Casa do Núcleo

Núcleo Contemporâneo chega à maioridade cultivando a independência

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

Um dos principais desafios de um artista é conseguir sobreviver com a cultura que ele produz. No caso específico dos músicos da chamada música instrumental, ou jazz brasileiro, a questão é ainda mais delicada. E um bom exemplo de que é possível conciliar arte, sem concessões ao mercado, com retorno financeiro que dê o mínimo de dignidade ao artista é uma iniciativa que foi lançada em 1997: o Núcleo Contemporâneo, que é ao mesmo tempo produtora e gravadora, e que lançou há quatro anos em São Paulo a Casa do Núcleo, um local de encontro dos artistas relacionados ao movimento e seu público. Nesses 18 anos, a iniciativa que deu certo e produziu 45 CDs e distribui outros 45, de artistas como Na Ozzetti, Naná Vasconcelos, Marco Pereira e Hamilton de Holanda, Vitor Ramil, Juliano Holanda, Rafael Martini, entre outros. Ao todo, foram vendidos 120 mil CDs, contando com parcerias nos Estados Unidos, Europa e Japão. Na sexta-feira, 12/05, haverá show com vários artistas envolvidos com o projeto (veja programação).

Quem lidera esta iniciativa é o pianista Benjamim Taubkin que, assim como a música que faz, parece flutuar no espaço. Há quem o veja apenas como músico, mas ele é também um produtor e um pensador muito importante sobre os caminhos da arte. Em entrevista ao blog, Benjamin explica que o Núcleo surgiu como resultado sobre uma reflexão sobre as relações desequilibradas entre principais artistas e seus instrumentistas, com uma necessidade de criar um projeto para se viver de música.

“Eu vinha tocando com diferentes músicos, como sideman, convidado de outros músicos. E participando de vários projetos, contente, feliz, curtindo. Eram projetos que eu gostava. Mas eu comecei a perceber que nesse meio, mais da MPB digamos assim,  as relações eram desequilibradas profissionalmente. Eu tinha pensado em fazer da minha vida isso, tocar com um e com outro. Mas percebi que não seria muito feliz, principalmente por causa das questões profissionais, não da música. É um trabalho não regulamentado, não havia estabilidade no sentido de que os valores não estavam claramente acertados. O artista principal é justo receber mais, mas estava descompensado demais. E tem uma espécie de tradição um pouco perversa de o músico não falar sobre dinheiro, de a conversa sobre dinheiro ser uma conversa tensa. E me parecia errado, porque afinal é trabalho, tinha que ser uma relação clara, limpa e transparente.”

Ao perceber a necessidade de mudar essa relação, Benjamim se uniu aos músicos Teco Cardoso, Mané Silveira e Toninho Ferragutti para criar o Núcleo Contemporâneo. O único que continuou no projeto por mais tempo foi o Teco Cardoso, que por sete anos era integrante do núcleo do Núcleo. Depois, Benjamim assumiu inteiramente as responsabilidades pelo projeto.

“Acho que manter esse projeto, na verdade… Você tem que ver… Ter prazer e ver beleza não só em tocar, mas em pensar em todas as outras coisas. Eu tinha mais essa peculiaridade, eu era mais apaixonado por experimentar as coisas nesse sentido, por buscar alternativas, me sentir desafiado”, explica. “Eu tive várias experiências de gestão na minha vida. Trabalhei na Secretaria de Cultura por duas vezes e, já muito moleque, organizava concertos, com 17 anos. Com 18 e 19 já coordenava projetos grandes. Acho que isso tem a ver com essa permanência minha no projeto. Então, foi essa a gênese, foi buscar alternativa para aquilo que em dado momento parecia inviável, viver da própria criação, que ela fosse música instrumental, parecia impossível para todos nós.”

Além da qualidade dos músicos reunidos no projeto, o Núcleo Contemporâneo investiu em qualidade de som e produção. Benjamim brinca que, à época, os CDs de música instrumental vinham com um “anexo de desculpas”: aqui está o CD, mas desculpe-me pelo som que está ruim. “E pensei: a gente não tem chance de trabalhar assim se vier sempre com esses ‘adendos’. Se a gente for trabalhar a própria produção e vier sempre com esses ‘adendos’ vai ser difícil, porque a competição é surreal. Você pega projetos de música comercial com milhões gastos em propaganda, jabá, que são super bem produzidos, a capa incrível… Então foi o princípio do projeto o de produzir nossos discos gravando com qualidade, com cuidado na capa, no som. E funcionou. Incrível que funcionou!”

