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Adriana Costa, é professora do Teatro Escola Macunaíma e atriz formada pelo Conservatório Musical Carlos de Gomes, de Campinas. Texto foi publicado no “Caderno de Registro Macu”, Edição Número 8, Primeiro Semestre de 2016. Foto que abre o post de Pablo Oliveira; fotos ao longo do texto de Roger Marzochi. Edição de texto por Roberta Carbone.

“E a vida vai tecendo laços, quase impossíveis de se romper: tudo o que amamos são pedaços, vivos do nosso próprio ser” (1993, p. 54-55). É neste trecho do poema “A vida assim nos afeiçoa”, de Manuel Bandeira, que começo a desenrolar o processo que resultou no tecido do qual me constituo, enquanto atriz e educadora, e que se entrelaça às fazendas de sentidos dos alunos, com o objetivo de despertá-los para uma nova dimensão da experiência do espaço, do tempo e da memória. Para se construir as novas “vestes” do Ator Criador, coloco em prática conceitos de sistemas que permeiam o próprio teatro, a dança e a música, para gerar subjetividades e intuições. Trago comigo, ao longo de minha viagem pelo mundo da arte, os ensinamentos de diretores e atores muito queridos, cujas teias de saber se somaram no encontro com professores do Teatro Escola Macunaíma, com os quais convivo por seis anos, em uma instituição que proporciona um debate incessante sobre as várias perspectivas abertas pelo sistema de Constantin Stanislávski, na busca contínua da criatividade e do exercício pleno da cidadania.

Além dos encontros promovidos pela escola para aprimorar o processo artístico-educativo, como, por exemplo, iniciativas construtivas como o Projeto Chama, palestras com especialistas de diversas áreas do conhecimento e aulas com Jurij Alschitz e Sergey Zemtsov, sempre busquei cursos externos. Em 2015, participei de cursos, como o do sistema de improvisação teatral Campo de Visão, com a Cia. Elevador de Teatro Panorâmico, e da Linguagem da Dança, no Instituto Caleidos, cujos conceitos também foram aplicados em sala de aula durante a montagem do texto Sacra Folia, de Luís Alberto de Abreu, com o PA2 A, no segundo semestre de 2015.

O primeiro desafio de um professor, ao receber uma nova turma, é estabelecer uma empatia com os alunos e criar uma metáfora da cosmologia do teatro. Inspirada pelo tema da 83ª Mostra do Teatro Escola Macunaíma – Tecendo Vidas Com Fio do Texto –, busquei construir com os alunos uma instalação artística viva e coletiva. Levei, na primeira aula com essa turma, um rolo de barbante e os convidei a ficarem em pé, formando um círculo. Entreguei o barbante a um aluno, que deveria jogá-lo na direção de outro, que, por sua vez, faria o mesmo e assim sucessivamente, até que todos estivessem interligados. Mas, antes de jogar o rolo adiante, o aluno foi estimulado a dizer seu nome e qual era o seu desejo ao longo da disciplina durante o semestre. Anotei cada palavra e frase em um caderno.

A brincadeira lúdica resultou em algo parecido a uma gigante teia de aranha, a qual simbolizava, em um primeiro momento, como deveria ser estreita a conexão entre os membros do grupo durante o processo de montagem de uma peça de teatro, sem saber que, na verdade, essa teia seria a vela que impulsionaria o barco até a última apresentação da peça. A viagem começou logo no primeiro dia. Dividi a turma em dois grupos e entreguei a cada um deles os poemas Caso do Vestido e Agora José?, ambos de Carlos Drummond de Andrade. A partir destes poemas, os grupos deveriam criar cenas sem a necessidade de apresentar um texto, mas podendo usar sons, tanto ruídos quanto músicas, bem como adereços e o próprio corpo. Nessa primeira experiência, pude notar as principais dificuldades dos alunos frente ao espaço cênico, refletindo sobre as técnicas que poderia aplicar ao longo do semestre. Apesar de inicialmente confusos, os alunos apresentaram os reflexos dos poemas em imagens corporais e sonoras.

A partir desse primeiro contato com a turma, com o conhecimento dos seus desejos aparentes que surgiram na brincadeira com o barbante e na forma como expressaram em seus corpos os poemas, tinha em mãos elementos para iniciar o processo de montagem de uma peça de teatro e intuição para como tecer as redes de sentido. Terminei a aula incentivando os alunos a refletirem sobre o que gostariam de expressar ao mundo enquanto artistas.

