Rafael - original

De sofás e garrafas jogadas ao mar

Bia Lopes, Marcia Matos e Roger Marzochi

“Por esses dias o grande medo daquele que faz o livro é o de não saber ao certo se está incorrendo de jogar mais um sofá ao rio.” Esse era o receio de Rafael Gombez sobre o destino de seu livro de poesias “Aonde o corpo se põe”, que ele terminara de escrever cerca de um ano antes de sua morte, em 2009, aos 25 anos. Portador de uma doença incurável, a fibrose cística, a metáfora de mais um produto da sociedade industrial boiando como lixo, na ferida líquida da cidade, possa talvez revelar a cegueira coletiva em que vivemos. Há quem, no entanto, veja em seu livro uma mensagem de um tesouro em uma garrafa jogada ao mar. E que hoje, dia 16 de julho de 2016, data em que o poeta completaria 33 anos, chega até a praia. São mais de 10,3 mil palavras, publicadas agora pela editora Patuá, após o empenho de Bia Lopes e Marcia Matos, amigas do poeta. A fibrose cística, que pode ser detectada já com o Teste do Pezinho em recém nascidos, é uma doença genética, que prejudica a produção de suor, enzimas e mucos, provocando sintomas como pneumonia, tosse e infecções.

“Penso que a poética do Rafael – aquilo que se escreveu nele antes dele escrever – nasceu da exigência de tornar-se mar aberto mesmo no leito esquecido de um hospital”, afirma o escritor Juliano Garcia Pessanha, que assina a orelha da publicação. “Rafael cantou a vinda da mulher incandescente, mulher cujo gozo apagasse a tatuagem mortífera do diagnóstico inicial. ‘Somente tua pele crua derramada feito mar sobre meu peito’. ‘Porque só a beleza me cura’.”

José Miguel Wisnik, músico e professor, faz a apresentação do livro, lembrando sua relação com o poeta, seu aluno em estudos de literatura na USP. E revela que, apesar de Gombez conviver com a premência da morte, nunca mostrou morbidez, mas uma intensa pulsação de vida inspirada na poesia e na arte. “Rafael olhou com lucidez a morte, lutou para desnudá-la dos véus e das vendas tenebrosas com que fomos ensinados a vesti-la, e fez com as armas etéreas da poesia aquilo que um dia, com sorte, faremos todos: deixar por um instante extremo, no caos e na presença pungente de uma ausência, a vida toda iluminada.”

Rafael nasceu em Ji-Paraná (Rondônia), o sexto filho de Maria das Graças que, aos 35 anos já havia perdido dois bebês em decorrência de fibrose cística. Ao perceber que seu sexto filho também possuía a doença, dona Graça buscou tratamento em São Paulo, para onde passou a se deslocar com o filho a cada semestre, que é o que as despesas permitiam. Com a saúde se debilitando por manterem tratamento apenas uma vez por semestre, dona Graça fez a escolha exigida pela circunstância: levou Rafael ao destino de seu pedido feito em uma tarde, aos sete anos, enquanto viam TV. Ele teria anunciado à mãe: “Se é prá eu morrer dessa doença, mãe, não me deixa morrer aqui nessa cidade não, me leva pra morar em São Paulo, mãezinha”.

E desse pedido, a mãe tomou coragem e fixou residência em São Paulo, e posteriormente, em meados da década de 1990, em São Bernardo do Campo. Graça deixou para trás família, marido e outros três filhos para trabalhar como costureira e manter o tratamento de Rafael. O Departamento de Fibrose Cística do Hospital São Paulo, uma das maiores referências ambulatoriais do País na época, acolheu Rafael desde os três anos de idade e Graça dedicava sua vida para recuperar a saúde frágil do filho, que crescia em gênio, sensibilidade, e gosto pelos livros, seus companheiros inseparáveis nas tantas internações que o tratamento exigia.

Desde o lugar ocupado nas filas do atendimento ou de qualquer outro lugar que passasse, Rafael não deixava de marcar sua presença sempre amorosa, atenta e perspicaz, sendo até hoje lembrado não só por seus amigos e parentes, como por ex-patrões, professores, artistas de quem ele era fã, enfermeiros, médicos e até recepcionistas dos hospitais em que esteve. Enquanto Graça trabalhava, Rafael, com oito anos, passava o dia aos cuidados de uma senhora, que também olhava um bebê de oito meses, chamada Yasmin, por quem Rafael nutriu relação muito especial de magia e cuidados de irmão mais velho. Foi de seus braços, inclusive, que Yasmin desceu para dar os primeiros passos.

Para Rafael, São Paulo era uma cidade de eventos culturais que lhe apresentava pessoas extraordinárias, mas também era uma cidade que lhe fazia sentir muita falta do mar e de um horizonte onde pousar. Em São Bernardo do Campo participou de oficinas de poesia, do movimento estudantil e cursou, sem concluir, Faculdade de Direito São Bernardo. Leitor atento das falas do cotidiano, de ensaios de filosofia e sociologia, Rafael encontrou na poesia e na literatura lugares propícios e comoventes para trabalhar na sua vida. Sentiu profundamente sua escrita e seu modo de existir transformarem-se no contato com as obras de Augusto dos Anjos, Rimbaud, Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, Roberto Freire, Juliano Garcia Pessanha e Herberto Helder. Gostava muito de estar perto de seus amigos, de saborear um bom vinho e um chazinho de erva-doce, e de descobrir as novas vozes da canção brasileira. Apesar dos esforços amorosos da família, faleceu em 2 de janeiro de 2009. Agora, com o lançamento de “Aonde o corpo se põe”, a sua visão sobre a vida amplia os horizontes dos que aqui ficaram. Esse é o principal tesouro, que esta garrafa-livro jogada ao mar, à praia hoje trás. “São tantas as dores e a vida imensa quanto o mar.”

SERVIÇO

Lançamento do livro “Aonde o corpo se põe”, de Rafael Gombez

16/07, a partir das 16h

Patuscada Café e Livraria – Rua Luis Murat, 40 – Vila Madalena – São Paulo

 

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