Alex Lameira

Alex Lameira no oceano da Música Universal

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

Quando você pergunta a alguém se conhece o trabalho de Hermeto Pascoal vai dizer que nunca ouviu falar ou, no máximo, vai lembrar do músico tocando algum instrumento exótico, como uma chaleira cheia de água. Sim, ele toca qualquer instrumento, especialmente aqueles que não são convencionais. Mas, por falta de um sistema justo de difusão de arte, talvez nunca tenha ouvido “Amor, Paz e Esperança”. Sua genialidade em fundir música brasileira com jazz e sua peculiar forma de compor o levaram a criar um sistema de chamado Música Universal. O guitarrista Alex Lameira bebeu nessa fonte e lançou, em fevereiro de 2016, o seu primeiro CD com essa pegada, com uma arte de capa que mergulha nesse universo.

A definição de Música Universal é ampla. Há no site do mestre um texto escrito pela sua esposa, a cantora Aline Morena, com 17 tópicos do que seria esse tipo de expressão. “A harmonia é a mãe da música, o ritmo é o pai e a melodia ou o tema é o filho”, diz, logo no começo. A ideia é abarcar todas as expressões musicais com bom gosto, coisa que não se aprende na escola, buscando inspiração na natureza, como se pode ver abaixo.

Princípios da Música Universal Aline e Hermeto PascoalPara além da definição teórica desse sistema, o que mais importa é o sentir a música e não buscar entendê-la. Além de Pascoal, quem costuma repetir esse mantra, e se tornou um dos principais difusores da Música Universal no Brasil, é o multi-instrumentista Itiberê Zwarg. Este realiza dezenas de workshops pelo País inteiro todos os anos, reunindo músicos que participam no momento presente da produção de uma composição com esses preceitos, mostrando que a música deve ultrapassar as barreiras do visível, dos olhos na partitura às regras imposta por um gênero determinado.

Em suas oficinas, Zwarg produz harmonias e melodias, levando os instrumentistas a se entrelaçarem em arranjos nos quais há total diálogo entre os instrumentos, como se não existisse um solista. Parece clichê, mas são poucas as formações em que os instrumentistas mantêm um diálogo, de pergunta e resposta de forma tão harmoniosa quanto na Música Universal. Mas lembrando sempre que “o músico universal não compara, não generaliza, só busca encontrar-se”. O multi-instrumentista canta as notas aos participantes de suas oficinas, como faz um cantor, dando a noção exata de que o instrumento é a fusão de corpo e alma.

Foi em um desses encontros, em 2009, que o então jazzista de carteirinha Alex Lameira percebeu uma outra dimensão da música. No ano seguinte, por insistência sua, os integrantes da banda de jazz da qual participava foram convidados a fazer a oficina com Zwarg. “Fizemos a oficina, mas tinha um pessoal de jazz que tocava comigo… Eram radicais, e para radicalismo, não entra a Música Universal. Foi nessa confusão que parei com o jazz, fui fazer só música brasileira instrumental”, explica o guitarrista.

Em 2011, Alex conseguiu o aceno de Zwarg para ser o produtor e arranjador de seu disco. Das 12 músicas que agora estão disponíveis em aplicativos de streaming de música, três nasceram do workshop em 2010: “Comichão”, de Zwarg; “Teimosa”, de Alex; e uma versão de “Trenzinho Caipira”, de Villa-Lobos, que mostra quanta riqueza essa composição pode despertar para além de sua beleza naturalíssima.

Em “Sr. Manoel, Faça-me o Favor”, o cavaquinho leva para um choro, que se desfaz, recompondo-se adiante. Além da riqueza de instrumentos de percussão, o mestre Zwarg larga os seus grito de vibração em trechos das músicas. E há a maravilhosa “Serenautas”, na qual a flautista Carol d’Avila faz um vocalize que busca o mais fundo do oceano, reproduzindo depois a melodia na flauta. “Música é de dentro para fora. Isso já vinha isso no meu DNA. Quando vi o Itiberê na oficina, deu a liga total. Parei com tudo, por essa busca do sentir. O ouvido não te deixa errar. Quando você improvisa com a voz, dificilmente você erra. O som acolhe na orelha.”

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