João Teité

Comédia “Sacra Folia” prova que Deus é brasileiro

Dirigidos pela atriz e professora Adriana Costa e com direção musical de Renato Souza, os alunos do PA2 A do Teatro Escola Macunaíma apresentam desde sexta-feira a comédia “Sacra Folia”, de Luís Alberto de Abreu, na primeira montagem do grupo, formado por 15 alunos. Hoje, domingo, 06 de dezembro, será a última apresentação, com duas encenações às 19h e 21h, no Teatro 4, na sede da escola, na Rua Adolfo Gordo, 238, em São Paulo, com ingressos a R$ 18. Não recomendado para menores de dez anos. A peça, que tem música ao vivo com alfaia, violão, triângulo, pandeiro e ganzá, começa com um cortejo fora do teatro, acompanhando a entrada dos espectadores.

“Sacra Folia” é inspirada na festa popular de orientação católica Folia de Reis, quando o povo toma as ruas das cidades em janeiro carregando estandartes, dançando e tocando músicas em louvor aos Três Reis Magos, que peregrinam em direção ao local de nascimento de Jesus. Abreu faz em sua crítica social o inverso: traz o menino Jesus, Maria e José para dentro de um cortejo que percorre o Brasil, fugindo da decisão de Herodes de assassinar as crianças na Judeia para evitar a profecia que dizia que um novo rei estaria nascendo. No Brasil, a família sagrada tem a ajuda dos atrapalhados Matias Cão e João Teité (na foto acima, Teité na interpretação de Jackson Gleizer, que já fez uma participação especial no clipe da música “Passarinho” de Emicida), cujos desencontros acabam confirmando a máxima popular que afirma: “Deus é Brasileiro!”

João Teité e Sagrada Família

Teité – na interpretação de Tainá Prioste – com a sagrada família (Ruth Lacerda interpretando Maria e Diego Melo representando José) e o burrinho, que representa na trama o bumba meu boi. Fotos de Roger Marzochi.

“O texto, entre outros assuntos, faz uma analogia entre o genocídio de Herodes e a chacina de menores na calçada da igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, em 1993. Miséria e genocídio infantil são, portanto, dois pontos presentes no texto, a despeito de sua proposta cômica”, explica André Carrico, em sua dissertação de mestrado “Por conta do Abreu: Comédia Popular na Obra de Luís Alberto de Abreu”, apresentada no Instituto de Artes da Unicamp, em 2004.

Durante a peça, os alunos exibem cartazes com fotos e quadros que mostram a violência contra crianças em guerras na Síria e na África e fazem até mesmo uma menção à Operação Lava Jato. Ao transpor os personagens da família sagrada para o Brasil na contemporaneidade, Abreu explora de forma sagaz a violência e a criatividade do povo brasileiro para sobreviver à miséria da vida, dividida entre o profano e o sagrado, numa constante luta pelo poder.

Como a peça traz elementos de Folia de Reis, os diretores da peça buscaram trabalhar com os alunos a estética do teatro de rua, utilizando músicas, danças e cirandas da cultura popular, que embalam o cortejo do menino Jesus pelo Brasil até a fronteira do Paraguai. O coco foi um dos principais elementos utilizados para dar ritmo à trama. Em uma colaboração especial com o músico Renato Souza, aluno do Teatro Escola Macunaíma e professor de música na cidade de Arujá, e assistência de direção de Matheus Brito, foram realizados diversos exercícios com os alunos no sentido de adquirirem ritmo e ganharem expressões próximas às performances da arte de rua. O processo de criação deste espetáculo estará na próxima edição do Caderno de Registros Macu, revista do Teatro Escola Macunaíma, e também será publicado pelo blog entresons em 2016.

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