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Choro nas “brechas” da indústria cultural

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

A violência tem início dentro da própria redação de um veículo de comunicação, disse-me certa vez Belarmino César, um grande professor de Teoria e Comunicação de Massa da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), em uma conversa informal, para explicar o por quê a tragédia tem amplo espaço na cobertura jornalística. À época, por volta de 1995, achei interessante a avaliação, mas parecia muito carregada pela Escola de Frankfurt, que desenvolveu teorias críticas a partir de várias áreas das ciências sociais que avaliaram o impacto dos meios de comunicação no crescimento do nazismo e da influência do capital sobre a informação e a arte, transformados em produtos de consumo.

Querendo atuar como repórter o quanto antes, preferia pensar no texto “As brechas da indústria cultural brasileira”, de Carlos Eduardo Lins da Silva, ao suposto fatalismo da Teoria Crítica. Após 20 anos, reconheço que César estava certo, mas que brechas também existem, mas podem custar caro tanto para quem trabalha em um veículo à esquerda ou à direita do espectro político. No caso específico da música há, também, implicações, pergunte a qualquer repórter. Isso ocorre especialmente com o choro, gênero que surgiu na união de ritmos africanos com a polca europeia, num esforço imenso de grandes instrumentistas e compositores em se criar uma música brasileira.

A dificuldade em se difundir música por dentro das engrenagens da máquina de informação não é restrita a profissionais da área. Há quatro anos, o bandolinista Izaias Bueno de Almeida vem batalhando para criar um programa de televisão para difundir o choro, sem sucesso. “Eu tive duas reuniões com o Fernando Faro (TV Cultura) e, na época, eles pediam patrocínio. A ideia do Fernando Faro é realmente o de fazer um programa assim, eu sei. Entreguei um projeto para a TV Gazeta também. Se fosse possível fazer isso, seria um grande ganho para a cultura, pois poderíamos contar a vida dos compositores, mostrar a música, gente nova fazendo choro, seria uma coisa boa isso”, diz Izaias, uma enciclopédia do choro que conheceu gente como Pixinguinha e Abel Ferreira. Para ele, Estados Unidos e Argentina são dois países que valorizam sua cultura, o jazz e o tango, respectivamente.

Por que cargas d’água as rádios e os programas de televisão não dão espaço para o choro no Brasil? “Talvez porque no Tango, por exemplo, tem lá uma letra, enquanto que o choro é melodia. Dessa forma o público espera uma história, coisa que não tem no choro…” Pode ser. Mas pode ser mais profundo ainda, usando, à tira colo, uma citação do livro “O som e o sentido”, de José Miguel Wisnik: “Um único som afinado, cantado em uníssono por um grupo humano, tem o poder mágico de evocar uma fundação cósmica: insemina-se coletivamente, no meio dos ruídos do mundo, um princípio ordenador. Sobre uma freqüência invisível, trava-se um acordo, antes de qualquer acorde, que projeta não só o fundamento de um cosmos sonoro, mas também do universo social. As sociedades existem na medida em que possam fazer música, ou seja, travar um acordo mínimo sobre a constituição de uma ordem entre as violências que possam atingi-las do exterior e as violências que as dividem a partir de seu interior.”

O princípio ordenador, que une o Brasil pelas teias da indústria cultural me parece ser, preferencialmente, aquele promovida pela Som Livre, que tem amplo espaço nos programas da TV Globo. Apesar de não tocar no rádio, nem ser exibido na TV, o choro está mais vivo do que nunca, com jovens compositores, interpretes e iniciativas corajosas e bem sucedidas como o do grupo Saracotia, que funde choro com outros estilos e o grupo de choro tradicional Água de Vintém, de Piracicaba. Um festival que já está em sua 12ª edição prova que agora é a hora do choro, como afirma Fátima Camargo, diretora do projeto Contribuinte da Cultura, responsável pelo festival internacional Chorando Sem Parar, realizado em São Carlos.

Neste ano, o evento homenageia Heitor Villa-Lobos e o violonista Turibio Santos (foto). São mais de cem artistas participantes, que vem se apresentando desde o dia 30 até domingo, dia 6 de novembro, quando haverá uma maratona de shows das 10h da manhã às 10h da noite (leia a programação no site do evento). Entre os patrocinadores, há uma retransmissora da TV Globo na região de Campinas. Realmente não deixa de ser uma “brecha” (a) bem suada, visto que seu telejornal regional é, do início ao fim, “puro sangue”.  O entresons buscou discutir com Fátima os motivos pelos quais o choro não tem repercussão na mídia, bem como suas relações com o jazz.

Em sua avaliação, por que o choro perdeu espaço na mídia? O bandolinista Izaias Bueno de Almeida, por exemplo, vem batalhando para conseguir colocar no ar um programa de choro na TV brasileira. Isso me preocupa porque há falta de acesso do público para esse gênero musical e gostaria de entender por que o choro perdeu espaço.

