bem? Vou comunicar ao Dr. Alcântara a sua dúvida para que ele possa te responder. Abraços!

    • Alexandre de Alcântara disse:

      Olá Pilar. Pelo tempo que escreveu já deve ter cicatrizado. Geralmente eu libero para tocar três dias após a extração e quando ela foi complicada, aumento o prazo para uma semana. Hoje é dia 7/4 e já se passaram quatro dias da sua extração. Se não foi complicada pode tocar a vontade que não irá afetar. Mas lembro que essa é uma decisão sua e do seu dentista, porque foi ele quem fez o procedimento. Abraço

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