 João Teité e Sagrada FamíliaIçando velas – Após esse primeiro contato, as próximas aulas teriam como objetivo não apenas a escolha do texto que seria montado pelo grupo, mas principalmente a aplicação de técnicas com a finalidade de criar uma comunhão entre os alunos, um ajuste da “afinação interna” de cada um e uma nova concepção do espaço. O primeiro exercício que realizei, na segunda aula, e que foi repetido em 80% das aulas seguintes, eu aprendi nos ensaios com o dramaturgo Chico de Assis, que, em 2004, dirigiu a apresentação da sua peça Missa Leiga em Americana (SP), com atores da cidade.

É um exercício de respiração e ritmo especialmente importante, uma vez que percebi que poderia utilizar música na montagem, em decorrência do resultado dos exercícios de interpretação dos poemas de Drummond. Os alunos devem ficar deitados, com os braços estendidos ao longo do corpo, com as palmas das mãos voltadas ao chão e devem respirar no ritmo ditado pelo professor. Enquanto o professor conta até dez, o aluno deve inspirar profundamente. O ar deve ser solto com som de “s”, igualmente ao longo da contagem, que vai regredindo até chegar a uma unidade de tempo. Ao final da respiração, os alunos devem percutir com as palmas da mão o solo, repetindo o ritmo das palmas feitas pelo professor. Além de reduzir a ansiedade, esse exercício colabora no processo de criação de um tempo rítmico.

Em seguida, uma série de exercícios foi realizada, igualmente aprimorada ao longo de 80% das aulas seguintes, que constitui a busca de incentivar a criação de um essemble, na concepção do diretor, ator, pesquisador e pedagogo ucraniano Jurij Alschitz, que, em julho de 2014, realizou no Teatro Escola Macunaíma um curso sobre suas técnicas artístico-pedagógicas. A principal prática apresentada por Alschitz abordada em sala de aula foi um exercício chamado Composição de Velocidades, no qual os alunos são incentivados a caminhar em diversos níveis de velocidade. Apesar do aparente caos criado no ambiente, há a busca de uma ordem, muitas vezes materializada nas pausas do movimento, que devem ocorrer ao longo do exercício e serem realizadas pelos alunos ao mesmo tempo. Alschitz comenta esse exercício em registro de seu curso feito professor Paco Abreu e publicado na sexta edição do Caderno de Registro Macu:

“Se, durante o exercício, ficamos tentando nos lembrar dos próximos passos, acabamos nos perdendo. Precisamos agir instintivamente, precisamos estar prontos para o passo que se apresenta. Não se trata apenas de correr, há uma composição das velocidades e de todas as percepções entre os níveis, dessa forma nos aproximamos de uma obra de arte. Devemos deixar as mudanças precisas, elas já estão dentro de nós, antes mesmo de acontecerem. Caos e liberdade: a precisão da costura das transições entre o caos e a harmonia. A harmonia da precisão e da liberdade. A beleza do essemble vem das transições entre caos e harmonia. (2015, p. 29)”

A realização, em especial, deste exercício foi sofrendo uma evolução ao longo do processo, à medida que o grupo escolheu o texto da montagem, condição gestada desde o início das aulas. Já na segunda aula, os alunos apresentaram a resposta à pergunta que havia sido feita no encontro anterior, sobre o que gostariam de expressar para o mundo enquanto artistas. A maioria informou que gostaria de expressar a vida de uma forma mais positiva, que pudesse provocar reflexões de uma forma leve, que pudesse trazer ao mundo mais humanidade, questionando as aparências e a hipocrisia. A partir desta constatação, dividi a turma em dois grupos, para que fossem improvisadas, no mesmo dia, cenas que transmitissem essas reflexões e que resultaram em apresentações envolvendo conflitos familiares, do casamento ao conflito com os pais. Por isso, resolvi levar aos alunos três opções de textos de dramaturgos brasileiros: A vida como ela é, de Nelson Rodrigues; O Casamento Suspeitoso, de Ariano Suassuna; e Sacra Folia, de Luís Alberto de Abreu.

Sacra Folia foi o texto escolhido, por mais se aproximar do Superobjetivo do grupo e, na opinião de um dos alunos, por ser uma “comédia dinâmica e inteligente”. Com a escolha do texto, realizei a divisão da produção para o semestre. Para que os alunos se apropriassem do texto e do contexto no qual a peça está inserida, formei grupos que ficaram responsáveis pelo estudo do autor da peça, da sonoplastia, do figurino e, no caso desta peça específica, montei um grupo de estudos sobre a Cultura Popular Brasileira. Realizamos uma primeira leitura dramática da peça, buscando estimular, no aluno, imagens sobre como seriam as cenas usando a voz e sons, criando uma paisagem sonora.