Fátima Camargo – Eu vejo isso como coisa natural dos interesses. Acho que o choro, que teve o seu auge num momento, teve um tempo de vida de modificação estrutural de harmonia e da mistura de como ele foi sendo criado e como ele se tornou um gênero forte, principalmente à medida que era ao mesmo tempo combatido, como tudo que aparece de novo. Quando o interesse caiu pelo choro e ficaram as pessoas que lutavam pelo choro, a gente teve a fase do choro ser visto como um gênero de pessoas mais velhas. Mas houve um movimento de revitalização, como no Rio de Janeiro, com atuação do Paulinho da Viola, Maurício Carillho, Luciana Rabello, Raphael Rabello em prol do choro. Eu vejo tudo como um evento meio cíclico, como o que aconteceu com a bossa nova, até com o rock, que desce e sobe. É bastante difícil para manter num padrão de interesse e demandas, como quando ele está sendo criado e buscando conquistar espaço, e após o auge, há uma queda natural. O interesse da mídia, o interesse dos mercados, como vender muito para as pessoas comprarem porcaria que é de mais fácil apreciação… Essa dinâmica de mercado, que é terrível para a cultura, que não abre espaço para questão mais elaborada, que a pessoa precisa aprender a ouvir para ter prazer maior, isso daria para conversar com você por muito tempo… Mas tirando tudo isso, o gosto do ser humano pela música se preserva, e pode se comprovar pelo choro.

O projeto Chorando Sem Parar começou há 12 anos e no início as pessoas me diziam – eu tive uma série de resistências -, as pessoas diziam que o público seria restrito a pessoas de mais idade. Eu disse “não”! Já existe uma retomada disso, pessoas jovens estão se interessando pelo choro. Começamos o primeiro festival, que deu início a um projeto de aprendizado do choro com dez pessoas, na Universidade Federal de São Carlos, e já tem 200 pessoas participando. O festival está ativo há 12 anos. E você olha o público, tem gente de diversas idades. Eu entendo que não só o Izaias, mas qualquer pessoa que queria fazer um programa de televisão sobre música mais elaborada… não é questão de crise e falta de espaço, se você bota nos canais tem porcaria o dia inteiro com espaço. Mas o interesse natural pela música, por aqueles que amam a música, é cíclico. Mas esta é a hora do choro, tem muitos jovens aprendendo e tocando.

O instrumentista jovem valoriza muito mais pessoas que são fantásticas sim, como o John Coltrane e Dexter Gordon, existe já uma visão consolidada do jazz no Brasil. Mas e o choro? Ouvindo Pixinguinha, Abel Ferreira, Altamiro Carrilho, entre tantos outros, existe uma improvisação também, é um gênero que viajou o mundo e há quem diga que até tenha influenciado o próprio jazz americano. É possível dizer que o choro é o jazz brasileiro?

Fátima Camargo – Eu escuto muito isso, mas eu não penso muito sobre isso. Eu acho que ficar com essa preocupação – se o choro influenciou o jazz, se a bossa nova influenciou o jazz – é uma coisa que eu não acho importante. Eu acho importante a música ter liberdade. O nosso festival é internacional, vêm artistas estrangeiros para tocar choro. Os músicos recebem informações e partituras, criam arranjos. Mas na hora que eles conhecem o choro, eles ficam malucos. Quem nunca escutou um choro – e temos instrumentistas que vêm do Japão, dos Estados Unidos, de Israel – eles ficam apaixonados, contagiados. Será que o músico está preocupado em saber (quem influenciou quem)… Ele escuta aquilo e cria, faz outros desdobramentos. Acompanhar o percurso de cada evolução de gênero não me importa muito. Você tem um exemplo muito vivo. O maior nome do jazz é o Wynton Marsalis. A orquestra que veio do Recife fechar o Chorando Sem Parar no ano passado foi a Spok Frevo – a maior parte do festival é dedicada ao choro, mas não restringimos ao gênero. O frevo causa um frisson que o pessoal fica maluco. Eles foram convidados para tocar em Nova York e o Marsalis estava na platéia. Ele ficou tão desesperado que foi conversar com o maestro Spok. E sabe qual a pergunta que ele fez para o Spok: “o que é isso?” (risos). Ele disse que conhece choro, samba, mas queria saber o que era isso! Ele ficou louco. Já chamou o Spok para tocar lá, em algumas programações. Essa emoção que causou no Marsalis e que vai causar em outros que nunca escutaram frevo, eles vão para casa para tocar. Agora se isso causa um novo gênero – foi o jazz americano ou frevo que fez isso? – isso não importa, importa é que a boa música tenha espaço para ser executada.

Concordo que as culturas sempre tiveram influências e que, muitas vezes, esses argumentos podem cair numa discussão mais política que artística. Mas há quem, por exemplo, escutou a Spock Frevo e avaliou: “mas isso não é frevo, é jazz”…  

Fátima Camargo – O jazz não é nada. O frevo tem a marcação dele, tem a estrutura rítmica dele. O baião tem a estrutura dele, o rock tem a sua estrutura. Cada um tem a sua estrutura. Agora,  o jazz… dá para navegar em qualquer gênero pelo barco do jazz. Parece que quando você fala que uma música é jazz você está elevando a música para uma categoria nobre. Mas não é. Fazer improvisação você pode fazer com qualquer coisa. Hoje eu estava pensando que é tão atual misturar as coisas, elementos de várias culturas, que vai chegar um dia que vão querer fazer a afirmação: isso é puro samba, isso é pura música árabe, isso é pura música africana, isso é pura música japonesa. Tudo é cíclico, tudo vai e vem.

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