Foto de Luís Dávila - Vila Imagem — com Mario Aphonso III em Munhoz MG

Música em ponto de mutação

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br; foto de destaque de Luís Dávila – Vila Imagem, com Mario Aphonso III em show da Orkestra Bandida em Munhoz (MG)

É possível que seja mais comum que se imagina a ocorrência diária, em qualquer parte do mundo, de um final de tarde parecido com aquele das últimas cenas do filme “Ponto de Mutação” (Mindwalk, EUA, 1990), inspirado no livro “O Ponto de Mutação”, de Fritjof Capra (1983). No filme, uma cientista, um político e um poeta debatem as barreiras para se colocar em prática uma nova visão da vida não mais baseada no modelo cartesiano, que reduz o tempo e o homem a máquinas, mas em uma perspectiva integrada, em um sistema complexo de relações. Debates como este do enredo do filme estão na base de movimentos como o de defesa do meio ambiente, que floresceu em escala planetária nos anos 1980, de novas abordagens científicas, além de instigaram novas concepções sobre a cultura e a arte.

Independentemente de terem visto o filme e compartilharem ou não as ideias sobre a teoria dos sistemas e da física quantica, dois artistas brasileiros de universos diferentes tiveram um por do sol semelhante ao do filme, representando o poeta, aquele que constrói a invisível teia de sentidos de uma nova forma de estar no mundo.  Mario Aphonso III e MC Joul, cada um do seu jeito, criaram movimentos artísticos e sociais a partir da fusão da cultura brasileira com a norte-americana e a oriental, promovendo uma mudança de percepção estética e educativa.

“Se você olhar para um pedaço de madeira, verá algo sólido. Mas se for possível usar um potente microscópio, verá grandes espaços entre os átomos. Podemos nos imaginar assim, mesmo com o espaço entre nós, formamos algo maior”, diz Mario Aphonso, 52 anos. Nascido no Espírito Santo, em uma grande família de ciganos, aprendeu a tocar muito cedo, participando ativamente das festas promovidas em sua casa. Seu pai, um grande animador de festas, era também amigo de muitos artistas que em sua casa se hospedavam, e grande colecionador de discos.

Mario Aphonso cresceu ouvindo muita música, de Jimi Hendrix, Moacir Santos, Nelson Gonçalves a Ravi Shankar. Quando já havia passado do piano para flautas, saxofones e clarinetes, Mario Aphonso foi levado pelo pai para ver um show no Rio de Janeiro com o músico indiano Pandit Hariprasad Chaurasia, que tocava com Ravi Shankar uma flauta oriental chamada bansuri. O som daquele instrumento fascinou Mario Aphonso, que se tornou aluno de Chaurasia, encontrando-o sempre quando o músico passava pela América Latina e na Europa.

Após atuação intensa na música instrumental brasileira, tendo como padrinho musical Hermeto Pascoal, Mario Aphonso voltou a pesquisar a música oriental em 1998, quando se uniu à dançarina Yasmin Nammu. A partir de então, conheceu muito do universo da música e danças orientais e recebeu um convite para gravar dois CDs em 2000, que tiveram importante contribuição nas mudanças que viriam no futuro: “Arabesque” e “Arabesque e a Dança do Fogo”. Sua pesquisa o levou a Istambul, na Turquia, onde estudou com um mestre sufi , que constrói suas próprias flautas, cada uma delas inspirada a partir dos sete chakras do corpo.

A experiência foi tão intensa que quando ele voltou ao Brasil caiu em profunda depressão, ao perceber que muito de seu trabalho não lhe pertencia e em decorrência a esse choque intercultural e chegou a ficar com o corpo completamente paralisado, tendo plena consciência do que ocorria a sua volta, mas sem capacidade de responder. Foi então que percebeu que tudo seria em vão se não pudesse transmitir sua experiência, de 35 anos de pesquisa de música oriental, para os meus jovens. E criou, em 2010, a Fundação Tarab, da qual saíram oito bandas que exploram a fusão da sonoridade ocidental com a oriental.

