1Mùsica Universal Foto de Cássia Betânia P Rocha

Quem entender morre

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br; Fotos de Cássia Betânia P. Rocha e Adriana Costa

“Eu sinto, mas não consigo entender”, diz o saxofonista Vinícius Chagas entre os intervalos em que tocava seu sax tenor no hall de entrada das salas de ensaio do sexto andar do Sesc Vila Mariana, frente ao imenso vão livre, que corta todos os andares e por onde flutuam, em movimentos circulares, baleias coloridas de um móbile de cerca de 40 metros de altura, idealizado por Chico Niedzielski e batizado de “Vórtice. Vinícius ensaiava com um gaitista uma frase rápida, em uníssono, com notas intrincadas, que o maestro Itiberê Zwarg acabara de lhe cantar momentos antes. Isso mesmo, cantar, usando a voz.

Ao mesmo tempo em que Vinícius reproduzia o som repassado pelo mestre com grande assertividade, usando sua sensibilidade musical aguda, ele buscava na razão um apoio para não se esquecer daquela frase e poder tocá-la ainda mais nítido e ainda mais rápido, como aquele trecho da música pedia. Uma revelação dessas, dita de forma sincera, levaria a Itiberê uma sensação de dever cumprido na essência de suas oficinas de Música Universal, uma das quais foi realizada entre os dias 25 e 30 de agosto na referida unidade cultural paulistana.

Questionado sobre essa impressão muito espontânea de Vinícius, Itiberê sorriu. E respondeu sem pensar duas vezes: “Quem entender morre.” Não por acaso, este é o título de uma música sua presente em “Identidade”, seu último CD, emocionante ao passo em que, em duas músicas, o multi-instrumentista improvisa com a sua própria voz, gravada pela família quando ele ainda era muito pequeno. E, em outra, faz uma homenagem encantadora para seu neto, além de ser um disco magnético do início ao fim.

O curso, que teve a participação de 19 instrumentistas e cantoras de diferentes níveis de experiência, tem como objetivo abrir caminho para a composição de músicas tendo como base o sentir. No campo específico da construção musical da oficina, isso significa para o músico a capacidade de tocar seu instrumento ouvindo apenas as frases cantadas pelo maestro, modeladas pela harmonia que ele próprio cria, ou ainda, em casos específicos, a reagir aos estímulos sonoros de outros instrumentistas no palco, no calor de uma improvisação. Em ambos os casos, se o músico pensar antes de tocar ele “morre”, perde a vez, pois não será a razão capaz de dar conta do recado.

A importância de um curso como esse vai mais além na busca de quase todo músico pela sua libertação da partitura escrita, que sem dúvida é importante, principalmente em orquestras e também na transmissão do conhecimento, mas que pode aprisionar os sentidos. As relações que são estimuladas pelo curso provocam reflexões que se aprofundam ainda mais, desde a forma como a música é ensinada atualmente nas escolas à própria necessidade de uma busca do homem por uma visão holística do mundo que o cerca, que é revelada em seu processo de criação, numa intimidade perfeita com a natureza.

Não seria exagero imaginar essa forma do fazer musical próxima à teorias holísticas que floresceram a partir da década de 1970, como a Teoria Gaia, que acredita ter o planeta uma espécie de inteligência que regula a sua existência, como se vários níveis sobrepostos de sistemas se comunicassem até o cosmo. Uma “memória cósmica”, como explica o cientista Rupert Sheldrake, que está em constante evolução e que propaga o aprendizado instantaneamente no tempo e no espaço, como na Teoria dos Campos Morfogenéticos, que descreve um mundo composto por energia e forma. “Tudo que existe materialmente, ao nível da forma, preexiste ao nível da energia”, explica o jornalista Edvaldo Pereira Lima.

Um mundo que seria complementar à velha e desgastada visão cartesiana, que levou o homem à Lua e o levará também até Marte, mas que não é capaz de garantir à maioria de sua espécie o mínimo necessário para sobrevivência na Terra. Um mundo que não nega o coração. “O mundo está formatado para você negar tudo do coração e aceitar tudo cerebral, entende? O mundo está assim cara, é tudo computador, né? Não que eu seja contra computador, mas assim, o valor que acaba se dando para isso é tão grande, que o nosso sentir fica embotado, entende? Fica para trás, entende? E como a gente faria uma música dessa aqui se tivessem sentidos embotados, né? Não tinha! Eu ia ficar aqui como um bobo aqui e vocês iam falar ‘e aí’? Não é matemática isso. Porque o mundo de hoje é matemática, tudo são cálculos, entende? O mundo está formatado para isso. Mas não existe só isso”, diz o músico, em um de seus discursos mais fortes em todo o curso, cuja íntegra pode ser encontrada no fim do texto.

