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Jobim Sem Palavras

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

“Meu nome é Antonio Carlos Jobim, mais conhecido como Tom Jobim, Tom do Vinicius… Quando eu falava no telefone… ‘É o Tom’. E o sujeito dizia: ‘Que Tom?’. E eu: ‘O Tom do Vinicius!’ ‘Ah sim, pois não.’” Este é o início do depoimento que Tom Jobim deu sobre Vinicius de Moraes, que foi incluído no CD “Vinicius 90 Anos”, produzido pela jornalista e esposa do poeta Gilda Mattoso. A frase revela a grandiosa simbiose entre dois músicos maravilhosos, cuja parceria foi além da peça “Orfeu da Conceição”, estendendo-se para músicas como “Insensatez”, “Garota de Ipanema”, “Amor em Paz”, “Chega de Saudade”, entre tantas outras preciosidades que marcaram a história da música.

A frase de Jobim revela, também, muita humildade, responsável por tê-lo feito tão grande, do tamanho do Brasil. A sua obra é frequentemente visitada, servindo de inspiração para muitos músicos e amantes da música. Por motivos diversos, eu conhecia apenas o “Tom do Vinicius” até ouvir, pela primeira vez, e ao vivo, as diversas composições instrumentais que o maestro criou ao longo de sua carreira, em um show ao vivo com o quinteto organizado pelo músico Mario Aphonso III, uma pessoa maravilhosa com quem estou aprendendo saxofone e, também, muito da história da música brasileira, em aulas extremamente proveitosas. Aphonso estuda a obra de Jobim já há muito tempo, apresentando desde a década de 1980 as composições instrumentais do maestro em bares de São Paulo, antes mesmo da expressão “gig” ficar famosa entre os músicos da atualidade.

O show que presenciei ocorreu no All of Jazz, no início de 2016, com um quinteto formado por músicos muito talentosos e que carregam emoção até os corações dos ouvintes. Sem a referência sonora dessas composições, fiquei maravilhado com as cores das harmonias, o entrosamento dos músicos e os voos criativos, em improvisações que fogem do óbvio do virtuosismo pelo virtuosismo. Mas como quem pretende escrever sobre música e é estudante de saxofone, como pode nunca esse miserável ser ter escutado músicas como “Takatanga”, “Andorinha”, “Mojave”, entre as tantas outras 30 composições que o maestro Aphonso pesquisou, estudou e ensaiou para realizar esse projeto sensacional do show Jobim Instrumental? Talvez isso explique porque eu nunca fui da editoria de cultura por onde passei. Mas vou aprendendo, da melhor forma. Conhecendo ao vivo, na lata, e tendo a oportunidade de ouvir a história dessas composições, que o maestro Aphonso vai contando ao longo do show.

Após o show no All of Jazz, podia-se ouvir entre um grupo de rapazes no fundo do bar frases como: “Isso sim que é jazz!” Para além das discussões sobre os que advogam por uma música instrumental brasileira e o jazz, ou um jazz brasileiro, é fato que, seja o nome que se dê a esse tipo de trabalho, é a mais pura expressão da música brasileira, usando a liberdade da improvisação para construir paisagens sonoras onde é possível vislumbrar um País, que em seu percurso chegou a ser brilhante até a década de 1960, enfrentando tristes carnavais até hoje. Ao fim do show, minha sensação era a de um dia tocar essas músicas, ouvir esses discos, escrever sobre o tema, além do desejo de que outras pessoas possam conhecer, ao vivo, a magnífica interpretação de um Tom Jobim Sem Palavras, não apenas por causa da ausência de uma letra na música, mas principalmente pela máxima da expressão popular que simboliza essa sensação de algo que escapa ao raciocínio, que é magnífico, intangível e inexplicável.

Comentários
2 Respostas para “Jobim Sem Palavras”
  1. Sergio Lamucci disse:

    Roger,
    Eu vi há algus anos vários shows do Mario Aphonso III no All of jazz tocando Jobim instrumental. Ele é um músico espetacular. Foi por meio desses shows que conheci e virei fã incondicional de discos como Wave, Tide e Stone Flower. Aliás, a versão do Mario Aphonso e Stone flower que eu ouvi era melhor do que a do disco do próprio Jobim. Eu lembro de ter dito isso a ele depois do show, naquela interação com os músicos que o All of jazz permite, pela proximidade com a plateia. Mario Aphonso não deve se lembrar de mim, mas mande um abraço para ele. E outro a você, claro

    Um abraço,
    Sergio

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