Mauro e Gilson

“Dois na Rede” entre Iguape e São Francisco

Roger Marzochi, Americana, entresons, roger@entresons.com.br

O saxofonista e flautista Mauro Senise comemora 25 anos de parceria musical e de amizade com o arranjador, compositor e pianista Gilson Peranzzetta com o CD “Dois na Rede”, lançado em junho último e gravado ao vivo em outubro de 2014, no Espaço Tom Jobim, no Rio de Janeiro. A agenda de show é extensa, do interior de São Paulo até São Francisco, nos Estados Unidos. A dupla fez palestra e show no dia 10 de julho no Iguape Jazz & Blues Festival, em Iguape, no litoral de São Paulo. O festival reuniu nomes importantes do jazz brasileiro, como grupo paulistano Trio Corrente, vencedor do Grammy de melhor algum de jazz latino no ano passado, o trombonista Raul de Souza e o Ulisses Rocha Trio. Senise e Peranzzetta realizarão ainda shows nos meses seguintes em Petrópolis, Salvador, Rio de Janeiro e, em agosto, estarão no San Francisco Jazz Center, nos Estados Unidos.

“Dois na Rede” reflete o amadurecimento musical da dupla, que há 25 anos se uniu para gravar o LP “Uma parte de nós”. Á época, ambos se encontravam em estúdios, Mauro tocando os arranjos que Peranzzetta preparava para diversos artistas. E surgiu a oportunidade da formação de um duo inusitado, incentivado por um projeto do extinto Banco Nacional, promovendo encontros musicais com pessoas que nunca haviam tocado juntos. Ambos se reuniram para um ensaio, e segundo Senise, foi amor à primeira vista. “O Gilson até compôs a música ‘Mauro, Se Liga’, numa brincadeira com o meu sobrenome, mas ao mesmo tempo um aviso, porque esse choro é difícil à beça. Eu não conhecia as músicas dele, mas tocando ele gostou da interpretação. E a gente foi amor à primeira vista e fizemos o tal show, há 25 anos, e fui muito legal”, lembra Senise.

Gravado em meio ao projeto Jardim de Pianos do Espaço Tom Jobim, o trabalho atual registrou 12 composições entre músicas próprias de Peranzzetta como “Paisagem Brasileira”, “Braz de Pina, Meu Amor”, “Bilhete pro Guinga”, “Forrozim, Um Chorinho Pra Zé Américo” e “Dois na rede”, composição inspirada quando Peranzzetta ouviu de relance uma conversa engraçada entre dois pescadores.

Há ainda arranjos para canções de Baden Powell e Vinicius de Moraes (Deixa), Sueli Costa e Abel Silva (Jura Secreta), Toninho Horta e Fernando Brant (Aqui Ó), Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli (Canção que Morre no Ar), Edu Lobo (Zanzibar), Dorival Caymmi (Só Louco) e Edu Logo e Chico Buarque (História de Lily Braun). Mauro altera o uso do sax alto, sax soprano, flauta  transversal e piccolo. “Jura Secreta” é de arrebatar o coração.

“A gente deixa um espaço para o silêncio, não precisa encher de nota, subir escala prá cima e prá baixo, não é circo. Você fica mais velho e escolhe melhor as notas, esse é o barato do amadurecimento”

Apesar de ser um duo, o som soa uma orquestra, devido à experiência dos dois músicos. Peranzzetta preenche o espaço sonoro com acordes amplos e num ritmo tão preciso que parece ser possível ouvir os baques de uma bateria. “É a dinâmica que a gente usa. Começa pianinho, até forte, etc. No rock e no funk não tem refresco. Mas com a gente há uma dinâmica, a gente deixa um espaço para o silêncio, não precisa encher de nota, subir escala prá cima e prá baixo, não é circo. Você fica mais velho e escolhe melhor as notas, dentro da harmonia, esse é o barato do amadurecimento. Música também é silêncio, até na música clássica tem pausa, tem o silencio, senão fica insuportável. No começo (o músico) quer mostrar serviço, tem escala de cima para baixo. E o público que não conhece muito aplaude, faz aquela presepada”, diz Senise.

Para ele, a música é como namorar. O jovem vai afoito, apressa-se no êxtase, enquanto o mais experiente prolonga a preliminar e a experiência como um todo. O músico é também como um ator, que faz diversos papeis ao longo da carreira. “Em ‘Só Louco’, do Caymmi, a música tem uma marola, senão fica campainha, buzina de carro. É o meu lance de intérprete, aprendi isso com o Paulo Moura (que foi seu professor), e com Miles Davis. Eu só tenho uma linha melódica, tenho que seduzir quem está ouvindo. E as pessoas querem ver um cantor, e eu tenho que seduzir as pessoas com som. E o Gilson vira uma orquestra, não fica como piano de botequim. Você ouve o baixo e a parte rítmica, não fica aquela bossa novinha sem vergonha, fica orquestral. Ele conhece tudo de orquestra e cria uma cama para eu caminhar. Vou pincelando, como um pintor uma tela.”

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