A oficina teve início no dia 25 com um teste, mais parecido com uma simples audição. Após a escolha de um baterista e de dois contrabaixistas, os outros músicos desses dois instrumentos foram convidados a participarem assistindo, cantando ou na percussão. Estavam presentes violonistas, violoncelista, gaitista, guitarristas, flautista, pianista, percussionista, xilofonista e saxofonistas. O blogueiro do entresons esteve na oficina tocando sax alto, em sua segunda participação. A primeira foi em outubro de 2012 e inspirou o texto “A comunhão de Itiberê Zwarg”, na qual é possível encontrar dicas importantes do músico para o estudo da técnica, explicações sobre o que é Música Universal e sua principal crítica às escolas de música tradicionais.

No segundo dia, com todos na sala, Itiberê esboça acordes ao piano e já começa a cantarolar uma melodia sinuosa, onírica, dando os contornos de uma montanha e o sopro dos ventos. A melodia é apresentada ao gaitista, que consegue captar a mensagem e a tocar, com grande sensibilidade. Todos os acordes e notas são registrados por Ricardo Sá Reston, também multi-instrumentista que faz parte do grupo de Itiberê. E, aos poucos, sentindo o resultado da soma dos sons que vão sendo criados em sua mente e materializados por meio da sensibilidade dos músicos, a composição vai tomando corpo. No terceiro dia, Itiberê chega com uma letra: “Estava na mata, numa cachoeira. Minha alma voou, voou… As nuvens do céu aí, papai do céu pintou.” Em quatro dias duas músicas completas haviam sido compostas. Durante todo o processo, aquela música enigmática, encantadora, ficava gravada trecho por trecho na memória, somatizada em som, aura, em luz. E, sem que nenhuma partitura fosse distribuída, foi realizado o show no dia 30, com muita emoção.

Itiberê é enérgico e generoso, a música salta abundante em suas veias. Tênis, calça de agasalho azul e bata se debatem freneticamente ao ritmo de seu proprietário, que ora pede nos sopros do sax um choro exagerado, ora pede à flauta e ao xilofone os passos titubeantes de um bêbado. Desde o teste, deixou claro que prefere a expressividade ao virtuosismo. E, como já dissera, sua música é expressiva como o teatro. E avisa: evite copiar o jeito de tocar de um músico, contando que sofreu com isso por volta dos seus 17 anos, quando começou a tocar contrabaixo, e fazia parte de uma banda na qual cada integrante furava o disco de seus ídolos para imitá-los no palco.

A partir deste ponto, confira a íntegra de um das mais importantes histórias que Itiberê fez durante o curso, falando sobre afirmação da arte no mundo, a luta de Hermeto Pascoal para se firmar, a necessidade de superar os desafios de um mundo que é inóspito a artistas sensíveis. A transcrição respeita a oralidade do discurso do músico para que possa ficar o mais fiel à forma como foi transmitido:
“Eu chegava lá (no ensaio com outros músicos quando era jovem) meio troglodita – eu era meio troglodita – tocava um negócio que não tinha a ver com nada, e eles olhavam feio prá mim. Eu era meio que deixado de lado. ‘Ih, esse é aquele cara lá, nossa! Ele toca uma música muito estranha, bicho’ Né, pô! ‘Você não quer ouvir o cara não?’ Pô, mas por que? Eu era jovem. Não tinha a força que a gente tem hoje. Uma certeza das coisas que você quis fazer e fez, continua fazendo e vai fazer . Isso se adquire com o tempo de vida, com a experiência. Naquela época eu não tinha, eu ficava com zero. Eu me sentia um peixe fora d’água. E um cara não acolhido, né. Eu sabia que eu era um músico, que eu tinha muita coisa lá dentro prá dar para o mundo e prá aprender com o mundo. Então, eu ficava com zero porque era garoto.

