Caminhos de Papete

Músico maranhense teve que dar relógio em troca de comida para não passar fome em São Paulo

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

O músico maranhense José de Ribamar Viana, o Papete, está escrevendo um livro contando a história de sua vida, desde os apuros que passou ao chegar em São Paulo, em 1968, até as conquistas, como  gravar 23 CDs, conhecer músicos admiráveis, subir ao palco de prestigiados festivais, como o de Montreaux, na Suíça, e ser reconhecido como um dos maiores percussionistas do mundo. Papete lançará em São Paulo, em novembro, o contagiante CD duplo “Sr. José” e o livro “Os Senhores Cantadores, Amos e Poetas do Bumba Meu Boi do Maranhão”, que eterniza a vida de 34 mestres do Bumba Meu Boi. Leia aqui. Nos dias 6 e 7 de agosto, a reportagem do blog entresons pode ficar bem perto deste músico culto e polêmico, que conhece os ritmos dos toques das mais variadas tradições da cultura popular brasileira.

A sensibilidade dos sons da cultura popular fez morada em sua alma literalmente pela janela, que deixavam ressoar para dentro de sua casa em São Luiz os mais variados ritmos da cultura popular protagonizados na rua, que o seduziram logo cedo. Papete acreditava que já era músico antes de empreender a aventura de viajar para São Paulo, recebendo passagens de ida e volta das mãos do então governador do Maranhão, José Sarney. Com a mala pronta e o endereço do pintor cearense Aldemir Martins, que lhe foi indicado pelo irmão do artista que morava em São Luiz, Papete chegou na capital paulista com 20 anos, em pleno inverno. Ao chegar na casa de Martins, encontrou tudo fechado. O pintor havia viajado para uma exposição em Veneza, e a sacra folia de Papete estava apenas começando.

“Resumo da ópera: fui lavar banheiro de restaurantes do centro, na Boca do Lixo, na Avenida Rio Branco e suas travessas. Eu lavava banheiro em troca de um prato de comida, no fim da noite. Não sabia se era resto de quem comeu. Mas eu estava com fome. Eu dormia na estação rodoviária que ficava na Duque de Caxias.  Fui aprender a fazer brinco com hippies e trocava por amendoim torrado. Era essa a minha comida”, diz o músico, enquanto saboreava uma de suas bebidas prediletas em uma padaria da Vila Madalena: leite com ovo maltine.

A situação foi piorando e, certo dia, estava morrendo de fome próximo a um restaurante da rua Aurora chamado “Um Dois, Feijão com Arroz”, entre a São João e a Vieira de Carvalho. “Aquele cheirinho de feijoada… e meu estômago colando na coluna… Aí, cheguei: ‘quanto é a feijoada?’ Eu nunca me esqueço o preço. Era uns 12 mil cruzeiros, seria hoje uns 12 reais, era a mini-feijoada. ‘Olha, eu não tenho dinheiro não, mas eu queria comer uma feijoada.’ ‘O que você tem para dar em troca?’ ‘Eu tenho esse relógio aqui.’ Rapaz, foi a maior vergonha que eu passei na minha vida.” Lá da ponta ele gritou – de um restaurante estreito e cumprido. ‘Sai uma mini aqui prá mesa que ele vai deixar o relógio!’. Eu não sabia se eu corria, pegava o relógio de volta… Mas eu estava com fome cara e eu comi a feijoada.”

Por ser espírita, hoje ele avalia que ter vindo para São Paulo era um designo da vida. “Tipo, chegou a tua hora. Mas você vai comer o pão que o diabo amassou para você aprender a dar valor a tua dádiva, ao seu dom de ser músico. Eu não era músico, não sabia tocar nada, só batia palma. Compunha umas musiquinhas, coisa e tal, interessantes, tal. Eu achei que eu estava pronto. Eu ia pegando as coisas muito rápido. O velho Sarney me deu a passagem. Um amigo meu que tocava violão comigo, Chico Saldanha, com quem fiz algumas músicas, ele era assessor de gabinete dele. ‘Meu filho, estou lhe dando passagem de ida e volta, porque se você não gostar, volta para a sua terra!’ E eu nunca voltei, perdi a passagem. Nem o hippie mais convicto do mundo teria feito uma loucura dessas. Fui muito ‘easy rider’.”

