Cândida Borges Mar

Pianista brasileira transporta a memória em uma gota de oceano

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

A pianista brasileira Cândida Borges tem uma relação estreita com o mar, seja pela sua beleza e incrível força, seja por representar o inconsciente em várias culturas. Por onde ela anda, carrega consigo água do mar e areia. Estes dois elementos têm um papel essencial em seu recém lançado vídeo clipe da música “Memória e Fado”, de Egberto Gismonti, que foi escolhido para ser exibido como filme arte na exposição Archimedes’ Bathtub, promovida pela New York Foundation for the Arts (NYFA), em Nova Yorque. O evento pode ser conferido na Galeria de Arte Lorimoto.

Cândida é um dos 22 talentos escolhidos pela NYFA em seu programa de artistas imigrantes de países como Rússia, Filipinas, Irã, Ucrânia, Bósnia, Alemanha, Chile, entre outros. Além da pianista, participam da exposição as artistas visuais brasileiras Liene Bosquê e Natália Cavalcante. A exposição teve início no dia 8 de agosto e terminou no dia 23. Entre setembro e outubro, a musicista espera lançar o vídeo clipe em apresentações que planeja realizar em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.

O vídeo clipe foi gravado em 2013, aproveitando a arquitetura dos prédios e o teatro da Unirio, universidade na qual Cândida é professora do curso de música, mas da qual está licenciada desde quando ganhou Prêmio Funarte para Residência Artística Internacional, que a levou para Nova York com o objetivo de aprimorar suas pesquisas na área de performance e inovação em Educação Musical. Na Unirio, ela criou o projeto Intercâmbios, que incentiva a realização de palestras e workshops para aproximar a universidade da sociedade, bem como o de fazer o espaço acadêmico um local de contemplação. “Eu organizo eventos da aproximação com o mundo acadêmico. A arte está no olhar de quem consegue enxergar”, diz em referência à beleza cênica da universidade revelada no vídeo clipe.

Com criação assinada pela própria artista em parceria com Bernardo Neder e Guilherme Marques e assistência de fotografia de Ronaldo Land, o vídeo clipe explora elementos lúdicos da memória musical brasileira não apenas em decorrência da versão inédita para piano da música de Gismonti, lançada em “Dança dos Escravos” (1989), que remete ao fado como símbolo da miscigenação, desde a transmissão cultural dos mouros em Portugal à influência da tradição musical européia no Brasil, mas também ao narrar o lamento de uma musicista que ora se vê no palco, ora na plateia, na solidão das ondas musicais.

O mar é literalmente colocado em cima do piano, com água e areia da Praia Vermelha, na Urca, em um copo de 1940. “Todo o meu trabalho tem a presença do mar. Onde eu vou eu carrego água do mar e areia. Aquela taça é o meu ponto de contato com esse elemento que, dentro do ambiente do teatro, escuro e fechado, simboliza também a vida do pianista solista. Comecei a tocar com quatro anos e lidei com a solidão do piano a vida inteira, é o melhor amigo, pai e namorado, é uma simbiose”, explica a artista. “São várias as associações com o mar, que fala muito sobre o inconsciente, a memória. Eu queria falar do mar de memória que todos nós temos. E o fado, um estilo que canta com extrema beleza a dor, traz a solidão do personagem. A palavra vem pela imagem e pelo sentimento.”

Gismonti tem grande importância na vida da artista, uma vez que foi tema de mestrado da musicista. O próprio multi-instrumentista foi quem redigiu a versão para piano da partitura de “Memória e Fado” para Cândida apresentar no recital de conclusão de tese. E, na condição de artista imigrante nos Estados Unidos, não vê forma melhor de ter conquistado espaço na exposição de arte americana apresentando uma leitura de um artista como Gismonti. “Nada melhor que a música do Egberto para representar a arte imigrante, ele mesmo um imigrante árabe e o compositor brasileiro que mais representa a nossa música, num patamar mais alto possível. Não tem onde as pessoas não mencionem respeito a ele como um dos maiores músicos do mundo. Sinto-me honrada de representá-lo aqui e de representar essa imigração, que possa ter o valor para o Brasil com qualidade e o lugar de uma obra de arte.”

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