Lupa Santiago em foto de Murilo Moser

“A improvisação é um caminho sem volta”

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br; foto de Murilo Moser

O guitarrista Lupa Santiago lançou em 2015 nada menos do que quatro CDs com as mais diversas formações e com músicos de vários países, com apresentações em Portugal, África do Sul e Dinamarca. E, no próximo ano, espera lançar mais dois discos e fazer uma turnê pelo Sul e Sudeste do Brasil e realizar mais shows na Europa. Entre os quatro discos já lançado neste ano, pude ouvir “Chamado”, com participação do saxofonista Rodrigo Ursaia em um quinteto no qual está o pianista André Marques; “Manhã”, no qual o guitarrista faz um duo com o pianista Paulo Braga; e “São Paulo/Paris II”.

Apesar das duas formações diferentes em “Chamado” e “Manhã”, dos mais diferentes arranjos, perpassa por todo o trabalho jazzístico uma raiz extremamente brasileira, com sambas como “Dom do Samba” e “Acepipe”, suspiros Bituquianos, Jobinianos, Hermetismos Pascoais e experimentalismos dissonantes que estão contidos em “Chamado”, com sopros suaves e inspiradores de Ursaia.  Em “Manhã”, no duo de Santiago e Braga, “Dom do Samba” também está lá registrada, com uma garra incrível de confluência de samba e jazz. O CD faz essa fusão a todo momento, com paisagens sonoras de vários ritmos brasileiros, como mostra, por exemplo, “OOlaiá”, que parece com um maxixe jazz. Entre as composições de Braga, “Manhã” e “Nho Nho da Botica” estão entre as minhas prediletas, numa capacidade de proporcionar uma ampla contemplação da natureza. Em “São Paulo/Paris II” reflexos do samba também podem ser ouvidos na música “Cinco Anos”.

“Eu gosto de gravar uma música com formações diferentes. É como fosse uma música nova, porque tem sempre informação diferente. Eu gravei ‘Laís’ com o Paulo Braga, com Paulo Flores (Jazz Combo de Tatuí), e cada vez tem um arranjo diferente”, explica Santiago. “’Dom do Samba’ tem a mesma energia nos dois CDs, mas ela tem um arranjo diferente e ‘Prolífero & Perdulário’, que também está nos dois CDs, é misterioso e tem alguns efeitos e pedais (sintetizadores de guitarra). Não é melhor nem pior, mas são lugares distintos.”

Ele brinca dizendo que fez “Prolífero & Perdulário” em homenagem própria, por se achar uma pessoa que não se leva a sério, talvez seja exatamente isso que o impulsiona em improvisações repletas de energia. “Eu acho que o mais difícil é se concentrar e se dar por inteiro”, diz, em referência à improvisação. “Tem gente que traz ideias pré-pronta. Eu prefiro ouvir as pessoas que estão tocando comigo, buscando a melhor forma de interpretá-las. É um risco maior quando não prepara nada, mas é mais honesto e divertido. A improvisação é um caminho sem volta, que se você errar tem que continuar, se a história não for pelo lado certo. Às vezes dá certo, outras não. O que importa é o passeio, não é o produto pronto, mas o processo da execução. Essa é que a beleza da estética musical.”

Além da experimentação em “Prolífero & Perdulário”, há em “São Paulo/Paris II” também uma música jocosa, “Weak Licks”, uma referência ao vazamento de informações confidenciais de empresas e governos, numa melodia porosa que desemboca em improvisações vigorosas. “Barulho”, “Las Ruinas”, “Nicou”, “Pro Moa” e “Tema para Lili” refletem o jazz que também carrega várias influencias da música brasileira. O CD tem a participação do belga André Charlier (bateria), dos brasileiros Sizão Machado (baixo), Rubinho Antunes (trompete), Marcelo Coelho (sax) e do pianista Frances Benoît Sourisse. No próximo ano, Santiago espera realizar shows no Brasil deste disco em março no Sul e Sudeste, além de continuar batalhando shows de “Chamado” com Ursaia, com quem espera gravar um novo trabalho no fim de 2016.

O guitarrista também planeja gravar um CD com o trombonista americano Ed Neumeister, que agora mora na Áustria. O trombonista e compositor, que já foi indicado ao Grammy, já gravou com artistas como Jerry Garcia, Gerry Mulligan, Frank Sinatra, Aretha Franklin, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughn. Neumeister atuou também como músico em orquestras como a New York Philharmonic, a Orquestra Sinfônica de São Francisco e o Ballet de São Francisco.

Outro lançamento planejado para 2016 é um CD gravado ao vivo pelo Sinequanon no Jazz nos Fundos em 2013. A banda é formada por Santiago, Vítor Alcântara (saxofones), Guto Brambilla (contrabaixo) e Carlos Ezequiel (bateria), e “explora improvisação coletiva e composição moderna com ênfase nas nuances típicas de uma formação acústica. Suas influências se estendem desde a música erudita contemporânea às vanguardas do jazz e da música instrumental brasileira”. Todos os shows do Jazz nos Fundos foram gravados ao vivo, o que deve ser um acervo incrível do cenário da música instrumental brasileira que deveria ser compartilhado com o público.

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