Rosa

Há amor no Oriente Médio

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

A violência nos países do Oriente Médio, com guerras infindáveis e migração em massa que está mudando a cara da Europa, encobre a riqueza de culturas milenares que deram imensa contribuição para o desenvolvimento da humanidade no que se refere à astronomia, saúde, matemática e, principalmente, nas artes. É com tristeza que costumo ouvir quartos de tons da música árabe, cujas notas muitas vezes foram emitidas em nome da transcendência do ser humano, virando fundos musicais de reportagens e filmes sobre as tragédias perpetuadas pelo terrorismo tanto dentro quanto fora do Oriente Médio.

Comum também é o crescente preconceito com relação ao islamismo, como se o fanatismo religioso fosse monopólio dos seguidores do profeta Maomé e como se não houvesse no Brasil violência contra mulheres. É bem verdade que o Oriente Médio precisa avançar muito para garantir o direito das mulheres e homossexuais, mas igualmente há muito que se evoluir não apenas nessa área no mundo Ocidental, um dos principais responsáveis pela miséria e destruição do Oriente Médio em decorrência da sua riqueza em petróleo. Um exemplo a que ponto chega o fanatismo no Brasil: eu escutei nessa semana a história de um pastor evangélico que disputou com um diácono da Igreja Católica a prelazia da última oração durante um enterro em São Paulo, algo que deveria ser ecumênico, teria se transformado numa troca de farpas santas.

Enquanto que o vermelho do sangue das vítimas de extremistas, sejam eles Ocidentais ou Orientais, nos levam a suspeitar que o teórico americano Samuel Hungtington estaria certo em sua absurda tese em que buscou provar por A mais B que o mundo islâmico seria muito mais violento que qualquer outro, músicos brasileiros e sírios revelam o quanto há de amor na cultura Oriental, de árabes cristãos, muçulmanos, espíritas ou ateus. O primeiro grande exemplo disso surgiu no início de 2015 no Brasil, quando foi lançado o CD “Poemas Musicais do Oriente Médio – Musiqa Suriyya”, um projeto idealizado pela filósofa brasileira Rosalie Pereira e pelo músico Flávio Metne, que em visita a Damasco em 1995, reuniram grandes compositores e músicos sírios de alguma forma envolvidos com o Instituto Superior de Música de Damasco para registrar música contemporânea feita com instrumentos orientais, à época em que o País vivia em relativa paz e se buscava expressões da identidade nacional.

Considerado no Ocidente como “música erudita”, o CD tem 12 composições, seis delas com improvisações livres de músicos como Khalil Ghadri (usando o instrumento qanun, originado da harpa egípcia), Naief Rafeh e Moslem Rahal (flauta nay), Mahammad Othman (buzuq, um alaúde “de pescoço longo”) e Elias Bachoura (alaúde). As outras seis músicas foram compostas por Safi Badreddin e Elias Bachoura. O lançamento é do ano passado, mas é uma obra imortal, que ressoa a própria história da humanidade. No ano passado, houve até jornalista da grande mídia que chegou a dizer que esse era um CD de música do Islâ, numa total falta de noção sobre o quão antigo e plural é a tradição musical do Oriente Médio. O projeto, que demorou 20 anos para chegar até o público, é uma cápsula do tempo sobre como seria a sociedade síria se não houvesse a eclosão de uma das mais devastadoras guerras.

Outro grande exemplo de que há amor no Oriente Médio e como ele se espalha em todas as regiões do mundo é o CD “Terra e Lua”, o primeiro autoral do sanfoneiro e compositor Gabriel Levy, que entre suas várias atuações artísticas integra o grupo Mawaca e o Mutrib. O trabalho, que foi lançado em novembro de 2015, tem 11 faixas, que são entremeadas por contos de várias procedências, narrados brevemente pela contadora de histórias Regina Machado. Levy reuniu sua experiência em música étnica do Oriente ao Ocidente e fez um trabalho muito rico e consistente, sempre se equilibrando no encontro das tradições culturais. “Terra e Lua é um chamamento para uma conversa entre quem está dentro da linguagem musical brasileira com as músicas que vêm de fora”, diz Levy, que teve suas obras interpretadas por grandes artistas como o Duo Assad, o cellista americano Yo-yo Ma, o clarinetista cubano Paquito d’Rivera.

Um dos sanfoneiros retratados no documentário “O Milagre de Santa Luzia, Levy convidou para participar do CD artistas fantásticos: o quinteto-base de Gabriel Levy é composto por Carlinhos Antunes (Orquestra Mundana), Mario Aphonso III (Orquestra Bandida e Mutrib), Roberto Angerosa, Thomas Howard e Rogerio Boter Maio. O CD também conta com convidados como os flautistas Toninho Carrasqueira, Jean Luc-Thomas (França), Shen Ribeiro (mestre na flauta japonesa shakuhachi) e Letieres Leite (que arranjou e gravou com um grupo de músicos de Salvador a faixa “Ê, Batuquero” ), o suíço Thomas Rohrer (tocando a rabeca brasileira), Claudio Kairouz (kanun, instrumento da música clássica árabe), entre outros. Há, sem dúvida, muitos outros exemplos, como este blog se abordou no fim do ano passado em texto sobre a atuação do músico Mário Aphonso III e a sua fundação Tarab. No ano de 2016, que mantém já desde seu início a velha e brutal violência, é a arte que aponta e inspira caminhos para a paz.

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