E aí, o tempo foi passando e foi muito louco porque eu fui fazer um som com a Elis, o Cesar Camargo me chamou para tocar com a Elis porque tinham brigado com o Luizão (Luizão Maia), e aí me chamaram. E eu fui lá todo feliz, eu era fã da Elis pô, quem não é? Não é tão difícil ser fã da Elis. Aí cheguei lá feliz, mandando ver, pá pum! Aí, ensaiei 15 dias e um dia antes do concerto o Cesar me chama. ‘Cadê a galera, não vem para o ensaio?’ Um dia antes do concerto. Ele falou: ‘não, eu dispensei eles porque queria conversar com você’.  Falei, o que que é? ‘Sabe o que é, é que o Luizão voltou, sabe o que que é? A gente tem que pensar na gente. Você é muito bom, mas para tocar algumas coisas mais livres assim’. Eu já fui ficando vermelho, né. Pô, o cara me chamar no último dia antes de tocar e falar isso aí, me deixou ensaiar 15 dias bicho, tinha que pelo menos me deixar tocar ao menos um concerto né.

Sacanagem, né. Aí, eu já fui arrumando o baixo, e ele: ‘não, não vai embora não.’ ‘Mas pô, o que eu vou fazer aqui cara? Se tá falando uns negócios aí e no último dia você quer que eu fique aqui. Tchau!’ Eu fui embora.

Aí, um dia que entrei para o grupo do Hermeto né, a gente conversando, a gente ficava horas conversando com o Hermeto. Aí, eu contei essa história para ele. Aí, ele falou assim: ‘Eh, é verdade. Você tinha que tocar num som mais livre mesmo. Tá certo, ele (Cesar Camargo) não estava errado não. Você não tinha nada que fazer lá. E sim aqui.” Olha só, pô… a visão do cara. Que muda tudo assim óh, a perspectiva do olhar, né. ‘Tu é novo cara, é inseguro ainda, é normal. Você está formatando a vida, né. Tá começando a viver.’

3Música Universal Foto de Cássia Betânia P RochaEntão, é muito importante essa fase, que a maioria de vocês está vivendo, tem que ter um respaldo de credibilidade sabe. De ter consciência de que o mundo é inóspito mesmo sabe. O mundo não tem muito acolhimento com artista sensível, sabe? Não tem não. Eles não sabem o que é isso, não é por mal. É… não rola bicho, não tem ligação, sabe? Então, o cara sofre muito porque… isso começa na família bicho, a sociedade, tudo.  Então, isso é lindo, porque logo vê  quem vai ser músico ou não, é uma prova da vida, entende? O cara desiste logo, quando ele vê que está difícil para ele ali ele já… Mas o cara que tem muito som dentro de si fala: ‘Bicho, que venha a prova que vier, que aí eu encaro esse negócio aqui. Sabe? Não tem ladeira aqui, eu quero ser isso nem que eu morra para fazer isso aqui eu vou fazer, vou fazer morrendo e feliz. Mas vou fazer.’

É meio que uma teimosia positiva, assim, teimosia de você encarar o que o teu coração está pedindo. É a teimosia mais linda do mundo isso. Porque, o mundo está formatado para você negar tudo do coração e aceitar tudo cerebral, entende? O mundo está assim cara, é tudo computador né? Não que eu seja contra computador, mas assim, o valor que acaba se dando para isso é tão grande que o nosso sentir fica embotado, entende? Fica para trás, entende? E como a gente faria uma música dessa aqui se tivessem sentidos embotados né? Não tinha! Eu ia ficar aqui como um bobo aqui e vocês iam falar “e aí”? Não é matemática isso. Porque o mundo de hoje é matemática, tudo são cálculos, entende? O mundo está formatado para isso. Mas não existe só isso. Mas o grosso do mundo é isso. Então, a gente tem que ter consciência para não sofrer, entende? Não sofrer bobamente, né. Prá saber que quem está fazendo algo com o coração é uma missão mesmo, entende? É uma missão! Você luta contra isso e tem que lutar para ficar forte. É a musculação né, você chega lá nos ferros e…

A vida do músico é uma musculação, lidando com a vida, com os parentes, com o bairro, com os amigos, e procurando a turma de cada um. Eu sinto no Brasil, de uma forma geral, o mundo eu não sei, não posso dizer porque eu não estou lá fora convivendo, mas aqui eu vejo que temos grandes músicos, muitos talentos absurdos, não temos muitos, em quantidade, trabalhos bons. Falta juntar e fazer grupos e encarar, se não se fica preso na night, só ganhando aquela grana para pagar o aluguel e comer e a vida vai passando e ninguém faz nada, sabe? A gente tem que reagir sabe.