Grupo Yaquin, um dos oito projetos que nasceram na Fundação Tarab, lança seu primeiro CD em 2015

Grupo Yaquin, um dos oito projetos que nasceram na Fundação Tarab, lança seu primeiro CD em 2015

“Eu entrei em uma crise profunda, olhei todos os discos, todo o meu material. Me liguei que se tivesse morrido meu trabalho seria em vão. Depois de 20 capas de Caderno B, de Ilustrada, esse papel depois embrulha peixe no outro dia. Eu sentei duas vezes na cadeira com o Jô Soraes, duas vezes no Faustão.O ‘Arabesque’ vendeu mais de um milhão de discos, e continuo morando aqui. O fonograma não me pertence. Então, eu acordei de um sonho estranho e percebi que tudo isso… Essa corrida toda, essa loucura toda, isso é besteira. Porque a única força de transformação que a gente vai ter é na formação. Ao invés de brigar, ficar puto, morrer, eu vou ensinar os jovens, vou passar minha experiência para as pessoas. E foi o que eu fiz, eu mudei o mercado”, diz, em relação à grande receptividade do público em relação aos projetos que nasceram da fundação, como a Orkestra Bandida, Grand Bazaar, Mutrib e Yaqin, que acaba de lançar seu primeiro CD. Mais dois projetos devem ser lançados neste ano, sendo um que será uma fanfarra de rua com influência das músicas dos Balcans.

“Tarab é uma palavra que não existe no ocidente”, explica ele. “É uma sensação, um prazer, um êxtase que se consegue através de uma boa música ou uma boa comida. A fundação tem como objetivo despertar isso nas pessoas. A nossa ferramenta é a música oriental. Mas não é nosso objetivo ensinar as pessoas, a gente tem consciência que não ensina ninguém, a gente ajuda a lembrar. Porque as coisas que a gente trabalha estão no inconsciente coletivo, estão na memória, no DNA existencial da humanidade. Para nós, a música não é um processo racional, mas sim um processo existencial. E esse processo não é especial para pessoas especiais. A música é para todo mundo, é um bem maior do ser humano. O que você vai fazer com isso é o que vai definir se é arte, mas isso não deve ser exclusividade de um grupo. Nosso objetivo não é fechar dentro de uma estrutura, trabalhamos com a criatividade, para que as pessoas existirem dentro daquilo. Não queremos que as pessoas toquem como os árabes, os turcos, mas queremos mostrar outra concepção de música que parece perdida no Ocidente. A música do Ocidente se tornou, invariavelmente, uma corrida de cavalo: vale quem chega primeiro, quem toca mais rápido, com todas aquelas caras e bocas.”

Mario Aphonso também evita se referir ao trabalho da Fundação como de ensinar música árabe, mas sim os elementos da música oriental. “Eu não falo que o que fazemos é música árabe, mas há no nosso som elementos de música oriental, com escalas com um quarto de tom, com influências que vão do Vale da Caxemira até a Espanha. É difícil definir onde começa o Ocidente e onde termina o Oriente”, explica. Além de ter se transformado uma referência nacional em música oriental, Mário Aphonso ainda mantém vários projetos de música ocidental, como o Jobim Instrumental, show no qual apresenta composições instrumentais de Tom Jobim.

 

Orkestra Bandida imprime sua própria moeda: o dólar bandolo, valorizado em relação ao dólar americano.

Orkestra Bandida imprime sua própria moeda: o dólar bandolo, valorizado em relação ao dólar americano.

Da fusão da música oriental com a ocidental, passamos para a apropriação do hip hop como instrumento educativo. Jodson do Nascimento Silva nasceu em Jaboatão dos Guararapes e se mudou para Diadema com apenas um ano de idade. Ouvia um pouco de tudo na adolescência, de Pixinguinha, Led Zepplin a Luiz Gonzaga, mas foi a cultura hip hop que o marcou profundamente. “Eu tive muita dificuldade com a escola.  Mesmo vivendo em Diadema, a cidade mais violenta do planeta, minha mãe dizia que educação era a chave para sair da margem da sociedade. Foi aí que decidi fazer um rap para estudar para uma prova e tirei dez, quando eu tinha 15 anos. A professora disse que eu havia colado na prova. Mas expliquei que havia feito um rap, sobre a anatomia do corpo humano. E minha vida mudou de lá prá cá, porque a galera começou a me olhar diferente”, diz ele que fundiu seu nome ao Soul, resultado em MC Joul.

Quando percebeu que o rap “Concreto e Anatômico” poderia ajudar outros estudantes, ele começou a sonhar em montar um grupo e, até mesmo dentro do movimento hip hop, ele foi alvo de muita piada e desconfiança. “Fiz uma oficina com 15 moleques, apenas dois gostaram e com eles montamos um grupo. A questão é que o rap até então teve um papel importante de se discutir a violência, o cotidiano. Mas não discutia saídas disso. Os caras falam, mas não discutem a mudança da realidade. E a mudança é estudar, é crescer como ser humano. O hip hop me aproximou dos valores de solidariedade. A gente falava muito do problema e não apontava solução, que é mostrar para a criançada que se continuar querendo saber os direitos, mas sem conhecer os deveres, não funciona, fica engessado.”

MC Joul: "E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem da vida."

MC Joul: “E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem da vida.”