20151205_200025Ações Físicas – Com a escolha do texto, iniciei o processo de Análise Ativa, do sistema de Stanislávski, que, como o nome diz, busca realizar uma análise das ações cênicas. É primordial que o professor tenha um conhecimento mais profundo da obra que será encenada, para então iniciar o processo de Análise Ativa pelo Método das Ações Físicas. O professor, após estabelecer os principais Acontecimentos, o Superobjetivo e as Circunstâncias, deve propor uma investigação da ação, em que os atores sejam estimulados a agir fisicamente. Para que isso ocorra, o professor deverá também ter pleno domínio da condução do processo. Ao realizar a Análise Ativa, estamos envolvendo todos os elementos do Sistema Stanislávski. O processo tem início com a divisão da obra em grandes Acontecimentos, incluindo o Acontecimento Principal e Inicial. A Análise Ativa é realizada ao longo de todo processo até a finalização da peça, sempre levantando Circunstâncias, Objetivos e Obstáculos de cada personagem e improvisações sem o uso do texto, para que os alunos ajam organicamente.

Nos exercícios de Análise Ativa, os alunos realizam “vivências” – experimentando as cenas da peça, transpondo-as da análise do texto para a ação, com estímulo para improvisações –, e criam fotogramas. O aluno, como Ator Criador, se apropria e compreende o texto durante a prática da Análise Ativa, agindo fisicamente desde o primeiro ensaio. Quando vai para cena improvisar, o aluno vivencia, com suas palavras, as Circunstâncias Propostas no texto e, durante o processo, experimenta as relações entre as personagens. Esse trabalho propicia uma forma de participação coletiva e de cooperação entre aluno e professor.

Incentivei os alunos, por exemplo, a levantarem no máximo quatorze acontecimentos da peça, com os quais eles construíram um fotograma de cada momento. Na apresentação dos fotogramas, o grupo poderia dizer frases e emitir sons. Após as apresentações, pedi que improvisassem um fotograma, com um Acontecimento escolhido pelo grupo. Durante o processo, questionava os alunos exaustivamente sobre quais eram os Objetivos e as Circunstâncias que envolviam as cenas.

Na última aula de agosto de 2015, pude perceber um sensível avanço na turma, formada por diferentes grupos vindos do PA 1. Nesta aula, após a realização de vivências e fotogramas, finalizamos com um exercício em dupla, um de frente para o outro, com os olhos fechados. Depois, com os olhos abertos, eu os incentivei a fixar o olhar no parceiro, percebendo as sensações que isso lhes causava. Em seguida, despediam-se através do olhar, afastando-se o máximo possível, sem perder o olhar do companheiro, para então retornarem à posição inicial. Durante todo o processo, os alunos sempre estiveram dispostos a realizar os rituais e os exercícios propostos, os quais trouxeram um grande amadurecimento em relação à concentração do grupo e de cada indivíduo. E, a partir das improvisações, da dinâmica dos acontecimentos e das vivências, eles foram, aos poucos, se apropriando do texto.

Além da aplicação de muitos conceitos debatidos pelo Projeto Chama, criado dentro do Teatro Escola Macunaíma, também foi importante nesse processo a tese de doutorado apresentada, em 2007, por Nair Dagostini no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura Russa, do Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo: O Método de Análise Ativa de Stanislavsky Como Base para Leitura do Texto e da Criação do Espetáculo pelo Diretor e Ator.

Boracéia e DiaboCorpo e improvisação – Utilizei também outras técnicas inspiradas pelo sistema criado por Rudolf Laban em sua Dança Educativa Moderna, enquanto frequentava as aulas com Isabel A. Marques, no Instituto Caleidos; e pelo sistema de improvisação teatral Campo de Visão, aprofundado pelo estudo de Marcelo Lazzaratto, curso que realizei junto à Cia. Elevador de Teatro Panorâmico. Em ambos os sistemas, encontrei elementos que colaboram para construir uma nova percepção do espaço nos alunos, atualmente muito influenciados pela estética de expressões artísticas presentes em novelas, minisséries e filmes hollywoodianos.