Tem que fazer coisas, nem que for prá tocar no Metrô bicho, sabe? Mas com um trabalho legal, você entra lá e quebra tudo e os caras ficam ‘O que é isso? Esses caras são loucos, hein, porra!’ Eu me lembro que o Hermeto, ele fala sempre prá gente isso e quero contar para vocês porque estou sendo intermediário de um negócio muito importante. Todo mundo falava isso para ele. O irmão dele, os pais dele, os amigos: ‘Hermeto. Essa música que você faz aí bicho, cê vai se dar mal. Isso aí não dá dinheiro cara. Como é que você vai viver Hermeto?’ Ele ficava puto ouvindo isso aí, né. Ele tinha duas boates para tocar, numa ele ganhava 80 e tocava mal, música ruim; na outra ele ganhava 30. Ele ia no 30. Largava do 80 e ficava no 30 porque ele podia tocar à vontade. Porque bicho, não dava para tocar mal, sabe? Tocar mal não dá! Ou ele tocava bem lá e era despedido no segundo dia. Porque os cara lá, a filosofia da casa era prá tocar bem ruim memo, bem comercial. Então, ele ficava no 30 bicho.

E um dia ele estava com a flauta, já era cabeludo… não, não era não. Minto. Ele estava no Quarteto Novo ainda. Nessa época. Mas já tocava flauta prá caramba. Aí ele falou: ‘eu quero ver qual é a minha memo’. Pegou e foi para o Viaduto do Chá, aqui em São Paulo, morava aqui, Viaduto do Chá às 6 da tarde.Pegou a flauta e começou a tocar bicho: ‘dulu lulu lulu éééé!!!’ O coro comendo, sabe? A mil por hora. Começou a juntar gente bicho, começou juntar gente, que começou as pessoas irem prá fora da calçada, na rua, e parou o trânsito. Aí o guarda veio dispersar todo mundo porque estava perigoso, porque na visão do guarda ia acontecer alguma coisa lá. Falou ‘Náááa’ e dispersa todo mundo, mandou todo mundo ir embora aí o Hermeto teve que parar também.

Oficina de Música Universal Apreserntação Sesc Vila Mariana 30082015Mas aí ele percebeu que ele tinha um carisma, isso que ele queria entender. ‘Agora entendo, porque as pessoas não entendem isso. Que eu tenho uma força e preciso fazer isso cara, nem que eu morra, mas eu tenho que fazer’ Entende? E isso foi muito importante para ele, que depois daquele dia lá ele deslanchou na carreira dele, entende? Olha o nome que ele dá nas músicas: ‘Nenhuma talvez’. Olha que nome de música, bicho. ‘Nenhum talvez’ é pesado, é pesado, tem um peso né, o cara que (e faz um gesto de bater nas mãos) É um cara que vai e vai mesmo. Não é vai mais ou menos não: PÁÁÁÁÁÁ!!!! Vai e acontece o negócio, sabe?

Essa energia é a música que dá para a gente. Ela é linda, ela é um troço imensurável. Isso a gente tem que conquistar. Cada um tem dentro de si a sua força, não é igual a do Hermeto. Não tem que ser igual a do Hermeto. A do Hermeto é do Hermeto, né. Sabe lá Deus porque é que ele veio assim, né? Ele tem a missão dele lá, o negócio dele, né. Quanta coisa ele não espalhou no mundo, né? A gente percebe, então, quão é importante é isso aí, né. Mas todos nós somos importantes. Todos nós temos uma coisa que tá aí cara. Os que largam, muitas vezes, e eu tenho visto muito através dos anos, de convivência assim, dos irmãos de som aí, que tinham condição de fazer uma coisa legal e não fizeram, chegam na velhice bicho e ficam, desculpa a expressão da palavra, mas ficam fudidos. É uma tristeza. Porque ele olha quem fez e pensa ‘eu tinha que ter feito isso também.’ Aí, já era né. Já foi! Sabe? Dançou, dançou, dançóvisk.

Então, a gente tem que… a vida ela é curta, a vida física. Não tem muito tempo, você não pode perder tempo com besteira sabe? Com minhoca, sabe? Tem que falar assim: ‘Nenhum talvez. Vamos lá!’ Isso não precisa ser só em música, mas em qualquer atividade da vida é igual.”

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