A Deriva

À Deriva frita o cérebro em novo CD

Roger Marzochi, São Paulo, entresons, roger@entresons.com.br – Foto de Fábio Minagawa

Cérebro frito! Era esse o cheiro que exalava das cerca de 50 almas que presenciaram, na sexta-feira 29, o show de lançamento do sexto CD do quarto de jazz À Deriva, no espaço cultural Serralheria, em São Paulo. “O muro rever o rumo” é resultado da associação da banda com o grupo de teatro Les Commedies Tropicales, mais especificamente, reflexos sonoros da última encenação, “Guerra sem batalha ou Agora e por um tempo muito longo não haverá mais vencedores neste mundo apenas vencidos”. A peça é inspirada na obra “Mauser”, de Heiner Muller, assim como na biografia do dramaturgo alemão “Guerra sem batalha: uma vida entre duas ditaduras”. O CD é distribuído gratuitamente junto com o livro “arrancar a relva para que o verde permaneça”, com a história dos dez anos da companhia de teatro. Tanto o espetáculo quanto o CD foram possíveis devido à ajuda da Lei de Fomento ao Teatro do município de São Paulo.

Heiner Muller, considerado um dos expoentes da criação teatral do século 20, escreve diálogos pouco usuais, nos quais as palavras parecem perder o sentido à medida que avança a trama, expondo os principais conflitos da RDA, a Alemanha Oriental sob o manto da malfadada utopia de uma república proletária. A partir dos conflitos entre o indivíduo e o coletivo, da imensurável pressão de um governo autoritário que detêm plenamente o império da violência, Carlos Canhameiro, integrante de Lês Commedies Tropicales, escreve linhas contundentes sobre a violência e as barreiras do ser humano no caminho da alteridade.

Embora o grupo argumente que as 11 músicas do CD não estão subordinadas às cenas, em vários trechos, integrantes do grupo de teatro cantam-declamam o texto de Canheiro e de “Mauser”, em um choque de violentas palavras que, para quem não viu a peça, chega a fazer certa conexão com trechos de filmes de Quentin Tarantino. “Você vai atirar e um pouco depois morrer. Pode mesmo foder o meu corpo morto o buraco a mais que fez sem tesão. Coloca tua porra branca no meio do meu cérebro cinza. Estou morto. Não precisa respeitar o corpo se não respeita a vida. Fode minha cabeça fodida.”

A potência das palavras, das mais amplas expressões dos desamores humanos, transfere-se para o som, que passa do rock, ao jazz e à música eletrônica como um ônibus desgovernado, atropelando a multidão no ponto. Em texto de divulgação, o grupo explica que o CD “representa um singular ponto de convergência, em que há diluição de limites entre materiais tão distintos quanto a improvisação livre, o free jazz, a música eletroacústica, a composição atonal, o jazz modal, o rock e a música para a cena”.

A violência chega aos átomos e elétrons a partir de uma brincadeira sonora que o pianista Daniel Muller faz tocando, em algumas músicas, uma velha televisão sem sintonia, como que representando a miríade de microondas que transpõem nossos corpos pelos sinais de rádio, televisão e telefonia celular. Muller tocou plenamente a televisão, de forma tão brusca, como as sirenes na música de Edgard Varèse em “Amériques”. O Trio Improvisado, aliás, já usou televisão e sintetizados em seu jazz no disco “Interferências”, de 2012. Já o compositor e contrabaixista Rui Barossi, em sua calça jeans suave e blusa roxa com estampas floridas, assumiu também uma guitarra nos momentos mais rock and roll do CD. E o saxofonista Beto Sporleder, com suas vestes franciscanas, vira DJ em um laptop, chegando a alguns momentos de pura balada. Apesar dos ruídos na música, o grupo chegou a pedir para a direção da casa desligar o ar condicionado, para o barulho não interferir no som.

Ao fim do show, o baterista Guilherme Marques pergunta: “Diz aí, não é nada do que você esperava”, com ar triunfal. Definitivamente, ao se comparar com os outros trabalhos da banda, o “O muro rever o rumo” é um ponto fora da curva. Embora, o desespero que seu som carrega tem força semelhante à obra-prima da banda, “Suíte de um Náufrago”, de 2010, mas obviamente guardando as devidas proporções.

Deixe um comentário

Social



Licença de uso

Licença Creative Commons
Os textos do Entresons são publicados com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Você pode reproduzir, retransmitir e distribuir o conteúdo, desde que com crédito (ao site e ao autor do texto), para uso não-comercial e com uma licença similar.

Próximos shows

Assinar: RSS iCal