Benjamim_By Tim Ferguson

“O que eu sinto é que a cultura, há anos, tem esse discurso que não pode viver de si mesma. Eu acho um problema. Temos que encontrar a autossustentabilidade, senão fica muito frágil. Patrocínio é coisa muito invasiva do jeito que é feito, porque você está muito fragilizado, e o outro entra invadindo. Não é uma relação equilibrada.” – Foto de Tim Ferguson

Segundo ele, em 1997 e 1998 as vendas de CDs eram ótimas, especialmente porque esse suporte para a música ainda não havia enfrentado a competição desmedida que a internet proporcionaria anos à frente. No início, o próprio Benjamim distribuía os discos, de loja em loja, fazendo uma peregrinação pelas lojas de São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte, Florianópolis, entre outras, mesmo quando não havia show marcado nessas cidades. A cada edição são produzidos mil discos e o principal desafio do Núcleo é repor as edições que se esgotam. O disco de estréia de Benjamim “A Terra e o Espaço Aberto”, de 1997, é uma das preciosas edições que se esgotaram, só possíveis de serem encontradas em lojas virtuais de revenda ou em aplicativos de música.

“É um disco que vejo no Mercado Livre, e fora do Brasil, chega a um preço absurdo, uns R$ 200”, diz. “Encontrei relatório de venda dos primeiros anos, era muito disco. Hoje em dia é muito menos, mas a gente segue fazendo. As edições vão acabando e nosso maior problema é repor. E eles acabam, tem um público que compra. A música que a gente faz é música de biblioteca. O sujeito compra para deixar na estante, é um disco que vai acompanhá-lo. Para gente é importante como formato, para dar realidade a um projeto. Eu sinto que estamos vivendo no meio de várias transições, mas o disco não é descartado. No mundo todo, se não tem disco o projeto não é levado a sério.”

Olhando para o passado, o pianista tem certeza que a criação do Núcleo foi a decisão correta, e avalia que seus principais erros nesse período estão ligados à administração. “Eu não sou um bom administrador financeiro. Muitas vezes a gente errou nesse lado, não de mais, mas erramos. Mas é um lado importante. Não no sentido de ganhar recursos, mas o que manter o projeto, o que te dá independência e liberdade. É um desenvolvimento humano, acaba não só focando na criatividade. Tem que de certa forma ser consistente no que faz, tem que certa constância, porque não é só pensar eu ‘vou fazer o som’. Para isso, eu tenho que pensar na logística do teatro, pensar na difusão, uma série de coisas para manter a música viva. Eu gosto disso, te põe vivo, não sou preguiçoso. Eu gosto de pensar e fazer as coisas, e tenho uma equipe, que tem que receber. Tem uma série de questões desafiadoras.”

Sobre patrocínio, Benjamim faz duras críticas. “O que eu sinto é que a cultura, há anos, tem esse discurso que não pode viver de si mesma. Eu acho um problema. Temos que encontrar a autossustentabilidade, senão fica muito frágil. Patrocínio é coisa muito invasiva do jeito que é feito, porque você está muito fragilizado, e o outro entra invadindo. Não é uma relação equilibrada. Eu acho que são diferentes lógicas: uma empresa busca divulgar seu produto ou seu serviço, não são empresas que estão de fato preocupadas com o mundo da cultura. É uma questão de branding: ah, o mundo da cultura tem aspecto ‘cool’, interessante, dá um certo prestígio, deixa a imagem mais limpa, então vamos investir na cultura… Então a pessoa já vem com um interesse que não é da cultura. É como se um cara da cultura se traveste de economista e quer viver um outro mundo. No caso da indústria, ela quer estar nesse lugar que vai dar uma certa aura de uma vida criativa para o seu público. Eu acho que as relações que se estabelecem aí não são tão construtivas, são por interesses pontuais e locais, dificilmente tem desenvolvimento real. Focam no evento que tem que gerar mídia, público, vira uma histeria.”

Ao ser questionado se não existiria empresas com um pensamento diferente, Benjamim afirma: “Em geral, quem investe na cultura tem imagem suja e quer limpá-la. Polui… Não é bom empregador… É verdade! Vai ver quem investe em projeto social? Quem investe é quem teria que estar empregando. Então, eu acho que é uma relação pobre nisso tudo. Eu prefiro buscar sustentabilidade e autonomia. A gente está há 18 anos, se eu não tivesse a casa (Casa do Núcleo), hoje eu estaria financeiramente melhor”, explica ele, dizendo que nos anos anteriores, a casa faturava R$ 50 mil por mês para equilibrar as contas.

Em 2015, por motivo de excesso de trabalho, Benjamim resolveu desacelerar o ritmo de shows no primeiro semestre na Casa do Núcleo, o que teve um inesperado reflexo: moradores do bairro e admiradores do trabalho desenvolvido pelos artistas no local se reuniram e decidiram criar a Associação Amigos da Casa do Núcleo, com a ideia de colaborar para que a programação continue. Em breve, será lançado até mesmo um site para conquistar apoiadores para colaborar, com recursos e com disponibilidade de trabalho, com a sustentabilidade do projeto.

 

 

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