Laban ficou mundialmente conhecido como o mestre da arte do movimento, em decorrência de seu trabalho de arte e educação na Europa entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX. Assim como Stanislávski, Laban se preocupava “profundamente com as questões de sua época, com o potencial expressivo do ser humano – com a espiritualidade da arte” (2010, p. 67), assinala Isabel A. Marques em seu livro Linguagem da Dança – Arte e Ensino. Vem desse curso alguns dos exercícios aplicados em sala de aula, com o objetivo de trabalhar a percepção e a projeção espacial, o olhar, o foco e os níveis (baixo, médio e alto), uma vez que Sacra Folia não seria apresentada em palco italiano, convencional, mas em um formato de teatro de rua, com os atores rodeados pelo público. É neste contexto que entra o Exercício de Percepção do Espaço e do Outro, no qual os alunos são convidados a perceberem a tridimensionalidade do corpo, do espaço em que se encontram e das pessoas.

Também trabalhando com a quebra do paradigma televisivo/cinematográfico e ampliando as potencialidades de expressão corporal, a linguagem do Campo de Visão pode ser muito bem utilizada como um sistema que proporciona insights de improvisação no processo criativo. Lazzaratto, ator e educador, assim a defini em seu livro Campo de Visão – Exercício e Linguagem Cênica:

“Improvisar é alcançar a liberdade. Não uma liberdade utópica, romântica, mas sim, instaurar-se em um plano poético onde a impossibilidade não existe. A sensação dessa possibilidade leva o ator a conectar-se com prazeres até então não revelados, abrindo potencialidades de significação e compreensão que não advém necessariamente da racionalidade. Improvisar faz o corpo pensar. Abole a divisão corpo/mente.” (2011, p. 29)

 

Possivelmente nascido da brincadeira de Siga o Mestre ou mesmo uma variante contemporânea dos Círculos de Atenção de Stanislávski, o Campo de Visão consiste em um exercício de improvisação teatral coral “no qual os participantes só podem movimentar-se quando algum movimento gerado por qualquer ator estiver ou entrar em seu campo de visão” (LAZZARATTO, 2011, p. 42), explica Lazzaratto. “Os atores não podem olhar olho no olho. Eles devem ampliar sua percepção visual periférica e através de movimentos, de suas intenções e pulsações, conquistar naturalmente uma sintonia coletiva para dar corpo a impulsos sensoriais estimulados pelos próprios movimentos, por algum som ou música, por algum texto ou situação dramática. (2011, p. 42)”

Realizei vários exercícios de Campo de Visão com os alunos, para que o ator possa ampliar seu potencial criativo, sua gestualidade, percepção de si e do outro e as capacidades expressivas de seu corpo. Apesar desse jogo improvisacional se utilizar muitas vezes de temas, como cenas do cotidiano – a movimentação na Rua 25 de Março, por exemplo –, minha intuição sugeriu trabalhar no Campo de Visão um exercício de antropomorfização, no qual incentivei os alunos a imaginarem qual o animal que a personagem do texto lhes sugeria. Primeiro levando-os a se portarem plenamente como esses animais e, aos poucos, acrescentando características humanas. Assim, aproveitei esse exercício como tema para o Campo de Visão, com bons resultados.

 Cultura Popular Brasileira – Luís Alberto de Abreu é um dos grandes dramaturgos brasileiros que se inspiraram na Cultura Popular para criar seus enredos e suas personagens. Sacra Folia é resultado de uma tetralogia inspirada na festa popular de orientação católica Folia de Reis, quando o povo toma as ruas das cidades, em janeiro, carregando estandartes, dançando e tocando músicas em louvor aos Três Reis Magos, que peregrinaram em direção ao local de nascimento de Jesus.

Abreu faz, em sua crítica social, o inverso e confirma a máxima popular que diz “Deus é Brasileiro”: traz o menino Jesus, Maria e José para dentro do cortejo no Brasil, fugindo da decisão de Herodes de assassinar as crianças na Judeia, para evitar a profecia segundo a qual um novo rei estaria nascendo. No Brasil, a família sagrada tem a ajuda dos atrapalhados Matias Cão e João Teité, sócios de uma transportadora, mas que disputam entre si o trabalho de guiar Jesus, Maria e José até Belém, chegando aos confins do Paraguai, perseguidos por Herodes.

“O texto, entre outros assuntos, faz uma analogia entre o genocídio de Herodes e a chacina de menores na calçada da igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, em 1993. Miséria e genocídio infantil são, portanto, dois pontos presentes no texto, a despeito de sua proposta cômica.” (CARRICO, 2004, p. 68) Assim explica André Carrico em sua dissertação de mestrado Por Conta do Abreu: Comédia Popular na Obra de Luís Alberto de Abreu, apresentada ao Instituto de Artes da UNICAMP, em 2004. Durante a peça, os alunos decidiram exibir cartazes com fotos e quadros que mostram a violência contra crianças em guerras na Síria e na África e até fizeram menção à Operação Lava Jato.

