Papete (1)

Onde o rio encontra o mar

“Se o poeta

Adormece triste

A lua se eleva

Minguante

Carrega em seu sonho

A vida errante

Dorme poeta

Que a música toca

A lembrança encanta

A brisa que da janela

Sopra

Sem dissabores

O infinito universo

Pulsa e afasta

Todas as dores

E o sol, pela manhã,

Enfim,

dá razões

De alegria”

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

O trabalho do músico maranhense José de Ribamar Viana, mais conhecido como Papete, pode ser comparado à água: é tão vital quanto o líquido precioso que alimenta a terra. Pesquisador de ritmos, cantor, intérprete, violonista e percussionista – alçado pela critica europeia ao posto de um dos melhores percussionistas do mundo -, já tocou com Vinicius de Moraes e Toquinho, Almir Sater, Renato Teixeira, Rita Lee e conviveu com músicos como Edú Lobo, Geraldo Vandré, Paulinho da Viola, Jorge Ben Jor, Luis Carlos Paraná, Chico Buarque, Gilberto Gil, Claudete Soares, Clara Nunes, Gonzaguinha, Ivan Lins, Luiz Gonzaga, Marilia Medalha, Lupiscinio Rodrigues entre outros artistas que se apresentavam no mítico bar Jogral, que entre as décadas de 1960 e 1970 era um espaço de grande efervescência cultural em São Paulo.

Papete completará 68 anos em novembro de 2015, mês que escolheu para fazer o lançamento em São Paulo de dois trabalhos, já lançados no Maranhão, que mostram, de um lado, a profundidade da cultura popular maranhense e, de outro, sua projeção no mundo enquanto cultura pop. O primeiro é o livro “Os Senhores Cantadores, Amos e Poetas do Bumba Meu Boi do Maranhão”, no qual revela a história dos 34 mestres mais representativos do Bumba Meu Boi no Estado; o segundo é o CD duplo “Sr. José… de Ribamar e outras praias…”, uma verdadeira fonte da juventude do artista, que ao usar técnicas simples de gravação e levar um espírito de esperança em sua interpretação o faz soar como um garoto de 20 anos. Além de canções recentes escritas por compositores maranhenses, entre canções já consagradas, o trabalho – que em São Paulo se chamará simplesmente “Sr. José” -traz uma nova interpretação do premiado “Bandeira de Aço”, gravado em 1978 e que se tornou bem imaterial do Maranhão em 2013 por iniciativa de um deputado. Papete ainda prepara um livro de memórias.

“Desde 1991 que eu me preocupo com a morte dos cantadores, poetas, cantadores do Bumba Meu Boi maranhense. E todos ele são senhores da velha guarda, composta por pessoas com mais de 70 anos, alguns com 80… tem um que faleceu com 96 anos há dois meses, o seu Apolônio Melônio, que é o amo do boi da floresta, sotaque de Pindaré. E, assim como ele, tantos outros, ícones, baluartes da cultura maranhense”, diz Papete, que concedeu uma entrevista ao entresons nos dias 6 e 7 de agosto.

“Ninguém se preocupa, porque tudo é festa. Enquanto eles estão fazendo a festa está lindo, mas quando acaba a festa ninguém quer saber como eles vivem, como que eles sobrevivem, que é muito pior. E eu fui percebendo… esse pessoal está morrendo, alguém tem que registrar a história de vida deles. O Bumba Meu Boi é patrimônio imaterial do Maranhão, já decretado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e coisa e tal. É a mesma coisa que você ter uma cidade que é patrimônio material da humanidade e ela ser toda esburacada, as casas caindo aos pedaços, sem restauração, que é o que acontece em São Luis, que patrimônio cultural da Humanidade, mas é uma cidade abandonada. Arquitetura, o maior conjunto de azulejos do Brasil, quiçá do mundo,mas ninguém cuida, eles reformam mas não restauram,que há uma diferença bem grande aí. Reformar é uma coisa, restaurar é outra.”

Acompanhado de fotógrafos e cinegrafistas, Papete trabalhou cinco anos no projeto do livro entrando mato adentro para conhecer a vida dos mestres do Bumba Meu Boi. O livro, com 164 páginas, foi lançado em agosto de 2015, em São Luiz. Foram impressos 1.500 exemplares, que foram distribuídos para escolas municipais, estaduais, universidades e bibliotecas. Papete conta que a ideia do livro é a de dar dignidade aos mestres e colaborar para que a tradição não pereça frente à invasão de ritmos duvidosos que ganham cada vez mais espaço nos meios de comunicação e entre a própria população.

Capa do livro 'Os Senhores Cantadores Amos e Poetas do Bumba Meu Boi do Maranhão'“O Boi Zabumba, que é um dos sotaques do Bumba Meu Boi, por exemplo… 40% dos grupos desapareceram. E é o boi mais africano no ritmo, feito pelos escravos das fazendas de cana-de-açúcar do século 18. Está desaparecendo! E com essa invasão massiva desses gêneros… Seria antiético dizer, porque são colegas de profissão, entre aspas, mas quer coisa pior que Aviões do Forro, Calcinha Preta?”, bandas que na opinião do músico produzem músicas vulgares, de duplo sentido, que não representam a cultura do Nordeste.

