A utopia que a história vem cobrar do PT e do PSDB

Apesar de terem sido formados com filosofias diferentes, uma vez no poder o PSDB e o PT se mostraram iguais: 1) usaram de caixa 2 para financiar suas campanhas, apesar de a Justiça e a imprensa investigarem com exclusividade irrestrita o PT; 2) foram forçados a abrir concessões a partidos gestados pelo Ato Institucional Número 2 (AI-2), na criação do sistema bipartidário com o qual os militares fizeram dos políticos marionetes; 3) cederam a pressões fisiológicas e, muitas vezes, usaram da corrupção nos casos como o projeto de reeleição de Fernando Henrique Cardoso, os trens do tucanato paulista ou os projetos que estavam em pauta no Congresso durante o governo de Lula, a pilhagem em Furnas e na Petrobras.

A principal diferença entre ambos é que no caso do PSDB a elite que comanda bancos e empresas apóia, sem muitas restrições, os seus representantes e sua ânsia privatizante, enquanto que a mídia se divide entre os que deixa vazar um ou outro deslize dos tucanos para manter um verniz de “independência”, de “credibilidade” e “imparcialidade”, esta última a mais capciosa das palavras; ou a pura e simples censura, seja utilizando-se da pressão sobre o próprio vocabulário do repórter, para que seja sempre amistoso com seus líderes – os quais nunca possuem nem mesmo sequer um aposto suspeito – ou mesmo para engavetar denúncias críticas ao tucanato.

Com suas penas sobre proteção do universo simbólico, os tucanos concorreram à Presidência da República liderados pelo imaturo e perigoso Aécio Neves. A virulência com a qual participou do debate, num messianismo ao reverso, que passou de salvador da Pátria para Amaldiçoador Geral da Nação, ganhou ainda mais reverberação por causa do mundo cor de rosa que prometera Dilma Rousseff durante a campanha e a realidade discrepante do rescaldo da crise de 2008 em seus calcanhares.

É óbvio que o PSDB foi importantíssimo na recuperação da economia brasileira na década de 1990 com o Plano Real, é inquestionável a luta posterior do PT em retirar o País da miséria, em ampliar o acesso à educação e à moradia. Mas nesse embate do faz de conta da campanha eleitoral, os falastrões Aécio e Dilma, impulsionados por uma mídia e uma Justiça parcial, levaram o País à beira do fascismo, deixando livre caminho para lideranças ainda piores, como aquelas calcadas na violência da Ditadura, na ignorância das redes sociais e na visão cega da religião.

PT e PSDB devem se olhar no espelho, percebendo que, no fundo, são farinha do mesmo saco. Porque não assar, a partir disso, um novo pão? Nesse momento de crise, ambos os partidos devem deixar de lado o ódio e fechar uma aliança para o bem da democracia. Afinal, não foram ambos os partidos que sofreram com o fisiologismo, uma vez no poder, e que se dizem probos? Não foram ambos os partidos que deitaram e rolaram em contratos com a iniciativa privada, que fizeram uma farra de nomeações políticas (que a imprensa só aponta o dedo para o PT, mas ninguém lembra do PSDB)?

A história brasileira, inclusive, vem hoje cobrar do PT a fatura por ter se recusado a participar do Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo Neves, o primeiro presidente civil após o Golpe de 1964, e fazer aliança com o partido do neto. A busca por uma pureza democrática dos petistas à época era tamanha e vejam só hoje a situação em que estão, atados à língua presa pelo Joaquim Levy; enquanto que o PSDB deve deixar a arrogância mimada pela mídia e pelo baronato e fazer parte do governo de Dilma, para que as reformas que nem Fernando Henrique nem Lula conseguiram implementar para transformar o Brasil sejam realizadas.

A fanfarronice de Aécio também tem a sua fatura histórica. Ele precisa entender que perdeu a eleição e o PSDB precisa entender que é maior que um político oportunista e imaturo. O partido precisa entender que possui poder para defender a democracia, não pode sair defendendo impeachment ao arrepio da legislação. E precisa compartilhar poder com quem acredita ser seu inimigo – talvez até seja, mas apenas no âmbito dos negócios escusos.

É impossível? É uma utopia, que só não se realiza porque há uma corrente que acredita que é melhor quebrar o País – mas não o bolso e o marketing – a se buscar um consenso sério e responsável. Não é exigindo o impeachment da Dilma que se resolve: é preciso pressionar por ética na política cada cidadão, cada um dos políticos eleitos, de vereadores, a prefeitos, deputados estaduais, governadores, deputados federais, senadores e presidentes.

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