Ao transpor as personagens da família sagrada para o Brasil na contemporaneidade, Abreu explora de forma sagaz a violência e a criatividade do povo brasileiro, para sobreviver à miséria da vida, dividida entre o profano e o sagrado em uma constante luta pelo poder. Como a peça traz elementos de Folia de Reis, buscamos trabalhar a peça com a estética do teatro de rua, utilizando músicas, danças e cirandas da cultura popular, que levam o menino Jesus em um longo cortejo pelo Brasil. O coco, dança acompanhada de canto, típica da região nordeste do Brasil, foi um dos principais elementos utilizados para dar ritmo à trama. Essa expressão popular nasceu no século XVII, a partir do canto de negros, índios e caboclos, durante a quebra do coco, e acabou recebendo elementos de danças europeias a partir do fim do século XIX e ganhando espaço no Brasil, como explica Antonio Nóbrega no documentário Danças Brasileiras – Coco Alagoano.

Sacra Folia Cultura PopularEm uma colaboração especial com o músico Renato Souza (na foto ao lado tocando alfaia), aluno do Teatro Escola Macunaíma e professor de música na cidade de Arujá, foram realizados diversos exercícios com os atores, no sentido de adquirirem ritmo e ganharem expressões próximas às performances da arte de rua. Até mesmo trabalhar o canto de uma forma anasalada, a exemplo das lavadeiras, para aproximar os alunos das expressões da cultura popular. Entre os adereços, há que se destacar também a importância da confecção do burrinho em que Maria é transportada em seu trajeto pelo Brasil até Belém do Pará, que representa na fábula o bumba meu boi.

A peça foi apresentada no Teatro 4 do Teatro Escola Macunaíma nos dias 4, 5 e 6 de dezembro de 2015, em duas sessões diárias, com a expressão no palco de alunos que se apropriaram do texto de uma forma dinâmica e lúdica, que conseguiram superar o medo do público em uma primeira apresentação e realizaram, inclusive, diversas interações com a plateia.

Assim como expressa o poeta Manuel Bandeira em seu poema “Assim a vida nos afeiçoa”, finaliza-se mais um ciclo de uma vida dedicada à arte que, apesar de todas as dificuldades que enfrentamos, seja no âmbito pessoal ou social – com a perda de amigos queridos, colocados sempre frente a injustiças, guerras e mal-entendidos – nós construímos coletivamente uma montagem de teatro, da mesma forma como construímos os laços de nossas vidas, em que há “horas que marcam fundo, feitas em cada um de nós, de eternidades de segundo”, nos quais a esperança segreda ao ouvido coisas irreais. E vamos tecendo laços impossíveis de romper e processos que colaboram não apenas na formação de novos atores, mas também de cidadãos conscientes da cultura brasileira e de seus desafios.

 

Bibliografia

ABREU, de Luís Alberto de. “Sacra Folia.” In: NICOLETE, Adélia (org.). Luís Alberto de Abreu: Um Teatro de Pesquisa. São Paulo: Perspectiva, 2011.  

ABREU, Paco. “Encontros com Jurij Alschitz.” In: Caderno de Registro Macu, São Paulo, 6ª ed., I semestre de 2015.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Caso do Vestido; Agora José?. In: Antologia Poética. Rio de Janeiro: Record, 2006.

BANDEIRA, Manuel. “Assim a vida nos afeiçoa.” In: Estrela da Vida Inteira. São Paulo: Nova Fronteira, 1993.

CARRICO, André. Por Conta do Abreu: Comédia Popular na Obra de Luís Alberto de Abreu. Dissertação de mestrado, Instituto de Artes, Campinas, UNICAMP, 2004.

DAGOSTINI, Nair. Tese de doutorado, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, São Paulo, USP, 2007.

LAZZARATTO, Marcelo. Campo de Visão – Exercício e Linguagem Cênica. São Paulo: Escola Superior de Artes Célia Helena, 2011.

MARQUES, Isabel A. Linguagem da Dança – Arte e Ensino. São Paulo: Digitexto, 2010.

NÓBREGA, Antonio; ALMEIDA, Rosane. Danças Brasileiras – Coco Alagoano, disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=Q871ol8aUKU>, acessado em 16 de setembro de 2015.

 

 

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