“Houve uma época em que a música nordestina foi repaginada com bandas como Limão com Mel, que era uma repaginada bonita de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro. Mas descambou para essa merda com música de duplo sentido, show de beira de estrada, vulgar, isso não representa a cultura do nordeste não, que é muito mais rica. O forro pé de serra é bom demais, mas não é só isso. O Lenine é um cantor pernambucano moderno, o Alceu Valença é pop, o Gilberto Gil faz baião pop, para o mundo… deixa de ser música étnica para ser universal. Mas para inovar, precisa ter a base, precisa do homem. E cadê o homem? Está desguarnecido, não tem apoio, reconhecimento.”

O músico compreende que os meios de comunicação são pressionados pelo Ibope, responsável por mensurar o valor das cotas de patrocínio de cada veículo de comunicação, e acredita que o jornalista e, muitas vezes, os donos dos meios de comunicação, desejam divulgar arte de qualidade, mas são pressionados por esse fenômeno contemporâneo complexo de se entender no qual a expressão se distanciou dos conceitos da poesia, melodia e harmonia. Ele lamenta que um artista como MC Guimê seja visto como poeta. “A moçada acha que ele é poeta. Ele é ruim! Não tem o mínimo de educação, não comportamental, ele pode ser muito bacana, mas ele não tem instrução para fazer uma letra, com definição e objetividade. Pode ser que ele venha a ter, se ele conviver com pessoas mais letradas.“

Para o artista, a informação e a educação são essenciais para que a cultura brasileira aflore. A informação de que existe outra dimensão da cultura, invisível aos olhos do grande público por meio dos veículos de massa, é importante para mostrar um outro Brasil. Além disso, o músico defende uma formação cultural mais forte na escola, não apenas no que se refere ao ensino da música, mas à história da cultura popular brasileira. Para ele, o público que acompanha esses novos artistas de qualidade questionável gosta apenas de cerveja e azaração, não está nem pensando no que se ouve do palco. E acredita que é no interior do Brasil que a arte pulsa com maior intensidade que nas grandes capitais.

“O povo é ignorante, mas não é burro. E eu te falo isso depois de trabalhar com o Almir Sater, de 1999 a 2013. Eu viajei o Brasil inteiro. É João Guimarães Rosa que ensina o que é o País, é Erico Veríssimo, João Pacífico… são esses caras que revelam a visão interiorana do homem brasileiro. Cidade não é referência, cidade é um antro de gente maluca, que se engalfinha na rua, nos shoppings, nos teatros. No interior ainda se vive a calma, a ingenuidade e a inocência do homem, que resultam na sintonia da qualidade e sensibilidade. Gente humilde e simplória fazendo coisas maravilhosas, em todos os tipos de arte.”

É com essa mesma sabedoria do homem do interior que Papete, músico que na década de 1970 integrou a equipe de pesquisa da gravadora do publicitário Marcus Pereira, que mapeou os sons de todo o País, lançou-se a gravar seu 23º CD “Sr. José… de Ribamar e outras praias…”. A sensibilidade aguçada pelos ritmos brasileiros e dos compositores de sua terra afloraram nesse trabalho não apenas pelo que há de belo na cultura popular, mas pelo amor que há numa forma de expressão da música universal.

Papete não pensava em voltar a um estúdio, até que em um domingo de 2013, enquanto ele lavava a louça do almoço, o som de um DVD que sua esposa comprara o fez sonhar novamente em fazer música. Era o segundo DVD do “Live for Change – United Musicians Around the World”, projeto criado em 2007 com a finalidade de unir os povos a partir do som dos músicos de rua.  “Voltei a lavar louça, mas aquele som entrava mais em mim. Aquilo começou a mexer comigo e pensei:  ‘gente, era tudo que eu queria fazer na minha vida!’ Aqueles músicos de rua, sendo gravados de uma forma descompromissada, mas comprometido com o projeto social das escolas de música que eles criam no mundo inteiro, para criar cidadãos pela música… Eu comecei a ouvir compulsivamente, e ficava ouvindo, ouvindo, e pô, vou fazer um disco com essa sonoridade.E chamei meu tecladista Murilo Regô, que toca há 22 anos comigo, ele olha prá mim e já entende.”

O CD foi sendo gravado em pedaços, em cada momento era acrescentado um instrumento, sendo que Papete tocou bateria, cantou e fez toda a percussão do trabalho, com músicas especiais de compositores maranhenses como Josias Sobrinho, Erasmo Dibel e Alberto Trabulsi, além de composições de Pat Metheney, Almir Sater, Paulo Simões, César Costa Filho, Oscar Castro Neves, Carlos Pial e Ary Barroso. O segredo de uma voz tão jovial foi gravar com a boca grudada no microfone, quase que sussurando. O espírito livre, de esperança, na língua universal da música, contagiou também a releitura de “Bandeira de Aço”, apesar de algumas críticas de que o autor teria descaracterizado a obra.

Os jazzistas brasileiros, que com razão defendem gravações ao vivo e sem edições, não podem negar que o resultado de produções como a que realizada por Papete em “Sr. José” são verdadeiras obras-primas, música com destino a um público mais amplo. Mesmo lutando contra um câncer, Papete está jovem como nunca antes, chegando ao ponto onde as águas barrentas do rio da vida se encontram com o oceano. Papete é a água da “Mãe Natureza”, a última faixa de Sr. José.

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