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“Terra” chamando

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

O mar é como um telescópio direcionado para dentro do homem. Pode ampliar as possibilidades de vida, mas também limitar ou mesmo destruir o que estiver em seu caminho, assim como nas mais fortes ressacas. A ideia pescada é da peça “Aqui Estamos com Milhares de Cães Vindos do Mar”, que o diretor Rodrigo Spina criou a partir de uma sobreposição de uma série de peças do romeno Matéi Visniec, cuja vida foi marcada pela ditadura comunista em seu país. Após se mudar para a França em 1987, o autor se surpreendeu com a ditadura da sociedade de consumo, hoje em escala planetária.

A peça, que está em cartaz no Espaço Elevador, na Bela Vista, é encenada por dez atores da companhia Os Barulhentos e tem um tempo vertiginoso: atuações, texto, luz (ou escuridão mais completa) e cenografia colaboram para que os vários textos de Visniec ganhem um sentido panorâmico, que é o da busca mais pura pelo máximo do que a humanidade ainda deve ao homem. Entram em cena – da forma mais cruel, por meio de uma fina ironia – o desprezo que os homens têm pela vida em nome de uma Pátria, que divide, classifica, pune e elimina; da burocracia e da tecnologia, que classificam os homens no mundo unidimensional do consumo e da estatística; dos programas de televisão; e da religião.

Em uma das cenas mais comoventes, a escuridão total é quebrada pela lamparina carregada por uma atriz, simbolizando o filho que carrega na barriga. Ela tenta a todo custo ultrapassar a fronteira da desumanidade para a humanidade, mas os computadores em rede lhe negam passagem por não ter documentos, seguindo um diálogo que põe em xeque a inteligência artificial, incapaz de sentir um poema.  Ao corte da cena, ganha espaço um garoto de 17 anos, talvez o filho da moça que não conseguiu ultrapassar a fronteira. Ele agora faz parte de uma milícia que, em meio à guerra urbana, busca matar homens, mulheres e crianças que passam pela sua alça de mira.

“O leste Europeu não está tão longe assim. A fronteira pode estar na Nove de Julho. Eu também aprendi a matar. De alguma forma, de algum jeito, eu aprendi a matar. Eu também aprendi a ter medo. Tudo em nome da Pátria. Eu não lembro o que é Pátria. Eu duvido do que é Pátria”, escreve Spina, no encarte da peça, que em seus instantes finais, deixa a pergunta. “Não estaríamos todos nós em um profundo coma?” Nossa existência, alheia aos mais profundos sentimentos humanos de compaixão e amor, seria simplesmente um longo e silencioso coma.

O reflexo de uma peça como essa é sem dúvida uma visão panorâmica da desgraça humana, provocada pelas guerras intermináveis, a multidão de exilados, refugiados, o mundo dividido em times, países, economias, como máquinas de moer carne humana. E, diante de tanta tristeza, há músicos, poetas, dramaturgos e atores, verdadeiros cães de cegos que surgem do mar para dar sentido à escuridão da humanidade. É por isso que Roger Waters, por mais argumentos que tenha, erra ao achar que um boicote do show de Caetano e Gil em Israel no dia 28 de julho contribuiria para a causa palestina. Em resposta à violência, à contagem dos mortos, ao som dos aviões teleguiados pelo Oriente Médio, o amor de um artista é capaz de construir teias invisíveis no coração dos homens.

“O homem comum nem de longe suspeita dos poderes que podem ser transmitidos à Terra por meio da música. Porém está rapidamente se aproximando a hora em que o homem escolherá sua música com o mesmo cuidado inteligente e o mesmo conhecimento que ele usa para escolher sua comida. Quando essa hora chegar, a música tornar-se-á uma fonte importante de cura para muitas doenças individuais e sociais, e a evolução humana será tremendamente acelerada”, escreve Corine Heline, no livro “As Energias Curativas da Música”, de Hal A. Lingerman, publicado pela editora Cultrix.

 

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