Nessa época, a pessoa que mais o ajudou foi uma garota de programa. “Uma mineirinha de Juiz de Fora. Ela gostou muito de mim, me chamou para morar na casa dela, não como homem dela, mas como amigo. Ela dividia o apartamento com outra menina que trabalhava com ela e a filha dela. E tinha uma regra: não entrava homem lá. Eu ajudava, ia na feira, na padaria, limpava o apartamento, lavava louça e ela me acolheu por 30 dias. No final, a gente transou, e ela chorava. E dizia ‘puxa vida que pena, nossa vida, não ia dar certo mesmo…’ Eu já estava meio encaminhado. Conheci o Cid Mangarosa, do restaurante Toca da Baiana, em Santo Amaro. Eu tocava uma besterinha de percussão e acabei ficando com ele. E ele fechou o restaurante e foi para o Guarujá, os poderosos e donos da bufunfa iam lá, o restaurante ficava ao lado da casa que o Paulo Maluf tinha (ou tem ainda) no Guarujá.”

Papete 2A agitação cultural na praia à época era grande e foi lá que Papete começou a entrar ainda mais no universo da música, aprofundando-se nos instrumentos de percussão, aprimorando a voz e o violão, além de aprender a tocar berimbau. E lá conheceu um publicitário que o levou direto para o Jogral, bar paulistano que entre as décadas de 1960 e 1960 fervilhava. Por lá passaram músicos e personalidades como Paulo Vanzolini, Maysa, Ivan Lins, Gonzaguinha, Duke Ellington, Oscar Peterson, Gato Barbieri, Mercedes Sosa, Cartola, Claudete Soares, entre muitos outros.

“Era o Olimpo da música brasileira, era um desfile de estrelas, constelação de gente boa. Todo músico americano e cantor estrangeiro tinha que passar pelo Jogral. Tinha noite que a gente nem tocava. A canja do Jorge Ben Jor começava às 3h e terminava às 5h. Eu toquei lá de 1970 a 1978, e nunca mais na minha vida toquei à noite, em homenagem ao Jogral. Depois que você toca no jogral não dá para tocar em outro lugar mais, na minha cabeça era um retrocesso. Bobagem… Mas naquele tempo eu pensava assim”, lembra o músico.

Matéria do jornal Valor Econômico, de fevereiro de 2004, informava que Max Eluard, editor do site sobre MPB “Gafieiras” (www.gafieiras.com.br), lançaria um documentário sobre o Jogral. O entresons entrou em contato com o site, que, por meio de Ricardo Tacioli, informou: “Infelizmente, o documentário sobre o Jogral não foi finalizado. Na ocasião (2003/2004) foram realizadas diversas entrevistas com antigos frequentadores da ‘casa de samba’ de Luiz Carlos Paraná. Ainda é um desejo finalizá-lo.”

Além de Luiz Carlos Paraná, tinha sociedade no bar o publicitário Marcus Pereira, apaixonado por música que criou uma gravadora, que chegou a lançar Cartola, além de realizar uma grande pesquisa por todos os ritmos das tradições da cultura popular brasileira. Foi com Marcus Pereira que Papete gravou seus dois primeiros CDs, incluindo “Bandeira de Aço”, revisitado em novos arranjos agora pelo músico no CD duplo “Sr. José”. De 1979 a 1991, Papate trabalhou com Toquinho, chegando a se apresentar por dois anos com Vinícius de Moraes, até a morte do poeta. Mas suas viagens pelo mundo com Toquinho, suas lembranças do camarim lotado de Vinicius de Moraes, seus shows com Rita Lee, Almir Sater  e Suíça afora ficam para serem contadas pelo próprio músico, assim que sua autobiografia estiver pronta.

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