Assim foi criado o Matéria Rima, em 2002, hoje com dois álbuns lançados tendo como inspiração muitos dos temas que fazem parte do cotidiano de uma sala de aula, que se transformou em um projeto educacional que já beneficiou 13 mil crianças nas cidades de Barueri (entre 2010 a 2012) e Diadema (desde 2013). “Quando se falava em hip hop para diretor de escola, ele até fazia o sinal da cruz. Hoje, os professores atuam diretamente no projeto, temos coordenadores pedagógicos, realizamos workshops incentivando a leitura, o grafiti, o ensino da música”, diz.

Hoje o projeto Matéria Rima emprega 25 pessoas e são realizadas oficinas em 15 escolas municipais de Diadema. O filho de Joul, Nicolas MC, 16 anos, sempre participou dos projetos do pai e, agora, também acabou de lançar seu primeiro CD autoral. Para os críticos de culturas que vieram do exterior, saudosistas de uma visão de uma cultura “genuinamente” brasileira, o Matéria Rima também tem remédio. Além de utilizar a cultura hip hop para se aproximar da realidade das crianças da periferia, o projeto também realiza oficinas de ritmos nordestinos com ajuda do rapper pernambucano Zé Brown e literatura de cordel, mostrando que cultura não é um quadro estático.

“Nas oficinas, usamos o hip hop mas queremos abrir a mente das crianças para tudo o que o mundo pode oferecer. Devemos gostar da diversidade, não chamar o outro de quatro olhos só porque usa óculos, e também não podemos ter preconceito com outros estilos musicais. A gente abre o leque para a criança criar. Você só consegue entender quando recebe o olhar da criança e vê o que ela produz. O Brasil vai ser uma coisa linda de se viver”, afirma Joul, hoje com 36 anos.

Mario Aphonso e MC Joul são dois de vários exemplos sobre como novas concepções sobre arte e educação podem surgir da união de pontos de vista construtivos de diferentes culturas, apesar do avanço da globalização e do capitalismo que desejam uma padronização mundial. Em dois artigos publicados em 1997 na revista de antropologia Mana, o antropólogo Marshall Sahlins argumenta que a globalização, “longe de impor uma hegemonia monótona sobre o planeta, têm gerado uma diversidade de formas e conteúdos culturais historicamente sem precedentes”, afirma, em uma crítica à uma visão de cultura manchada pela deformação que o Ocidente exerceu sobre comunidades locais, culturas que até hoje, erroneamente são chamadas de “primitivas”. Ao relatar estudos de uma série de comunidades em ilhas do Pacífico, América Latina e África, pesquisadores mostraram que apesar da imposição da cultura ocidental a esses povos, suas tradições não desapareceram, mas sim se reafirmaram e se transformaram, mostrando ao imperialismo “que ele não está lidando com amadores nesse negócio de construção de alteridades e produção de identidades”.

“Estamos diante de uma nova organização mundial da cultura humana e de novos modos de produção histórica. No plano mundial, a humanidade, unificada pelos fluxos culturais globais que correm pelos canais da integração econômica, está começando a coincidir efetivamente com a espécie humana. Mas, ao mesmo tempo, ao se infletirem localmente, os fluxos globais diversificam-se de acordo com esquemas culturais particulares”, afirma nos dois artigos “O ‘pessimismo sentimental’ e a experiência etnográfica: por que a cultura não é um ‘objeto’ em vias de extinção”. Se transformações assim ocorrerem em sociedades de cultura em pequena escala, muitas outras transformações simbólicas ocorrem dentro do próprio sistema Ocidental, muitas vezes resgatando valores que foram sufocados durante o colonialismo. O sol se põe mais uma vez no horizonte, para no dia seguinte, novos pontos de mutação surgirem.

Crianças em “Aulão” do Matéria Rima na Semana da Criança na Emeb Átila Ferreira Vaz, em Diadema, no dia 14 de outubro de 2015. Hip Hop educativo ajuda estudantes do ensino fundamental a aprender matemática, geometria, geografia, português, história, biologia por meio da música, dança, discotecagem e artes gráficas.

Crianças em “Aulão” do Matéria Rima na Semana da Criança na Emeb Átila Ferreira Vaz, em Diadema, no dia 14 de outubro de 2015. Hip Hop educativo ajuda estudantes do ensino fundamental a aprender matemática, geometria, geografia, português, história, biologia por meio da música, dança, discotecagem e artes gráficas.

Comentários
2 Respostas para “Música em ponto de mutação”
  1. Maicira Trevisan disse:

    Namastè!

  2. Mano Braz disse:

    Parabéns para o Matéria Rima , vendo eles fazendo isso me sinto representado no Hip Hop pois sempre defendi este Hip Hop nas escolas…PARABÉNS

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