Eduardo Kobra Tahiti Maio 2015

Independente de luz no fim do túnel

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

Estados Unidos, Moscou, Itália, Emirados Árabes, Taiti, Suécia, Polônia, Japão. Eduardo Kobra jamais imaginaria no fim da década de 1980 que os desenhos que pichava nos muros de São Paulo, que lhe renderam várias prisões, chegariam um dia tão longe. Com a evolução de sua técnica e o reconhecimento de sua arte, Kobra é hoje um cidadão do mundo. Mas, quando começou, era apenas um garoto pobre do bairro Campo Limpo visto como vândalo que emporcalhava a cidade.

Após tantas realizações, ele revela que o seu maior sonho agora é se “aproximar mais de Deus” e valorizar as pessoas que sempre estiveram com ele em todas as suas fases: “quem pegou ônibus na periferia de SP, e sempre esteve comigo, merece estar comigo em todos os lugares onde cheguei”, diz Kobra, em entrevista por e-mail em abril, enquanto ele realizava diversos grafites nos muros de Tóquio. Essa busca por Deus se intensificou nos últimos dois anos, quando o muralista entrou para a Igreja Bola de Neve.

Deus é citado pelo artista mais uma vez ao explicar o que faz para reavivar a sua criatividade que, segundo ele, esgota-se com “o stress, qualquer tipo de discussão, brigas, programas de televisão, filmes violentos, tudo que me causa nervoso, me tira a criatividade”. E, para voltar a ser criativo, ele afirma: “Procuro Deus, vou para um sítio que tenho em Extrema, sul de Minas. A casa é totalmente isolada, em uma estrada antiga, no meio da natureza. Isso me faz muito bem, fico lá durante 3, 4 dias.”

Além da busca por um sentido maior da vida, o artista também ampliou o seu gosto musical. “Ainda me sinto inspirado quando ouço os Racionais MCs, e outros grupos como Tupac, Notorius Big, Public Enemy. Mas confesso que uma pitada de Jazz e Bossa Nova tem feito muito bem para meus momentos de lazer, além de outros Ritmos Gospel, como Fernandinho e Talhes Roberto.”

Sobre os protestos contra o governo Dilma e expressões de extremistas de direita, que chegam até a pedir um golpe militar, Kobra afirma: “a liberdade e a democracia são ferramentas essenciais. Foi justamente desta forma que países como os EUA se tornaram potencias mundiais. O Brasil é um País privilegiado, temos todos os recursos que necessitamos, temos que encontrar o mais rápido possível formas de equilíbrio social, sem se esquecer de todas as outras coisas que necessitamos. As pessoas têm que buscar cada vez mais seus direitos, mas manter a liberdade que a democracia possibilita é indispensável.”

Eduardo Kobra e Ariano Suassuna

Eduardo Kobra e Ariano Suassuna. Na imagem de destaque do post, mural desenhado pelo artista no Taiti em maio de 2015.

Processo criativo – Kobra explica que procura se sobrecarregar de informações sobre um determinado tema antes de pintá-lo.  “Por este motivo, vivo constantemente em livrarias, museus e galerias de arte absorvendo conhecimento sobre as temáticas que me interessam. Isso tudo volta em forma de desenhos. Por este motivo, tenho em meu telefone celular centenas de anotações com ideias sobre futuros murais, que em determinado momento se transformam em desenhos no papel e, por fim, chegam ao seu destino que são os murais.”

Kobra também é colecionador de livros antigos, tem mais de 500 com imagens do passado de grandes cidades ao redor do mundo. “Isso me inspira muito: a arquitetura, roupas, carros antigos, fatos históricos. Minha dedicação ao trabalho é total, busco sempre entender mais sobre a história dos lugares onde estou visitando. Outro ponto que me chama atenção é a destruição do meio ambiente e a agressão aos animais. Percebo hoje que, por pura vaidade, mantemos girafas, leões e outros animais selvagens em jaulas, prisioneiros, apenas para nosso entretenimento. Sinceramente, penso que evoluímos em muitas coisas, mas estamos completamente atrasados nestes aspectos.”

Sobre arte, ele dá um conselho aos jovens artistas. “Ser artista nada tem haver com boemia, usar drogas, ou não estudar. Muito pelo contrario. Exige total dedicação, doação de vida, acreditar mesmo não vendo a luz no fim do túnel”, afirma o muralista. “Se deu certo para mim, que vim da periferia de São Paulo, e não tive nenhum tipo de apoio, pode dar certo para qualquer um que busque e se dedique com todo coração. E que, acima de tudo, não dê ouvidos aos outros, mas sim à sua própria intuição.”

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