Helio no túnel da Lapa de Baixo em SP

Há Hélio no fim do túnel

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br

A Lapa de Baixo, em São Paulo, é um retrato da pobreza do Brasil. Longe dos espigões da Avenida Paulista, dos escritórios moderninhos das Avenidas Berrini e Faria Lima, as proximidades da estação da Lapa, da CPTM, concentram o maior número de camelôs por metro quadrado. A Rua 12 de Outubro é tomada, de ambos os lados, por vendedores ambulantes, de tal forma que parece impossível transitar pelas calçadas. No fim da rua, há um túnel de cerca de 30 metros, que passa por debaixo dos trilhos da CPTM, que também fica repleto de vendedores. Gente que merece trabalhar, sem ameaças de apreensão de mercadorias, gente sofrida demais. É possível comprar no túnel cigarros, roupas, uva, maçã ovos de páscoa, CDs, DVDs, chocolates, barbeadores e uma infinidade de produtos. Entre pastores evangélicos pregando a palavra do senhor e rapazes entregando santinhos de bordeis, uma voz se sobressai sobre a multidão.

É a voz do violonista e cantor Hélio, 50 anos. Todos os dias, pela manhã, ele viaja de Mogi das Cruzes até o túnel da Lapa para tocar violão, que ele aprendeu aos 20 anos. Hélio ficou cego aos 14 anos, em decorrência de um glaucoma.  Ele recebe, quando tem sorte, até R$ 40 por dia tocando nos túneis. Mas precisa ficar esperto, senão a meninada passa a mão em suas moedas, que se amontoam em uma bacia azul. Atualmente, ele está terminando suas composições próprias, que versam desde fatos do cotidiano por uma ótica leve e engraçada até canções de amor. Está interessado em saber como se faz para registrar suas músicas e, assim, conseguir ter mais recursos para sobreviver. E revela qual é seu sonho: conseguir um implante de dente. Para isso, ele enviou pedidos de ajuda para vários programas de televisão, mas ainda não conseguiu resposta.

Seu Helio é o primeiro entrevistado da Radio Marza, canal do entresons no YouTube para divulgar o áudio de entrevistas e projetos musicais próprios. Ouça abaixo um bate-papo, que aconteceu no dia 13 de junho de 2016, e uma interpretação especial de Amado Batista.

Assim como seu Hélio, eu também perdi um dente, o que dificulta tocar saxofone. A falta de um dente para músicos como seu Hélio prejudica a entonação das notas musicais, não é apenas estética. E cresce no Brasil a preocupação com a saúde de músicos. Uma pesquisa inédita divulgada em janeiro, realizada por Cristina Porto Costa entre 2010 a 2014 em revistas especializadas e em congressos da Associação Brasileira de Educação Musical (Abem) e da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (Anppom), revelou que é crescente a preocupação de médicos e educadores com a saúde de instrumentistas e cantores. Nos últimos quatro anos, médicos e educadores musicais apresentaram nesses congressos 20 artigos e pesquisas debatendo os cuidados com a performance musical desde o ensino até o palco, relatando estudos para combater a ansiedade da performance, distonias, lesões, saúde bucal, entre outros temas. Mas, apesar dos esforços, a pesquisadora avalia que há muito que se avançar nesse debate. A pesquisa está no site da Anppom.

“Num país em que a imagem cultural é tão difundida, como no Carnaval, na Bossa Nova, nas orquestras, novelas, teatros, entre outros tantos, é quase surreal a falta de atenção especial aos músicos na área da saúde ocupacional. Se os músicos e artistas são cuidados, a cultura também estará sendo cuidada, o turismo, e a economia que estas atividades promovem”, afirma o dentista Alexandre de Alcântara, especialista no tratamento de músicos de instrumento de sopro, citado na pesquisa de Cristina Porto Costa.

Em maio, Alcântara se uniu à saxofonista e fisioterapeuta Carolina Valverde, que atua na Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) desde 2009 como professora das disciplinas Consciência Corporal em Performance Musical I e II, para realizar uma série de palestras defendendo uma abordagem específica para a saúde de músicos. A primeira palestra foi realizada no dia 20 de junho de 2016, no auditório da Escola de Música da UEMG. Alcântara e Carolina defendem a criação de uma associação nacional de saúde dos músicos, um tipo de entidade que existe nos Estados Unidos desde o início da década de 1980. Carolina Valverde também faz parte do grupo ExerSer, em Belo Horizonte, que reúne diversos especialistas na abordagem da saúde de instrumentistas e cantores.

Esforço conjunto - Cristina Porto Costa aponta, em seu estudo, iniciativas importantes no meio acadêmico para prevenção de doenças ocupacionais dos músicos em várias partes do País, como na Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal da Paraíba, Universidade Federal do Paraná, Universidade Federal de Goiás, Universidade de Brasília, Universidade Católica de Brasília, Universidade do Estado de Santa Catarina, Universidade Federal da Bahia e Universidade Federal de São João del Rey. “O canto e especialmente o coral, seja qual for o contexto de pesquisa ou experiência, tem sido o melhor contemplado com cuidados de promoção da saúde”, afirma a pesquisadora Cristina Porto Costa, doutora em Educação pela Universidade de Brasília e docente aposentada da Escola de Música de Brasília.

Para Alexandre de Alcântara, seria importante o incentivo prático e financeiro às pesquisas nesta área, além de aumentar o debate sobre o tema entre as classes artísticas e médicas. “Acho que os músicos são pouco valorizados como profissionais e, por isso, não são notados como deveriam pelos profissionais e empresas ligadas à saúde. Além disso, a saúde é um dos grandes problemas no Brasil de maneira geral. É corriqueiro ouvir de alguém se o músico trabalha em outra coisa além da música, e isso é totalmente errado. Músico é uma profissão como todas as outras e isso é no sentido da saúde também, onde há peculiaridades no entendimento destes e de como devem ser atendidos.”

 

 

 

 

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