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Homenagem a Paulo Moura terá dueto entre Proveta e Yamandu Costa

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

O saxofonista e clarinetista paulista Naylor Proveta e o violonista gaúcho Yamandu Costa prestarão uma grande homenagem ao músico Paulo Moura, morto em 2010 após lutar contra um câncer linfático, tendo inclusive feito uma jam session dentro do quarto do hospital. Proveta e Yamandu vão tocar as músicas de “El Negro Del Blanco”, que o violinista lançou em 2004 com Moura, rendendo a este o Prêmio TIM de Melhor Solista Popular, em 2005. O show acontecerá entre os dias 5 a 11 de dezembro, durante a 13ª edição do Festival ChorandoSemParar, realizado em São Carlos.

O evento fará uma reverência ao músico de São José do Rio Preto, que swingou no choro, no samba e chorou no jazz, responsável por discos memoráveis como, por exemplo, a obra-prima “Confusão Urbana, Suburbana e Rural”, de 1976. E, de quebra, uma homenagem ao próprio Proveta, que lançou entre o fim de 2015 e início de 2016 os CDs “Coreto no Leme” e “Velhos Companheiros de K-Ximbinho”, em homenagem ao também maestro, arranjador e saxofonista Sebastião de Barros, o K-Ximbinho. Este aliás, compositor de músicas inesquecíveis como “Sempre”, “Velhos Companheiros”, “Autoplágio”, “Catita”, “Sonoroso”, “Eu quero é sossego”, entre outros sons incríveis, que o amigo Paulo Moura chegou a se unir ao gaitista Maurício Einhorn, Tony Botelho (contrabaixo) e Nelson Faria (guitarra) em “K-Ximblues”, com um pé no choro e outro no blues, gravado em show ao vivo no Teatro Leblon, em maio de 1999.

“Nesse momento, de tudo que a gente aprendeu… com a música e experimentou esses sabores, a gente pensa o seguinte: é preciso compartilhar isso, retribuir à sociedade e às pessoas. Não acho que a música deve ser uma coisa sua, não é uma coisa minha, que eu domino e, de repente, ganho uma grana. A música é uma continuidade da história de outras pessoas que você assimila, aprende… Seu gosto musical vem dessas pessoas que vão te ensinando na vida e, uma hora, por alguma razão, você tem que retribuir”, diz Proveta, que lembra que Paulo Moura foi o padrinho de criação da Banda Mantiqueira, da qual o músico de Leme faz parte até hoje. “O Paulo e o K-Ximbinho tinham uma personalidade muito parecida… Tem muita coisa que virou a minha vida.”

O CD em memória de K-Ximbinho, que de Taipu e Natal, no Rio Grande do Norte, desceu até o Rio de Janeiro com a Orquestra Tabajara, de Severino Araújo, surgiu como reflexo da falta de lembranças do brasileiro com relação ao músico que, em 2007, completaria 90 anos de vida se estivesse vivo. “Na época, ninguém estava falando dele”, lamenta Proveta, que começou a ouvir “Saudades de um clarinete”, o último disco do K-ximbinho, lançado em 1980, pouco após a morte do músico. “Ninguém lembra de músico brasileiro, de gente como K-Ximbinho, Abel Ferreira.”

Naylor Proveta com Água de Vintém

Naylor Proveta receberá homenagem do ChorandoSemParar

Foi a partir deste último disco de K-Ximbinho, com músicos como Zé Bodega, irmão de Severino Araújo, que Proveta gravou a sua homenagem para o músico, com produção e dedicação total da flautista Lea Freire. “K-Ximbinho, o Zé Bodega e o Severino Araújo tinham uma linguagem que apontava para uma nova direção, com choro e música brasileira com elementos do jazz. As intenções das harmonias ficaram mais ousadas, provavelmente as distribuições das vozes para os músicos ficaram mais sofisticadas, a orquestração se utilizou de outras combinações dos instrumentos”, explica Proveta.

Para Proveta, parece tudo uma coincidência ser ele agora o homenageado no ChorandoSemParar, logo após ganhar o prêmio Governador do Estado para a Cultura em 2015, devido ao seu CD “Coreto no Leme”, nas suas lembranças dos sons que fazia em sua cidade natal, onde toda a sua trajetória começou. Como relembra o jornalista e músico Fernando Lichti Barros, no livro “Casé – Como Toca Esse Rapaz!”, foi o trombonista Botinão, também natural de Leme, que levou o saxofonista Casé a conhecer um “moleque que toca saxofone pra burro”.

O menino morava em uma chácara, sem televisão e tinha como transporte uma carroça em 1971. Á época, com nove anos, Naylor já arrasava no saxofone alto em festas com o seu pai, Geraldo Azevedo, que tocava sanfona, saxofone tenor, órgão e clarineta. “Naylor – esse era o nome do pequeno saxofonista – chegou ao clube e foi apresentado a Casé. De calção e camiseta, no meio do salão, o menino tocou ‘Czardas’, de Vittorio Monti. Quando acabou, os músicos da orquestra fizeram uma pausa de espanto”, escreve Barros. Agora, que completará 55 anos, no dia 25 de maio, Proveta tem ainda mais motivos para comemorar. “Então, a gente está vivendo esse momento de poder ver transformação nas pessoas, o que a música trouxe de bom para cada um. Não como músico, mas como ser humano, o jeito de você olhar o mundo.”

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