Ze Claudio e Banda Bambu

O pífano paulista de Zé Claudio e Banda Bambu

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

Há dez anos, um show mudaria a vida de Zé Claudio, em Botucatu, no interior de São Paulo. Flautista e saxofonista desde 1977, ele acompanhava o interesse de um amigo em construir pífanos. Mas o impulso definitivo que teve para investir sua vida no instrumento de bambu, cuja origem se mistura no Brasil com as flautas indígenas e os “pífaros” portugueses, ocorreu em 2005 quando se apresentou na cidade a banda Pífanos Matuá, de Campinas. “Eu já estava começando a fazer os meus pífanos. Depois que eles vieram prá cá, eu fiquei empolgado, e quis fazer uma banda também. E comecei a fazer o pífano procurando fazer afinado, fazia com afinador eletrônico, ia furando até conseguir a nota, para fazer a escala maior afinadinha”, conta o músico, que produz até 12 instrumentos por mês, escreveu um método para tocar pífano e lidera a Banda Bambu, que utiliza quatro pífanos que têm características diferentes dos pífanos nordestinos.

Uma vez por mês, sempre na lua minguante, seu Zé Claudio vai até a mata colher bambu. A tradição garante a qualidade do instrumento, que fica imerso em água por dois meses. Com a experiência de fabricação, ele até criou ferramentas específicas para fabricar o pife. “Na raça, você pode fazer tudo manualmente, mas eu uso algumas máquinas. No Nordeste eles só usam um ferro em brasa para furar, e nem lixam e dão acabamento, é mais rústico mesmo. Eu tenho algumas ferramentas, algumas eu desenvolvi,  para lixar internamente. Fiz uma ferramenta que é um eixo cumprido que adapta a lixa na ponta e você põe dentro do pífano. E esse eixo acoplado em uma furadeira manual, põe dentro e lixa bem legal. Pode fazer isso manualmente, enrolar uma lixa cumprida, enrola e faz canudo cumprido e faz manualmente, mas dá muito trabalho.” Os pífanos são vendidos, na maioria das vezes, para músicos de diversas partes do País por meio do Mercado Livre.

Além dessas máquinas, a disposição dos furos no bambu tem como objetivo fazer o instrumento soar a escala maior da mesma forma que outros instrumentos musicais. No caso dos pífanos do Nordeste, os furos são feitos de forma igual e eqüidistante, dando uma característica única aos instrumentos. Segundo Zé Claudio, o pífano nordestino faz soar uma “terça neutra”, entre a terça maior e menor, uma escala intermediária que faz lembrar os intervalos e semitons da música indiana.

<“Fazer furos iguais a uma distância igual não dá a escala maior afinada nunca, vai dar a escala nordestina, que é a característica da música deles. Os instrumentos étnicos, que são tradicionais da cultura de algum lugar e são construídos da forma como foi ensinado de geração a geração. Não dão as notas da escala dos instrumentos atuais, dão outro tipo de escala. É interessante porque você pode escutar pífano nordestino e com compreensão de música vai pensar que está desafinado, seria se comprar com instrumentos afinados por diapasão. Ele vai dar sonoridade que só ele que dá. É uma característica cultural da música deles, por isso que a música da banda de pífano lá é daquele jeito. Se usar o meu pífano na música deles não soa igual.”

Como ele lecionava sax e flauta em uma escola, também causou uma nova mudança no universo do pífano: escreveu um método de estudo, a exemplo do que já existe para outros instrumentos musicais. No Nordeste, o estudo do instrumento é passado dos mestres para os alunos de ouvido. Em 2007, muitos desses alunos integraram a Banda Bambu que, em 2010, gravou o CD Zé Claudio e Banda Bambu com composições especialmente criadas pelo músico para a sonoridade dos quatro pífanos, que juntos produzem acordes. Muitas vezes, utiliza em sua formação também a sanfona e vários instrumentos de percussão. Com a experiência da Banda Bambu, a cultura das bandas de pífano se espalha e prova que a cultura está em constante transformação e recriação.

Comentários
Uma resposta para “O pífano paulista de Zé Claudio e Banda Bambu”
  1. Armando Bomfim disse:

    Parabéns !!! Me fez lembrar o maracatu sei que cada toada tem um nome e uma procedência mas a origem está no velho maracatu…obrigado!

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